RESUMO
As dúvidas de Victor
Enquanto trabalha no corpo da nova criatura no seu laboratório isolado, Victor Frankenstein começa a refletir sobre as possíveis consequências do seu ato. Ele avalia que a fêmea terá o seu próprio livre-arbítrio, podendo recusar-se a viver isolada nos desertos, odiar a deformidade do seu companheiro ou, no pior dos cenários, que ambos possam reproduzir-se, infestando o mundo com uma “raça de demônios”.
O observador na janela
Durante estas deliberações noturnas, Victor levanta os olhos e vê a primeira criatura a observá-lo através da janela. O rosto do monstro exibe um sorriso horrendo de antecipação.
O despedaçamento do corpo
Tomado pelo horror, pela repulsa e pela decisão de não infligir outra maldição à humanidade, Victor destrói a fêmea inacabada, rasgando o corpo em pedaços sob o olhar direto da criatura.
A fuga do monstro
Ao testemunhar a destruição da companheira que era a sua única esperança, a criatura solta um uivo aterrador de agonia e desespero e retira-se para a escuridão.
ANÁLISE
A destruição da fêmea inacabada marca o momento moral mais ambíguo e complexo da jornada de Victor Frankenstein. A análise aponta que este é, paradoxalmente, o seu primeiro e único ato de verdadeira responsabilidade para com a humanidade. Ao antecipar que a nova criatura possuirá livre-arbítrio (podendo rejeitar o pacto feito pelo seu companheiro) e temer a propagação de uma “raça de demônios”, Victor finalmente prioriza o bem coletivo acima do seu próprio conforto e sobrevivência. Contudo, psicologicamente, alguns estudiosos concluem que este ato revela também um terror misógino de Victor perante a autonomia feminina: a ideia de uma fêmea incontrolável, capaz de ter as suas próprias vontades e de dominar o ciclo reprodutivo, paralisa-o. Ao destroçar o corpo diante dos olhos do monstro, Victor pratica um “aborto” sádico e visual, aniquilando a única esperança de afeto da sua abominação. A atitude consolida a crueldade do criador, provando que prefere destruir a vida a ceder o controle sobre ela.
A invasão
Horas mais tarde, o monstro entra na cabana de Victor. A criatura confronta o seu criador com fúria. Ela questiona a quebra da promessa, declara-se o “mestre” da situação, chama Victor de “escravo” e exige que o trabalho na fêmea seja retomado imediatamente.
A ameaça definitiva
Victor mantém-se firme na sua recusa e declara que não cederá às exigências. Em resposta, a criatura abandona a cabana, mas não sem antes proferir um ultimato claro e funesto: “Irei embora, mas lembra-te: estarei contigo na tua noite de núpcias”. Após isso, o monstro afasta-se da ilha num pequeno barco.
O encontro verbal que se segue à destruição da fêmea cristaliza a inversão total e definitiva da dinâmica de poder: o estatuto de Criador e Criatura dissolve-se, substituído pela dinâmica de “Senhor e Escravo”, onde a abominação assume o papel de mestre incontestável. A análise estrutural foca-se no peso do ultimato fatal: “Estarei contigo na tua noite de núpcias”. Esta ameaça atua como o dispositivo supremo de tensão psicológica para o resto do romance. No entanto, sublinha a profunda e fatal cegueira narcisista de Victor. Preso ao seu egoísmo, o cientista interpreta a ameaça literalmente, acreditando que ele será o alvo do monstro nessa noite. Ele falha inteiramente em compreender a Lei de Talião (olho por olho) que rege a vingança da criatura: uma vez que Victor destruiu a “esposa” do monstro, a simetria poética e trágica exige que a criatura lhe roube Elizabeth. O narcisismo de Victor impede-o de ver o perigo real, selando o destino da mulher que alega amar.
A carta de Clerval
No dia seguinte, Victor recebe uma carta de Henry Clerval, propondo que se encontrem para prosseguir com a viagem de regresso a Londres e a Genebra, pois Clerval já está cansado de estar na Escócia sozinho.
A limpeza do laboratório
Decidido a abandonar a ilha, Victor passa as horas seguintes a desmontar o seu equipamento químico e laboratorial. Recolhe os restos desmembrados da criatura feminina e coloca-os em cestos pesados, enchendo-os de pedras.
O descarte noturno
Entre as duas e as três da madrugada, Victor entra num pequeno barco a remos. Ele afasta-se consideravelmente da costa para atirar os cestos ao fundo do mar, livrando-se assim de qualquer evidência física do seu trabalho macabro.
O descarte dos pedaços do corpo da fêmea no mar carrega uma densa carga simbólica de purificação macabra. A análise evidencia a obsessão de Victor em esconder os traços materiais das suas transgressões. O mar, que nas cartas iniciais de Robert Walton figurava como um reino de glória, descoberta e luz romântica, é aqui subvertido a um abismo oculto, um cemitério para os pecados de Frankenstein. A justaposição com a carta de Henry Clerval (que o chama de volta à vida social e iluminada de Londres) intensifica o isolamento do cientista. Atirar as pedras e os cestos às águas turbulentas de madrugada é uma tentativa inútil de lavar as suas mãos manchadas de sangue e apagar o passado físico; todavia, embora a matéria tenha afundado, a profanação moral e a retaliação psicológica encontram-se agora mais despertas do que nunca.
Perdido no oceano
Após atirar os restos ao mar, Victor decide descansar um pouco e acaba por adormecer exausto no fundo do barco. Ao acordar, percebe que os ventos mudaram e o empurraram para o mar aberto. Ele passa horas à deriva em águas turbulentas, temendo que o barco afunde e que a sua vida chegue ao fim.
O desembarque
Após muito desespero, o vento muda a seu favor, permitindo-lhe avistar terra firme. Ele consegue atracar o seu bote na costa de uma vila, que mais tarde descobrirá ser na Irlanda.
A recepção acusatória
Em vez de encontrar auxílio após o naufrágio iminente, Victor é recebido de forma rude, hostil e desconfiada pelos habitantes locais. Eles informam-no de que não pode prosseguir livremente e que deve prestar contas ao Sr. Kirwin, o magistrado local, para responder por um assassinato cometido naquela mesma costa na noite anterior.
O momento em que Victor adormece exausto no barco e desperta à deriva em mar aberto é uma metáfora física perfeita para o seu estado psicológico. Ele já não detém as rédeas da própria vida. As correntes e os ventos imprevisíveis espelham a inexorabilidade do “Destino” que ele tanto invoca, bem como o caos iminente instaurado pelo seu inimigo super-humano. O criador foi reduzido a um mero joguete das forças naturais. Ao atracar na costa irlandesa, a transição literária é abrupta e aterradora: Victor escapa da morte pela natureza apenas para cair nas malhas implacáveis do sistema jurídico e da suspeita humana. A recepção hostil e a acusação imediata de assassinato representam o cerco a fechar-se. A análise conclui que a morte que o espera na costa (que em breve se revelará ser a de Clerval) prova que a ilha não lhe conferiu isolamento algum; a maldição viaja mais rápido do que a sua capacidade de fuga, trazendo o horror cósmico para dentro do mundo real das leis e dos homens.

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