RESUMO
O retorno de Victor
Após o encontro com a criatura no Montanvert e o estabelecimento do pacto, Victor Frankenstein regressa à sua casa em Genebra. O seu estado de espírito é de profunda melancolia, terror crônico e isolamento, atormentado pela obrigação de criar um segundo monstro.
A suspeita de Alphonse
O pai de Victor, Alphonse Frankenstein, nota o agravamento da depressão do filho e decide intervir. Ele questiona Victor sobre a causa do seu sofrimento, sugerindo que o compromisso de casar com Elizabeth Lavenza possa ter-se tornado um fardo. Alphonse pergunta diretamente se Victor ama outra mulher e se sente preso pela expectativa da família.
A reafirmação do compromisso
Victor nega veementemente ter outro interesse amoroso. Assegura ao pai que o seu afeto por Elizabeth permanece inabalável e que o casamento com ela é a sua única perspetiva de felicidade futura.
ANÁLISE
A intervenção de Alphonse Frankenstein expõe a limitação do ambiente familiar e da visão de mundo iluminista em que Victor foi criado. Alphonse procura uma causa lógica, mundana e curável para a depressão de Victor — como a hesitação pré-nupcial ou um amor não correspondido. A análise revela que o patriarca é totalmente incapaz de conceber o horror gótico e metafísico que consome o filho. Ao negar que o casamento seja o problema e reafirmar o seu amor por Elizabeth, Victor mente por omissão. Esta cena sublinha a sua tragédia comunicacional: está cercado por uma família que o ama, mas encontra-se num isolamento absoluto. A sua recusa em partilhar o fardo do segredo (por orgulho e medo de ser visto como um louco) não protege a sua família; pelo contrário, transforma-os em alvos fáceis e alheios ao perigo iminente.
O obstáculo secreto
Internamente, Victor tem a certeza de que não pode contrair matrimônio e constituir família enquanto a ameaça do monstro existir. Ele sente que deve cumprir a sua promessa de construir a criatura feminina antes de se permitir qualquer momento de paz ou união matrimonial.
A necessidade da Inglaterra
Victor constata que necessita de recorrer às descobertas recentes e aos conhecimentos de filósofos e cientistas ingleses para concluir a sua nova e macabra tarefa. Assim, convence-se de que deve viajar para a Inglaterra.
O acordo com o pai
Victor expressa a Alphonse o desejo de viajar por algum tempo antes de se casar. O pai concorda com a viagem, vendo nela uma oportunidade de distração que poderá curar a melancolia do filho, e fica estipulado que o casamento com Elizabeth ocorrerá imediatamente após o regresso de Victor a Genebra.
A decisão de Victor de construir a fêmea antes do casamento revela uma compartimentalização mórbida da sua psique. Ele passa a encarar o matrimônio com Elizabeth não como uma união natural, mas como um “prêmio” ou uma recompensa que ele só poderá usufruir após pagar a sua dívida obscura (a criação da fêmea). A necessidade de ir à Inglaterra atua em dois níveis. Pragmaticamente, ele necessita de novos conhecimentos científicos. Psicologicamente, porém, a viagem representa uma tentativa de manter Genebra pura. Victor recusa-se a poluir o seu lar de infância com a sua segunda profanação da natureza. Ele utiliza a viagem como um mecanismo de fuga, iludindo-se de que, ao mudar de cenário, conseguirá tolerar a atrocidade moral do que está prestes a fazer.
Os preparativos
Fica decidido que Victor partirá no final de agosto ou início de setembro, numa viagem que deverá durar alguns meses a um ano. Preocupados com o estado depressivo e solitário de Victor, Alphonse e Elizabeth organizam secretamente uma alteração nos planos: o melhor amigo de Victor, Henry Clerval, irá se juntar a ele em Estrasburgo para o acompanhar durante a expedição.
A reação de Victor
Victor aceita a companhia de Clerval. Embora reconheça que a presença do amigo o impedirá de trabalhar livremente na construção da fêmea, também percebe que Clerval servirá como um escudo momentâneo contra o isolamento absoluto e contra a possível aproximação da sua criatura, que prometeu segui-lo.
A introdução de Henry Clerval nesta viagem é o recurso estrutural mais doloroso do capítulo. Se o Monstro é o espelho do lado sombrio, egoísta e corrompido de Victor, Clerval atua como o espelho da sua luz perdida. Henry representa tudo o que Victor destruiu em si mesmo: a curiosidade saudável, o amor pela humanidade e a inocência. A presença de Clerval cria uma tensão dramática excruciante. Para Victor, Henry é um obstáculo que o impede de trabalhar livremente na nova criatura, mas é, simultaneamente, uma âncora que o liga à sanidade e um escudo contra o monstro. Contudo, o leitor percebe a ironia fatal: ao levar Clerval consigo, Victor não o está a usar como escudo, mas a arrastá-lo diretamente para a arena de caça da criatura.
O início do trajeto
Victor parte de Genebra e encontra-se com Clerval em Estrasburgo. Juntos, decidem descer o rio Reno de barco, passando por diversas paisagens da Alemanha. Durante a viagem de barco, a narrativa expõe as atitudes diametralmente opostas dos dois viajantes. Clerval encontra-se num estado de euforia, maravilhado com a natureza exuberante, os castelos em ruínas e as montanhas. Victor, pelo contrário, permanece absorto na sua angústia, descrevendo-se a si mesmo como um ser miserável, incapaz de desfrutar verdadeiramente das paisagens que o rodeiam.
A chegada ao destino
No final do mês de dezembro, após passarem pelas cidades de Manheim e Colônia, os amigos chegam a Roterdão, onde embarcam num navio com destino à Inglaterra. O capítulo encerra-se com a sua chegada às margens do rio Tâmisa e o desembarque em Londres.
No ideário Romântico, a Natureza (“O Sublime”) tem o poder de curar, elevar e purificar a alma humana. A descida do rio Reno demonstra que Victor está além da salvação romântica. Enquanto Clerval se extasia com a paisagem, declamando poesia e sentindo uma alegria transcendente (personificando o ideal do Romantismo), Victor é um buraco negro de melancolia. A natureza já não consegue penetrar a couraça de culpa de Victor. Ele sente-se alheio à beleza do mundo, descrevendo-se muitas vezes com a metáfora da “árvore atingida por um raio” — estéril, morta por dentro, aguardando apenas a queda. A chegada a Londres marca o fim desta beleza natural e o mergulho na metrópole fria, assinalando que o tempo da contemplação acabou e o tempo do trabalho nefasto irá inevitavelmente recomeçar.

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