Frankenstein: Capítulo 23

Resumo & Análise

RESUMO

A tempestade e a paranoia
Victor Frankenstein e Elizabeth Lavenza desembarcam em Evian para a noite de núpcias. O ambiente é rapidamente tomado por uma tempestade violenta, com chuvas pesadas e ventos fortes. Victor entra em um estado de alerta extremo, armado com pistolas e inspecionando cada canto da estalagem, pois tem a certeza absoluta de que o monstro aparecerá naquela noite para assassiná-lo.
O isolamento de Elizabeth
Preocupado com a iminência de um combate mortal e com o terror que a visão do monstro causaria em sua esposa, Victor pede que Elizabeth se retire para o quarto de dormir sozinha, enquanto permanece patrulhando os corredores.

ANÁLISE

A análise da chegada a Evian revela a culminação da hybris (arrogância cega) de Victor Frankenstein. Do ponto de vista literário, a tempestade violenta que assola o Lago Genebra atua como um recurso clássico de falácia patética (a projeção de emoções humanas na natureza), espelhando o estado psicológico turbulento e fraturado do protagonista, bem como prenunciando o caos iminente. Contudo, o elemento psicológico mais profundo deste trecho é a cegueira egocêntrica de Victor. Ao armar-se e patrulhar os corredores, demonstra a sua inabalável convicção de que ele próprio é o alvo do monstro. Ele ignora por completo o padrão de retaliação da criatura, que até então consistia em destruir todos os entes queridos de Victor para infligir-lhe a dor do isolamento absoluto. A sua decisão de deixar Elizabeth sozinha no quarto de dormir não é apenas uma falha tática, mas uma metáfora de sua incapacidade crônica de proteger os outros. A tragédia nasce da recusa de Victor em ver além de si mesmo.

O grito e a descoberta
Durante a sua ronda, Victor ouve um grito agudo e desesperado vindo do quarto. Ao correr para o local, encontra Elizabeth estrangulada, sem vida e caída sobre a cama. É apenas neste momento que Victor compreende o verdadeiro significado da ameaça do monstro (“Estarei contigo na tua noite de núpcias”): o alvo não era ele, mas sim a sua noiva.
A aparição à janela e a fuga
Diante da visão do cadáver, Victor sofre um desmaio. Ao recobrar os sentidos com as pessoas da estalagem ao seu redor, olha para a janela do quarto e vê a figura gigantesca do monstro, iluminada por um relâmpago. A criatura exibe um sorriso macabro e aponta um dedo para o corpo de Elizabeth. Victor dispara a sua pistola, mas o monstro mergulha nas águas do lago e escapa imune. As buscas realizadas pelos habitantes locais fracassam.

A morte de Elizabeth Lavenza no leito conjugal representa o ponto de ruptura total da narrativa e a perversão absoluta do ideal romântico. A análise estrutural aponta que este assassinato é a contrapartida exata (o “olho por olho”) da ação de Victor no Capítulo 20, quando este destruiu a companheira feminina que estava a construir para a criatura. Assim como Victor negou uma parceira ao monstro, o monstro aniquila a parceira de Victor, cumprindo a promessa ambígua: “Estarei contigo na tua noite de núpcias”. Há, além disso, um macabro espelhamento visual (Doppelgänger): a imagem de Elizabeth morta sobre a cama evoca e inverte a cena da criação do monstro. Enquanto o laboratório em Ingolstadt viu a ciência injetar vida no que estava morto, a noite de núpcias vê o produto dessa ciência roubar a vida, a inocência e o futuro de Victor. O sorriso da criatura iluminado pelo relâmpago é a consagração do seu triunfo existencial sobre o seu criador.

A notícia trágica
Victor retorna imediatamente a Genebra, completamente desolado, carregando a notícia da morte de Elizabeth.
O colapso do pai
Ao ser informado do brutal assassinato da jovem que considerava como filha, Alphonse Frankenstein, o pai de Victor, não suporta o peso de mais uma tragédia em sua família. Ele sofre um colapso e, após alguns dias de agonia, falece nos braços do filho, vítima de um desgosto profundo.

A morte de Alphonse Frankenstein é frequentemente analisada como o colapso definitivo das fundações iluministas da obra. O pai de Victor personifica a razão, a civilização, a ordem jurídica de Genebra e a segurança da estrutura familiar patriarcal. Ao sucumbir ao desgosto (“coração partido”), a narrativa demonstra que as virtudes tradicionais e o afeto humano são impotentes e frágeis perante o horror incontrolável libertado pelas transgressões científicas de Victor. A extinção funcional da linhagem Frankenstein sublinha a ironia de que a tentativa de Victor de dominar os segredos da vida e da morte resultou apenas na erradicação completa da sua própria família. Com a morte de Alphonse, o último cordão umbilical moral que mantinha Victor ligado à sanidade e à sociedade dos homens é irrevogavelmente cortado.

O colapso e o tribunal
Após a morte do pai, Victor sofre uma nova crise nervosa e passa um período recluso e acorrentado, sendo tratado momentaneamente como louco. Ao recuperar a lucidez, dirige-se ao magistrado criminal local.
A revelação do segredo
Pela primeira vez, Victor confessa abertamente toda a sua história. Ele relata a criação do monstro e denuncia a criatura como a verdadeira autora dos assassinatos de William, Justine, Clerval e Elizabeth, exigindo que a justiça persiga o assassino.
A descrença
O magistrado escuta o relato com uma mistura de incredulidade e polidez. Embora não o chame diretamente de louco, afirma que, mesmo que a história fosse verdadeira, a força sobre-humana da criatura, a sua agilidade e o desconhecimento do seu paradeiro tornariam qualquer perseguição oficial infrutífera.
O juramento solitário
Frustrado com a impotência da justiça dos homens, Victor toma uma decisão definitiva. Ele jura consagrar o resto de sua vida a um único propósito: caçar e destruir a abominação que criou, iniciando assim a sua jornada solitária de vingança.

O último segmento do capítulo ilustra a inutilidade das instituições humanas diante de forças que transcendem a natureza comum. A confissão de Victor ao magistrado é tardia e irônica; o homem que passou a narrativa inteira ocultando o seu segredo por medo de ser tido por louco, finalmente revela a verdade apenas para descobrir que o sistema judicial iluminista, fundamentado na lógica e em provas materiais, é incapaz de conceber, processar ou deter uma abominação super-humana. A recusa do magistrado em agir atua como o gatilho final para a metamorfose de Victor. Ao fazer o seu juramento solitário de vingança, a análise conclui que Victor abraça, por fim, a sua própria monstruosidade interior. Ele renuncia a qualquer pretensão de futuro, amor ou paz, adotando exatamente a mesma motivação obsessiva e destrutiva que consumia a sua criatura. Neste exato momento, a simbiose entre o Criador e a Criatura completa-se: Victor torna-se o caçador, mas, psicologicamente, ele e o monstro já são a mesma entidade, unidos apenas pelo ódio mútuo e pela promessa de aniquilação.

gemini generated image rhp3jcrhp3jcrhp3 (1) (1)

Guias de estudos literários para todos os tipos de leitores.

Contato

© 2026 All Rights Reserved.