RESUMO
As notícias e a preocupação
O capítulo tem início com Victor lendo uma carta enviada por Elizabeth. Nela, a jovem expressa a profunda ansiedade da família Frankenstein durante os meses em que Victor esteve gravemente doente e o alívio que sentiram com as cartas de Henry Clerval relatando a sua melhora. Ela implora que Victor escreva uma carta de próprio punho assim que tiver forças.
O retorno de Justine Moritz
A maior parte da correspondência é dedicada a relatar a história da jovem Justine Moritz. Justine havia sido acolhida pela família Frankenstein no passado, mas fora forçada a voltar a viver com a sua mãe biológica, uma mulher instável que a maltratava. Após a morte da mãe, Justine retorna à residência dos Frankenstein para trabalhar como criada, sendo extremamente benquista e admirada por todos devido à sua doçura e gratidão.
A descrição de William
Elizabeth encerra a carta compartilhando notícias alegres sobre William, o irmão caçula de Victor. Ela o descreve com afeto, mencionando o seu rápido crescimento, os seus belos olhos azuis, os cílios escuros e as covinhas que aparecem quando ele sorri, revelando que o menino tem se tornado o centro das atenções da família.
ANÁLISE
A leitura da carta de Elizabeth funciona como uma ruptura estrutural no romance. Enquanto os capítulos anteriores foram dominados pela atmosfera gótica, obsessiva e puramente masculina do laboratório de Ingolstadt, a narrativa retorna subitamente à esfera doméstica, familiar e afetiva de Genebra. Essa transição evidencia o isolamento autoimposto de Victor; a linguagem terna de Elizabeth sublinha o quanto ele se desumanizou ao cortar os laços com o mundo exterior. A detalhada subtrama de Justine Moritz não é um mero preenchimento narrativo. Justine funciona como um duplo (um espelhamento) da Criatura. Ambas as figuras sofrem com a rejeição parental irracional (Justine por parte de sua mãe biológica, a Criatura por parte de Victor). No entanto, enquanto Justine encontra redenção e cura ao ser acolhida pela benevolência da família Frankenstein, a Criatura, privada de qualquer afeto ou lar, é empurrada para a monstruosidade. A inclusão de Justine serve para demonstrar o poder transformador do amor parental e, por extensão, a gravidade da negligência de Victor. A descrição hiperbólica da beleza e da inocência de William constrói uma atmosfera de extrema ironia dramática. Ao ressaltar as covinhas, a vivacidade e a pureza do menino, o texto prepara o leitor para o choque da tragédia iminente. Essa idealização da infância é um tropo romântico clássico que visa maximizar o horror da violência que está por vir, sugerindo que a vingança do monstro atacará justamente o núcleo mais indefeso de Victor.
A limpeza do laboratório
À medida que a saúde de Victor se restabelece, a mera visão dos seus instrumentos químicos passa a provocar-lhe espasmos de horror e repulsa. Percebendo a agonia do amigo, Clerval toma a iniciativa de remover todo o equipamento científico do campo de visão de Victor e altera a disposição dos móveis do apartamento para apagar os vestígios do laboratório.
O tormento na universidade
Quando Victor finalmente reúne forças para sair e visitar os seus antigos professores, M. Waldman e M. Krempe, a experiência revela-se uma tortura. Os professores elogiam efusivamente o talento e o rápido progresso de Victor nas ciências naturais, sem saberem que as suas palavras gentis são, na verdade, um lembrete agonizante da criatura que ele trouxe ao mundo.
A violenta repulsa física de Victor em relação aos instrumentos químicos e à filosofia natural é um sintoma psicossomático evidente de trauma e negação. Victor não desenvolveu apenas um desinteresse pela ciência; ele desenvolveu uma fobia. Essa reação extrema demonstra que a sua mente é incapaz de processar a magnitude do seu erro (a criação do monstro), recorrendo à rejeição sensorial como forma de autopreservação psicológica. A intervenção de Henry Clerval, ao desmantelar o laboratório e reorganizar o apartamento, simboliza uma tentativa de “sanitização” da mente de Victor. Ao apagar os vestígios materiais da transgressão, cria-se a ilusão de que o pecado foi desfeito. No entanto, a análise demonstra a superficialidade desse alívio: a Criatura continua solta no mundo, e mudar a disposição dos móveis é uma metáfora para a fuga ineficaz de Victor diante de suas responsabilidades morais. O encontro com os professores Krempe e Waldman ilustra o martírio da dissonância cognitiva. O reconhecimento público e os elogios acadêmicos, que outrora seriam o ápice da vaidade (hybris) de Victor, agora soam como sentenças condenatórias. Há uma ironia macabra no fato de os mestres celebrarem o nascimento de um “gênio”, quando o leitor e o protagonista sabem que o fruto desse gênio é uma abominação. O silêncio de Victor diante desses elogios consolida a sua covardia moral: prefere suportar a agonia interna a confessar a verdade e arruinar a sua reputação acadêmica.
As línguas orientais
Henry Clerval ingressa oficialmente na universidade de Ingolstadt, mas, em vez de se dedicar às ciências, foca-se nos estudos dos idiomas orientais, matriculando-se em aulas de persa, árabe e sânscrito. Na tentativa de afastar a própria mente dos tormentos da filosofia natural e da química, Victor junta-se às aulas de Clerval. Ele encontra grande alívio e distração na poesia e nas histórias dessas culturas, abandonando inteiramente qualquer envolvimento com a ciência ao longo daquele ano.
O abandono das ciências naturais em prol do estudo das línguas e da literatura orientais representa uma mudança radical de paradigma filosófico. A ciência de Victor baseava-se no Iluminismo radical: uma busca agressiva, analítica e invasiva pelo controle e domínio dos segredos da natureza. Em contraste, a literatura, a poesia e os idiomas oferecidos por Clerval introduzem Victor ao universo do Romantismo, que prioriza a estética, a emoção, a contemplação e a harmonia humana. Henry Clerval consolida-se neste capítulo como o verdadeiro alter ego saudável de Victor. Enquanto Victor usou o intelecto para violar as barreiras da vida e da morte, Clerval usa o intelecto para conectar-se com a história, a cultura e a beleza humana. O estudo compartilhado atua como um bálsamo temporário que reconecta Victor à sua própria humanidade perdida no sótão de Ingolstadt.
A viagem adiada
Victor escreve para a sua família e planeja retornar a Genebra no final do outono. Contudo, devido a atrasos logísticos e à iminência de um inverno rigoroso e severo, as estradas tornam-se intransitáveis, forçando-o a adiar a sua partida para a primavera seguinte (maio).
A caminhada por Ingolstadt
Duas semanas antes do seu aguardado retorno à Suíça, Clerval propõe que ambos façam uma viagem a pé pelos arredores de Ingolstadt para se despedirem da região.
A restauração da alegria
Durante esta excursão pela natureza, Victor sente que finalmente conseguiu se livrar da melancolia e do medo. O contato com a paisagem primaveril e a companhia constante e afetuosa de Clerval restauram por completo a sua saúde física e a sua felicidade. Ri e aprecia a vida com a mesma pureza que possuía antes de sua obsessão científica começar.
A viagem a pé pelos arredores de Ingolstadt invoca o conceito romântico da natureza como uma força viva, divina e curativa (o Sublime). A primavera que desabrocha atua diretamente sobre o corpo debilitado de Victor, devolvendo-lhe a saúde, o vigor e o riso. Para Victor, a natureza parece ter perdoado o seu crime, permitindo-lhe retornar ao estado de inocência da juventude. Do ponto de vista da estrutura narrativa, a recuperação total de Victor e a sua euforia final são um recurso deliberado de Mary Shelley para criar uma falsa sensação de segurança. O capítulo termina no ponto mais alto de felicidade, saúde e otimismo de Victor desde o início de seus experimentos. Essa ascensão emocional serve exclusivamente para tornar a queda no capítulo seguinte (o recebimento da notícia do assassinato de William) o mais devastadora possível. A alegria de Victor na primavera de Ingolstadt é, portanto, uma trágica falácia psicológica: acredita estar livre do passado, esquecendo-se de que a sua criação partilha do mesmo mundo que ele.

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