Frankenstein: Capítulo 21

Resumo & Análise

RESUMO

A chegada à corte
Victor Frankenstein, após desembarcar na costa irlandesa, é imediatamente conduzido, sob suspeita, à presença do Sr. Kirwin, o magistrado local, para responder por uma acusação de homicídio.
O relato dos moradores locais
Diversas testemunhas depõem perante o magistrado. Elas relatam que, na noite anterior, encontraram o cadáver de um jovem na praia. Os depoentes afirmam ter visto um barco solitário, com um único ocupante e muito semelhante àquele em que Victor chegou, afastando-se do local do crime logo após a descoberta do corpo.

ANÁLISE

A recepção agressiva que Victor sofre na Irlanda espelha tragicamente as experiências de rejeição da própria criatura. Assim como o monstro foi atacado pelos aldeões simplesmente por ser diferente e assustador, Victor é imediatamente presumido culpado pelos moradores locais por ser um forasteiro chegando de forma suspeita. A análise evidencia a crítica recorrente de Mary Shelley à fragilidade e à arbitrariedade da justiça humana. Assim como ocorreu com Justine Moritz em Genebra, o tribunal popular baseia-se em evidências circunstanciais e na fúria cega. A sociedade prefere encontrar rapidamente um bode expiatório a buscar a verdade complexa, evidenciando como as leis dos homens são inadequadas para lidar com as maquinações do destino ou os horrores forjados pela arrogância científica.

A ordem do magistrado
O Sr. Kirwin decide levar Victor até a sala onde o cadáver repousa, com a intenção de observar de perto a reação do suspeito diante do corpo da vítima.
A identificação da vítima
Ao deparar-se com o cadáver, Victor reconhece instantaneamente a vítima: é Henry Clerval, o seu amigo de infância. O pescoço de Clerval exibe marcas escuras e profundas de dedos, o método letal e característico de estrangulamento utilizado pela criatura.
O colapso
Dominado pelo choque e pelo terror, Victor atira-se sobre o corpo inerte de Clerval. Ele grita desesperadamente que as suas próprias ações resultaram na morte de mais uma vida inocente. Imediatamente após a explosão emocional, ele entra em convulsões violentas e perde a consciência.

Henry Clerval representa, em toda a obra, a antítese de Victor. Clerval é o ideal romântico puro: conectado à natureza, empático, saudável e moralmente íntegro. A sua morte por estrangulamento marca não apenas a perda de um amigo, mas o assassinato da própria essência humana e compassiva de Victor. Com Clerval morto, a última âncora que prendia Victor à sanidade e à inocência é destruída. As marcas negras no pescoço de Clerval são a assinatura definitiva da criatura, mas, de uma perspectiva psicológica e simbólica, os dedos que apertaram a garganta de Clerval são os de Victor. Ao destruir a criatura feminina no capítulo anterior, Victor declarou guerra, aceitando que as consequências recairiam sobre os que ele amava. A sua convulsão e colapso diante do corpo não são apenas choque, mas a admissão terrível de que o monstro atua como o executor de suas próprias falhas morais.

O adoecimento severo
Victor permanece em estado gravíssimo durante cerca de dois meses. É acometido por uma febre nervosa intensa que o mantém à beira da morte.
Os delírios
Durante esse período, Victor sofre com alucinações e delírios, nos quais confessa abertamente ser o assassino de William, Justine e Clerval.
O despertar na prisão
Ao recobrar finalmente a lucidez, Victor percebe que se encontra confinado em uma cela lúgubre de prisão. Ele descobre, mais tarde, que as suas confissões delirantes não incitaram condenação imediata apenas porque foram proferidas na sua língua nativa, que os locais e os guardas não compreendiam plenamente.

Assim como ocorreu após a animação do monstro em Ingolstadt, a mente de Victor não consegue suportar a realidade de suas ações e “desliga-se” do corpo. A febre nervosa que o consome por dois meses atua como uma barreira psicossomática protetora, permitindo-lhe escapar temporariamente da obrigação de lidar com a morte de Clerval e a ameaça contínua do monstro. A ironia de suas confissões delirantes na prisão reside na barreira linguística. Victor confessa ser o assassino de William, Justine e Clerval em francês, uma língua que os guardas irlandeses não compreendem. Esta falha de comunicação sublinha a profunda tese da sua alienação: Victor atingiu um nível de transgressão e isolamento tão profundo que a sua culpa é literalmente incompreensível para o resto da humanidade. Ele não pode sequer ser punido pelas leis terrestres porque o seu crime pertence a um domínio inalcançável.

Os cuidados médicos
O Sr. Kirwin demonstra um tratamento mais humanizado. Tendo encontrado cartas de Genebra entre os pertences de Victor, ele percebeu a origem do prisioneiro, providenciou a assistência de um médico e de uma enfermeira particular para cuidar dele na cela, e contatou a sua família.
A notícia de um visitante
O magistrado visita Victor e informa que um conhecido viajou para vê-lo. Num momento de pavor paralisante, Victor teme que a criatura tenha ido visitá-lo para regozijar-se de sua ruína.
O reencontro
O visitante entra na cela e revela-se ser Alphonse Frankenstein, o pai de Victor. A presença do pai traz um alívio momentâneo e um conforto frágil a Victor, embora não apague o seu estado de profunda agonia e depressão.

O Sr. Kirwin atua como um raro exemplo de autoridade justa e compassiva na obra, contrastando fortemente com a negligência dos juízes de Genebra e a fúria irracional dos aldeões. Ele investiga antes de condenar, demonstrando empatia pelas evidências de berço e sofrimento de Victor. A chegada de Alphonse Frankenstein introduz uma dinâmica psicológica trágica. Sempre que a tragédia atinge níveis insuportáveis, Victor regride a um estado de total dependência infantil. Ele chora nos braços do pai, precisando ser salvo e cuidado. Contudo, esta relação é corroída pela omissão: Victor recusa-se a revelar ao pai a existência do monstro, mantendo a redoma de segredos que o impede de agir como o protetor da sua própria família.

O julgamento formal
Quando Victor adquire força física suficiente, é levado a julgamento pelo grande júri. Durante o processo, são apresentadas evidências documentais e testemunhais irrefutáveis de que Victor se encontrava nas Ilhas Órcades no momento exato em que o corpo de Clerval foi descoberto na Irlanda.
A libertação
Diante da prova de álibi, Victor é formalmente absolvido das acusações de homicídio e libertado da prisão.
A jornada de regresso
Extremamente debilitado e dependente dos cuidados do pai, Victor despede-se do Sr. Kirwin. Alphonse e Victor embarcam em um navio com destino a Holyhead, iniciando o longo trajeto de retorno para a Suíça, passando por Paris. Durante a viagem, Victor revela que começou a tomar doses diárias de láudano em segredo para conseguir suportar os tormentos da sua mente e conseguir dormir.

A absolvição de Victor pelo grande júri baseia-se numa prova inegável de álibi geográfico (ele estava nas Ilhas Órcades quando o corpo foi encontrado). Esta vitória legal é a suprema ironia do capítulo. As leis dos homens declaram-no inocente, mas as leis cósmicas e morais já o sentenciaram irrevogavelmente. O leitor compreende que ele está fisicamente livre da prisão de pedra, mas eternamente aprisionado na cela da sua própria culpa. A revelação de que Victor começou a consumir láudano (uma tintura de ópio) em segredo para conseguir dormir é o símbolo final de sua falência estrutural. Tendo fracassado em controlar a natureza e em proteger aqueles que amava, ele recorre a entorpecentes para assassinar a sua própria consciência. O químico arrogante que outrora manipulou a ciência para criar vida, agora utiliza a química para simular a letargia da morte e escapar aos horrores da própria mente.

gemini generated image rhp3jcrhp3jcrhp3 (1) (1)

Guias de estudos literários para todos os tipos de leitores.

Contato

© 2026 All Rights Reserved.