RESUMO
O Aprisionamento no Gelo e a Visão do Sobrenatural (5 de agosto)
O otimismo desenfreado de Walton (visto na Carta 3) encontra a barreira implacável da realidade: o navio fica completamente preso em montanhas de gelo, cercado por um denso nevoeiro. Quando a névoa se dissipa, a tripulação testemunha uma cena bizarra: uma carruagem (trenó) puxada por cães cruza a vastidão branca, conduzida por um ser de proporções gigantescas, com “a forma de um homem”.
ANÁLISE
Esta é a primeira aparição da Criatura. A sua introdução ocorre à distância, envolta na névoa e na vastidão inóspita, estabelecendo-a como uma força quase elementar, algo que transcende as leis naturais conhecidas. O gigantismo da figura serve para incutir um terror sublime tanto na tripulação quanto no leitor, preparando o terreno psicológico para os horrores que serão narrados.
O Resgate do Náufrago Europeu (13 de agosto)
O gelo se rompe, libertando o navio. Na manhã seguinte, a tripulação encontra outro trenó, quase destruído, com apenas um cão vivo e um homem à beira da morte por inanição e congelamento. Diferente da figura gigantesca, este homem é de constituição europeia normal. O detalhe mais bizarro e revelador ocorre aqui: mesmo prestes a morrer, o estranho recusa-se a embarcar no navio salvador até que Walton confirme que a embarcação está viajando para o norte.
Este homem é Victor Frankenstein. A sua exigência de continuar rumo ao norte, apesar do seu estado deplorável, evidencia a sua monomania. Ele não busca salvação, mas a vingança e a destruição. A obsessão suplantou o instinto de sobrevivência, uma característica trágica que espelha as próprias pulsões destrutivas do capitão que o resgata.
O Espelhamento Trágico e o Encontro do “Amigo Verdadeiro” (19 de agosto)
Conforme o estranho se recupera fisicamente sob os cuidados de Walton, o resumo demonstra que o capitão desenvolve uma profunda afeição por ele. Walton finalmente encontra o que tanto lamentava não ter na Carta 2: uma mente afim, um irmão de alma, intelectualmente elevado e capaz de compreender as suas ambições.
A genialidade literária de Mary Shelley consolida-se através do recurso do doppelgänger (o duplo). Walton e Frankenstein são espelhos um do outro. Frankenstein, ao ouvir o capitão discursar com paixão sobre sacrificar tudo — fortuna, existência, e a vida de outros — em nome da glória científica e da exploração, entra em desespero profundo. Vê em Walton o seu próprio passado brilhante e maculado pela hybris (a arrogância cega).
O clímax epistolar ocorre quando Frankenstein decide quebrar o seu silêncio. Movido pela dor de ver o jovem capitão prestes a cometer o mesmo erro que o levou à ruína, o estranho propõe narrar a sua história. O objetivo de Frankenstein não é entreter, mas servir como um farol de advertência contra os perigos da ambição desenfreada.
Estruturalmente, a Carta 4 é a dobradiça que conecta o mundo exterior de Walton ao abismo interior de Victor. O romance encerra a sua narrativa em moldura e passa a palavra ao seu protagonista trágico. Walton adota o papel de escrivão, anotando as palavras de Frankenstein todas as noites. O leitor, assim como Walton, acomoda-se agora para ouvir o relato da criação do monstro.

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