RESUMO
A visita aos túmulos
Ciente de que o sistema judicial dos homens é incapaz de capturar a besta, Victor Frankenstein decide abandonar Genebra para sempre, dedicando o que resta da sua vida exclusivamente à vingança. Antes de iniciar a perseguição, durante a calada da noite, visita o cemitério onde repousam as vítimas da sua criação (William, Elizabeth e o seu pai, Alphonse).
A promessa sombria
Sobre as sepulturas, Victor faz um juramento desesperado e solene, clamando aos espíritos da noite e às almas de seus entes amados que lhe deem força para perseguir, caçar e destruir o monstro.
A provocação oculta
Um riso aterrorizante e gutural ecoa nas trevas do cemitério, quebrando o silêncio. Em seguida, a voz da criatura sussurra uma declaração de provocação aos ouvidos de Victor, confirmando que aceita o desafio e revelando-se satisfeita por ver que o seu criador abraçou definitivamente a miséria e a caçada.
ANÁLISE
No início da narrativa, Victor Frankenstein frequentou cemitérios e ossários para roubar peças da morte com a ambição de criar vida (brincando de Deus). Agora, no clímax do seu desespero, retorna ao cemitério para invocar as forças das trevas e da destruição (assumindo o papel de demônio). O riso gutural do monstro e a sua provocação sussurrada nas sombras não são um sinal de medo, mas de triunfo psicológico absoluto. A criatura alegra-se por perceber que Victor perdeu, finalmente, o último resquício de sua humanidade. Ao jurar dedicar cada fibra do seu ser ao ódio e à vingança, Victor desce ao nível de barbárie do monstro. Neste cemitério, consolida-se o Doppelgänger (o duplo): criador e criatura tornam-se psicologicamente a mesma entidade, espelhos exatos de miséria e obsessão.
A jornada incansável
Munido de algum dinheiro e uma resiliência movida a ódio, Victor segue o rasto da criatura. A perseguição estende-se por vários meses, descendo a costa do rio Ródano, navegando pelo Mediterrâneo, alcançando o Mar Negro e adentrando os desertos e as estepes selvagens da Tartária e da Rússia.
O rasto intencional
Durante o exaustivo trajeto, o monstro evita o embate físico, mas certifica-se de deixar indícios constantes e deliberados do seu paradeiro. Esculpe mensagens e marcas em rochas, e entalha textos provocativos na casca de árvores, informando a Victor sobre a rota em direção aos gelos do norte e instigando a fúria do perseguidor.
A manutenção da vida
De forma calculista, a criatura caça animais e deixa alimentos, além de vestígios de fogueiras, no caminho de Victor. Esta ação visa exclusivamente impedir que o criador morra de inanição ou fadiga, garantindo que ele possua força suficiente para suportar o prolongamento daquela tortura e dar continuidade à caçada no ambiente glacial.
A perseguição global ilustra a total inversão na dinâmica de poder do romance. Victor não é mais o mestre caçando a anomalia; ele foi reduzido a um cão de caça manipulado pela sua presa. É o monstro quem dita a rota, o ritmo e a própria sobrevivência de Victor ao longo da jornada. O ato do monstro de deixar marcas nas árvores e fornecer comida não é um resquício de bondade, mas o ápice da tortura psicológica. A criatura deseja impor a Victor a mesma pena que sofreu ao longo de sua existência artificial: uma vida de exaustão prolongada, isolamento absoluto e desolação. Manter Victor vivo é garantir que o seu sofrimento se arraste, transformando a vastidão da Terra numa prisão sem grades para a mente do criador.
O norte congelado
A perseguição transpõe as massas de terra e atinge as vastidões de gelo do Ártico. A criatura apodera-se de um trenó puxado por cães, obrigando Victor a adquirir na Rússia o seu próprio equipamento e provisões para se lançar na mortífera travessia sobre o oceano solidificado.
A visão no gelo
A distância entre o caçador e a presa encurta-se drasticamente no horizonte branco. A determinada altura, Victor consegue avistar distintamente o monstro e o seu trenó a apenas uma milha de distância. O confronto direto afigura-se iminente.
A fenda intransponível
No momento em que o embate parece prestes a concretizar-se, uma violenta agitação marítima abala a calota polar. As correntes oceânicas e a fúria da natureza fragmentam abruptamente a superfície congelada, gerando uma fenda letal e larga que separa de vez criador e criatura. O monstro afasta-se na neblina, enquanto Victor fica isolado, à deriva num bloco de gelo cada vez menor.
O cenário de gelo eterno não é apenas geográfico; é o espelho da paisagem interior de Victor. O Ártico representa a morte emocional completa, a ausência de calor humano e o congelamento das ambições iluministas que antes ardiam no coração do cientista. Do ponto de vista estrutural, a fenda no gelo que se abre exatamente no momento em que o confronto parece iminente é de extrema importância temática. A Natureza — que Victor profanou e desrespeitou ao longo de toda a sua vida científica — intervém como força punitiva final. A quebra do gelo rouba de Victor a catarse da vingança; ele é privado até mesmo do direito de destruir a sua obra. A Natureza separa-os, abandonando o criador à própria insignificância, à deriva num oceano gelado, impotente diante das forças do mundo natural.
A intersecção de narrativas (O navio de Walton)
Após perder vários dos seus cães e encontrar-se à beira de morrer de inanição e de frio extremo, Victor é avistado pelo navio de exploração do Capitão Robert Walton e resgatado a bordo. Neste ponto do capítulo, as linhas temporais da narrativa conectam-se finalmente com as cartas que abrem a obra.
A correção dos manuscritos
Victor conclui o relato oral de sua tragédia a Walton. Durante as semanas seguintes, ao recuperar brevemente uma parcela ínfima de energia, dedica-se a ler, ouvir e revisar as anotações diárias que Walton tomou sobre a história. Ele faz adições e correções minuciosas para assegurar a absoluta precisão dos fatos relatados.
A transferência da missão e o fechar das cortinas
Totalmente esgotado e consciente do colapso inevitável do seu corpo, Victor entrega-se à fatalidade. Pede formalmente ao Capitão Walton que prometa herdar e concluir a caçada caso ele próprio morra sem executar a besta, implorando que o marinheiro jamais seja seduzido pela lábia do monstro e que cumpra o dever irrevogável de o destruir, selando assim o seu relato e o Capítulo 24.
A intersecção final com o resgate pelo navio de Walton traz o romance de volta à sua moldura epistolar. Contudo, a atitude de Victor no seu leito de morte é profundamente trágica e reveladora. O fato de ele gastar as suas últimas energias editando e corrigindo as anotações de Walton demonstra que a sua vaidade persiste até o último fôlego. Ele está obcecado com o seu legado, garantindo que o mundo conheça a sua versão da história. Diferente dos heróis clássicos, a análise aponta que Victor morre sem experimentar uma verdadeira epifania moral ou redenção. O seu pedido final para que Walton assuma a tarefa de caçar e matar o monstro é o atestado de sua cegueira. Em vez de usar a sua tragédia para ensinar a Walton os perigos da ambição cega (como o próprio Victor alegara pretender fazer na Carta 4), tenta infectar o jovem marinheiro com a mesma sede de glória destrutiva e vingança que o levou à ruína. Victor morre acreditando que o seu único pecado foi não ter finalizado a morte física do monstro, falhando até o fim em perceber que o seu verdadeiro crime foi a negligência e a falta de compaixão.

Guias de estudos literários para todos os tipos de leitores.
© 2026 All Rights Reserved.