Frankenstein: Capítulo 10

Resumo & Análise

RESUMO

A jornada em busca de paz
O capítulo inicia-se no dia seguinte ao relato do Capítulo 9. Victor Frankenstein decide subir ao topo do Montanvert sozinho, em busca do efeito tranquilizador que a grandiosidade da natureza sempre exerceu sobre si.
A travessia e a chuva
Ele atravessa o vale debaixo de uma chuva fria e uma névoa espessa, caminhando por terrenos irregulares e perigosos. A sua subida é marcada por uma profunda melancolia, mas a visão dos picos e dos glaciares acalma momentaneamente o seu espírito conturbado.
A chegada ao glaciar
Ao meio-dia, Victor atinge o cume e contempla o vasto mar de gelo (Mer de Glace). Ele passa as horas seguintes a observar a paisagem gelada e desolada, encontrando uma breve suspensão da sua dor.

ANÁLISE

A análise deste primeiro item revela o uso magistral que Mary Shelley faz do conceito romântico do “Sublime”. Victor procura o Montanvert na esperança de que a magnitude aterrorizante da natureza o anestesie contra a sua própria culpa. No entanto, a escolha de um glaciar (um mar de gelo) como refúgio é altamente simbólica. Ao contrário das primaveras verdejantes que outrora o curaram, o gelo reflete a atual esterilidade da sua alma e a frieza do seu ato de abandono. Victor tenta usar a natureza como uma mãe consoladora, mas a paisagem desolada e impiedosa dos Alpes serve apenas como um espelho da desolação que ele próprio criou. A natureza, aqui, é imponente, mas absolutamente indiferente ao sofrimento humano.

A figura ao longe
Enquanto observa a extensão de gelo, Victor nota a aproximação de uma figura vinda do outro lado do glaciar. A entidade move-se a uma velocidade impossível para um homem comum, saltando com agilidade por cima das fendas e frestas profundas do gelo.
O reconhecimento imediato
À medida que a figura se aproxima, Victor reconhece a sua estatura gigantesca e o seu aspecto deformado. E compreende instantaneamente que se trata do monstro que criou e abandonou. O choque inicial dá rapidamente lugar à raiva cega.

A aproximação do monstro a uma velocidade sobre-humana transcende a mera ação física: representa o retorno do trauma que Victor tentou enterrar. Psicologicamente, a criatura funciona como a sombra de Frankenstein (o seu Doppelgänger ou espelho obscuro). A facilidade com que o monstro atravessa as fendas mortais de gelo — obstáculos que limitam severamente o próprio Victor — demonstra que a obra ultrapassou irrevogavelmente o criador. A superioridade física do monstro é a prova visual de que Victor desencadeou no mundo uma força que a humanidade, e muito menos ele próprio, não tem o poder de conter.

A explosão de fúria
O monstro aproxima-se de Victor. O cientista recebe-o transbordando ódio, insultando-o severamente. Ele chama a criatura de “demônio”, “inseto vil” e “monstro abominável”. Victor ordena que a criatura se afaste ou fique para ser destruída, declarando que estaria disposto a lutar até à morte para vingar as vidas de William e Justine. Ele avança na direção do monstro com a intenção física de atacá-lo.

O comportamento de Victor neste momento expõe o ápice da sua imaturidade moral e cegueira narcísica. Em vez de demonstrar qualquer arrependimento ou curiosidade pelo ser que gerou, ataca com insultos viscerais (“demônio”, “inseto vil”). A análise linguística mostra que Victor tenta desumanizar o monstro a todo o custo, pois, ao categorizá-lo como um mero demônio irracional, isenta-se da responsabilidade de o ter criado. O seu ímpeto de atacar fisicamente uma criatura de três metros de altura é um ato de raiva infantil e irracional, revelando um homem que ainda acredita ter o domínio sobre uma situação que há muito escapou do seu controle.

A postura da criatura
O monstro evita com facilidade o ataque físico do seu criador. Em vez de reagir com violência, responde com calma, demonstrando uma fala altamente articulada, racional e eloquente. A criatura exige que Victor assuma a sua responsabilidade para com ele. O monstro argumenta que Victor é o seu criador e que tem deveres inalienáveis para com a sua obra.
A analogia de Adão e do Anjo Caído
O monstro compara a sua situação à do primeiro homem, afirmando: “Eu deveria ser o teu Adão; mas sou, em vez disso, o anjo caído”. Ele reclama que foi privado da alegria e punido sem ter cometido qualquer falta inicial.
A confissão sobre a sua natureza original
A criatura afirma que, originalmente, a sua alma era boa e dócil (“Eu era benevolente e bom”), mas que a rejeição absoluta e a solidão excruciante, iniciadas pelo próprio Victor e continuadas por toda a humanidade, o transformaram num ser perverso e infeliz.

Este é o núcleo filosófico e o grande ponto de viragem do romance. Destaca-se o profundo contraste entre a aparência bestial da criatura e a sua mente brilhante, articulada e racional. A criatura personifica a teoria do “Bom Selvagem” de Jean-Jacques Rousseau, argumentando que nasceu intrinsecamente bom (“Eu era benevolente e bom”), mas que foi a corrupção e a rejeição implacável da sociedade (e do seu criador) que o forçaram à maldade. Ao referenciar Paraíso Perdido de John Milton, o monstro reescreve a sua própria cosmologia. Ele aponta o fracasso abissal de Victor como figura divina. Victor deveria ser o Deus amoroso e o monstro o seu “Adão” (perfeito e amado); contudo, Victor agiu com tamanha negligência que transformou a sua criação num “Anjo Caído” (Lúcifer), punido com a solidão do inferno sem sequer ter cometido um pecado original. A eloquência do monstro não pede misericórdia, mas exige justiça fundamental.

A proposta da Criatura
O monstro lança um ultimato: pede que Victor ouça a sua história. Se Victor o escutar e cumprir o que lhe for pedido, o monstro promete abandonar a humanidade e viver em isolamento pacífico. Caso Victor recuse ou falhe com o seu dever, o monstro avisa que a sua fúria destruirá todos os entes queridos que restam ao cientista.
A aceitação de Victor
Pela primeira vez desde o momento da criação, Victor sente o peso da responsabilidade sobre aquilo que forjou. Movido em parte por esse súbito senso de dever, em parte pela compaixão e, também, pelo desejo de confirmar se a criatura é realmente a assassina do seu irmão, ele cede.
A descida à caverna de gelo
Victor concorda em ouvir o relato. Ambos atravessam o glaciar juntos e entram numa cabana de gelo rudimentar onde o monstro se abriga. Sentam-se à volta de uma fogueira, e o monstro prepara-se para começar a narrar sua história.

A resolução do capítulo cristaliza a inversão total da dinâmica de poder. Victor Frankenstein, outrora o mestre e criador, é agora um súdito forçado a obedecer às condições de sua criação. O ultimato do monstro desperta em Victor, pela primeira e tardia vez, a noção ética de que o criador tem deveres incontornáveis para com a criatura — um princípio que ele ignorou no momento em que fugiu do laboratório no Capítulo 5. A descida para a cabana de gelo e a fogueira é o limiar de uma nova estrutura narrativa. O fogo na caverna de gelo simboliza a centelha de humanidade e intelecto que arde dentro do monstro, contrastando com o frio ambiente exterior. Ao sentarem-se, Victor perde o protagonismo da narrativa, passando o bastão da fala para o monstro, obrigando o leitor a julgar os fatos a partir da perspectiva do rejeitado.

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