Frankenstein: Capítulo 19

Resumo & Análise

RESUMO

A rota turística
Victor Frankenstein e Henry Clerval viajam juntos pela Inglaterra e Escócia. O trajeto inclui passagens por Londres, Windsor, Oxford, Matlock e a região dos lagos em Cumberland. Clerval aproveita intensamente a viagem, deleitando-se com as paisagens naturais e buscando ativamente fazer contatos com homens de gênio e conhecimento. Victor, por sua vez, está consumido pela ansiedade. Ele acompanha o amigo, mas sente-se incapaz de desfrutar qualquer companhia ou beleza, atormentado pela promessa que precisa cumprir e pelo medo constante de que a criatura faça mal à sua família em Genebra durante sua ausência.

ANÁLISE

No ideário do Romantismo britânico contemporâneo a Mary Shelley, a contemplação da natureza bela e grandiosa possui um caráter terapêutico, capaz de restaurar a moral e a saúde mental do indivíduo. A viagem de Victor e Clerval funciona como um teste definitivo dessa premissa: para Frankenstein, o Sublime faliu. A culpa, o remorso e o medo operam como um bloqueio cognitivo e espiritual; Victor tornou-se imune à beleza do mundo natural. Henry Clerval atua nesta dinâmica como o espelho retrovisor da alma de Victor. O deslumbramento e o entusiasmo de Henry mimetizam exatamente o que Victor era antes de profanar as leis da vida em Ingolstadt. Ao observar o amigo buscar o convívio com homens de ciência e gênio, Victor confronta a perda irremediável de sua própria inocência acadêmica. Clerval é o que Victor poderia ter sido; Victor é a sombra que ameaça consumir a luz de Clerval. A paranoia constante de Frankenstein em relação a Genebra demonstra que sua mente está permanentemente sequestrada pela Criatura, mesmo a milhares de quilômetros de distância.

O desejo de isolamento
Ao chegarem à Escócia, e após receberem uma carta de um amigo convidando-os a visitar Perth, Victor percebe que não pode iniciar a sua terrível tarefa acompanhado.
O acordo com Clerval
Victor pede a Henry que continue a viagem com os seus conhecidos escoceses, afirmando que deseja realizar uma excursão sozinho pelas montanhas durante um mês ou dois. Ele promete que retornará e que se reencontrarão para prosseguir com a viagem de volta a Londres. Clerval reluta, mas acaba por aceitar, pedindo que Victor não demore.

A separação entre Victor e Clerval atesta que o ato de profanação gótica exige a escuridão e o isolamento absoluto. Frankenstein compreende que não pode gerar uma segunda abominação — uma fêmea para o monstro — sob o olhar vigilante e puro da sociedade e, especificamente, de Henry. A presença de Clerval atua como uma barreira ética; para violar novamente as leis da natureza, Victor precisa exilar-se de qualquer representação da virtude humana. O afastamento de Victor em direção ao norte isolado marca o fechamento de um ciclo psicológico neurótico. Ele recorre ao mesmo mecanismo de defesa utilizado no Capítulo 4: a reclusão radical. No entanto, há uma diferença moral crucial entre os dois momentos. A primeira reclusão em Ingolstadt foi impulsionada pela hybris (a arrogância megalomaníaca), pelo entusiasmo científico e pelo desejo cego de glória. Esta segunda reclusão é uma capitulação voluntária à escravidão moral. Victor não se isola por ambição, mas por vergonha e subjugação à vontade da Criatura.

A escolha do destino
Livre da companhia de Clerval, Victor viaja rumo ao extremo norte, escolhendo as remotas Ilhas Órcades, na Escócia, para estabelecer o seu local de trabalho.
O ambiente desolado
Ele instala-se em uma das ilhas mais inóspitas e inférteis do arquipélago. O local possui apenas três cabanas miseráveis, das quais uma está vazia. A população local consiste em poucas pessoas vivendo em extrema pobreza, castigadas pela fome e alheias à presença do forasteiro.
A montagem do espaço
Victor aluga a cabana desocupada, repara o telhado destelhado, compra alguns móveis básicos e ordena que os seus instrumentos químicos e materiais cheguem à ilha para montar o seu novo laboratório.

A escolha e a descrição das Ilhas Órcades servem como uma perfeita manifestação da psicogeografia gótica, onde o espaço exterior reflete o estado interior do protagonista. O solo infértil, a névoa, a desolação e a hostilidade do arquipélago escocês são a materialização física da alma estéril, devastada e sem esperança de Victor Frankenstein. Em contraste com a grandiosidade vital e poética dos Alpes suíços ou do Vale de Chamounix, as Órcades representam o “anti-sublime” — uma paisagem de estagnação, miséria e morte. A cabana miserável e semi-destruída funciona como a nova “oficina da criação imunda”. Esse ambiente depauperado mimetiza o próprio colapso moral do cientista: não está mais em um sótão universitário cercado por instrumentos de ponta, mas em um casebre caindo aos pedaços, o que sublinha a degradação de sua dignidade e de seu intelecto.x

O recomeço do trabalho
Victor reinicia a montagem de um corpo humano, desta vez feminino, recolhendo e organizando os materiais necessários para a criação.
A repulsa pela obra
Diferente da excitação cega que o impulsionaram durante a criação do primeiro monstro em Ingolstadt, desta vez realiza o trabalho com profundo nojo, terror e repulsa.
A rotina degradante
Victor passa as suas manhãs trancado na cabana trabalhando no corpo mutilado. O seu estado de saúde deteriora-se rapidamente. Às noites, incapaz de suportar o que está a fazer, caminha pela praia pedregosa, ouvindo o som constante das ondas do oceano, paralisado pelo medo das consequências da sua nova criação e sentindo o coração palpitar de pavor a cada pequeno ruído.

O processo de montagem da criatura feminina é o ápice da tortura psicológica de Victor. A análise textual demonstra uma inversão completa de afeto em relação ao trabalho de parto metafórico: o fervor e a paixão de outrora foram substituídos por uma repulsa física e moral viscerais. Victor trabalha sabendo que está gerando um potencial vetor de destruição e reprodução monstruosa. Ele não opera mais como o Deus criador do Gênesis, mas como o servo acovardado sob o chicote invisível de um tirano. O colapso físico imediato de Victor, suas palpitações noturnas e o terror diante de qualquer ruído são as respostas psicossomáticas de um corpo que rejeita a ação que a mente é forçada a executar. Suas caminhadas noturnas pela praia pedregosa representam o aprisionamento existencial: o som constante do oceano, que para Robert Walton nas cartas iniciais simbolizava a promessa de liberdade e descoberta, para Victor tornou-se a trilha sonora de sua clausura claustrofóbica e do seu pavor iminente.

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