Frankenstein: Capítulo 17

Resumo & Análise

RESUMO

O pedido da criatura
Após concluir a narrativa da sua trágica jornada de rejeição e aprendizado, o monstro formaliza a exigência que havia antecipado: Victor deve criar uma companheira feminina, tão deformada e horrenda quanto ele próprio, para que ambos possam partilhar de uma simpatia mútua.
A reação de Victor
Tomado por choque e indignação, Victor recusa a exigência de forma peremptória. Afirma que jamais consentirá em criar outro ser semelhante para que, juntos, possam espalhar uma destruição ainda maior e aterrorizar a humanidade.

ANÁLISE

A exigência de uma companheira reflete o grau absoluto de humanização e racionalidade alcançado pelo monstro. Ele compreende perfeitamente a sua própria psicologia: o isolamento é a raiz exclusiva da sua corrupção moral e da sua fúria. O pedido por uma “Eva” monstruosa espelha a narrativa bíblica do Gênesis, mas subverte-a tragicamente: o monstro (o “Adão” caído) exige do seu Deus falho (Victor) não um direito divino, mas uma reparação pela negligência da sua criação. Em contrapartida, a recusa imediata de Victor ilustra a sua miopia crônica. Ele teme a propagação de uma “raça” de demônios, demonstrando que o seu julgamento continua enraizado no preconceito estético e na presunção de que a maldade da criatura é genética, recusando-se a admitir que a violência do monstro é o produto direto do abandono parental.

A justificativa da fúria
A criatura argumenta de forma articulada que os seus atos de violência não nascem de uma maldade inerente, mas sim do isolamento absoluto e da infelicidade. Afirma que os vícios são filhos diretos da solidão imposta pela humanidade.
O plano de isolamento
O monstro propõe um acordo pacífico. Se Victor lhe conceber uma parceira, jura que ambos abandonarão a Europa e qualquer contato com a civilização humana para sempre. Eles irão se exilar nas vastas e inóspitas selvas da América do Sul.
A dieta e a sobrevivência pacífica
A criatura reforça o seu argumento pacifista garantindo que não precisará caçar animais ou interagir com humanos, pois a sua dieta consiste apenas de bolotas, raízes e frutos (uma dieta estritamente vegetariana), e que uma companheira da mesma espécie se contentaria com a mesma vida rústica.

Neste eixo, a criatura atinge o ápice de sua evolução retórica, utilizando princípios do pensamento iluminista e, mais especificamente, ecos das teorias de Jean-Jacques Rousseau, para justificar a sua condição. A análise demonstra que a criatura não se vê como inerentemente má, mas como o clássico “bom selvagem” que foi corrompido pelas instituições e pela rejeição da civilização. Ao prometer o exílio pacífico na América do Sul e uma dieta baseada em frutos e raízes, a criatura tenta provar que a crueldade é um construto social. A América do Sul atua aqui como um símbolo romântico de utopia intocada, um éden primitivo e livre da opressão estética europeia, ressaltando a suprema ironia literária de que a sociedade “civilizada” é a verdadeira fonte de barbárie na obra.

A hesitação e a empatia
Ao ouvir a elocução do monstro e avaliar a sua solidão, Victor sente-se momentaneamente comovido. Ele percebe a veracidade no relato do sofrimento e reflete que, como criador, tem o dever de proporcionar alguma parcela de felicidade ao ser que trouxe à vida.
O conflito interno
Victor divide-se entre a compaixão pela sua obra e o medo aterrorizante de que as promessas do monstro sejam mentiras, temendo que os dois seres acabem por se odiar ou que decidam retornar à civilização para aniquilar a humanidade.

A hesitação de Victor e a sua eventual mudança de postura revelam uma profunda instabilidade moral. Por um momento transitório, Victor parece acessar a verdadeira empatia, reconhecendo a “justiça” dos argumentos da criatura e o seu dever inato como criador de proporcionar felicidade à sua obra. No entanto, a análise profunda expõe que a compaixão de Victor é engolida pelo instinto de autopreservação. A sua decisão de ceder não provém de um genuíno senso de reparação ética, mas sim do puro terror existencial. Ele não concorda em criar a parceira para salvar a alma da sua primeira criação, mas para proteger a si mesmo e a sua família da ira da besta. Victor demonstra ser incapaz de agir com base em princípios firmes; é movido pelo medo, pela chantagem e pelo cansaço psicológico.

A persistência do monstro
Percebendo a hesitação de Victor, a criatura alterna entre a súplica e a ameaça velada. Adverte que, se o seu direito básico de ter um vínculo afetivo for negado, a sua fúria destruirá tudo o que Victor ama. Por outro lado, caso Victor aceite, a gratidão do monstro será eterna.
A aceitação sob juramento
Após profunda reflexão, Victor decide ceder. Ele concorda em criar a fêmea, impondo como condição que o monstro faça um juramento solene de abandonar o convívio humano imediatamente após a entrega da companheira.

O penúltimo item cristaliza a inversão total da dinâmica de autoridade que rege a obra. Victor Frankenstein já não é o mestre onipotente do laboratório; tornou-se o refém e o escravo de sua própria abominação. A criatura manipula o diálogo de forma magistral, atuando como juiz e carrasco ao alternar entre a lógica irrefutável e a ameaça implacável. O consentimento de Victor sublinha a consumação da tragédia: ao aceitar forjar a companheira, torna-se cúmplice consciente na profanação das leis da natureza pela segunda vez. Ele submete-se ao monstro, confirmando que a vontade do ser artificial e rejeitado suplantou por completo o livre-arbítrio do homem arrogante.

A partida da criatura
O monstro aceita a condição extasiado. Ele jura pelo sol e pelo fogo que manterá a sua palavra. Antes de partir, avisa Victor de que não precisará procurá-lo; a criatura irá vigiar o progresso do trabalho e aparecerá assim que a nova obra estiver concluída. Em seguida, o gigante desce rapidamente pelas fendas de gelo e desaparece na imensidão branca.
A descida sombria de Victor
Deixado sozinho no Montanvert, Victor inicia a sua descida de volta à civilização. Retorna primeiro à vila de Chamounix no dia seguinte e, posteriormente, regressa à sua casa em Genebra. Encontra-se fisicamente exausto e psicologicamente esmagado pela promessa que fez, ciente de que precisará retomar os seus abomináveis estudos e a prática da dissecação e montagem de corpos.

O cenário glacial do Montanvert atua como um espelho da desolação interior de Victor. Enquanto a criatura desce as fendas de gelo fortalecida por um novo propósito e por uma esperança renascida, Victor retorna à humanidade completamente esvaziado. A análise aponta que a sua descida da montanha marca o reinício de um ciclo de horror. Victor tem plena consciência de que precisará mergulhar novamente na escuridão — regressando à prática da dissecação, à profanação de cadáveres e ao isolamento asfixiante que quase o destruíram em Ingolstadt. Contudo, desta vez, não o fará inebriado pela ambição de ser um deus, mas sim oprimido pela obrigação profana de ser um servo, sob a constante e invisível vigilância do seu carcereiro gigante.

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