RESUMO
O achado na floresta
Durante o mês de agosto, enquanto vaga pela floresta em busca de alimento, a criatura encontra no chão uma valise de couro contendo roupas e três livros: Os Sofrimentos do Jovem Werther (Goethe), Vidas Paralelas (Plutarco) e O Paraíso Perdido (John Milton).
A leitura de Werther
A criatura lê a obra e entra em contato com sentimentos de profunda melancolia, desespero e mortalidade. O livro ensina-lhe sobre emoções extremas e leva-o a refletir sobre a sua própria identidade, percebendo que a sua solidão é ainda mais absoluta que a do protagonista da história.
As lições de Plutarco
A partir de Vidas Paralelas, o intelecto da criatura é expandido para o âmbito público e histórico. Ele lê sobre fundadores de repúblicas, impérios, guerras e derramamento de sangue, desenvolvendo admiração por homens de virtude pacífica e horror pela matança humana.
O impacto de O Paraíso Perdido
A leitura deste poema épico causa a maior comoção na criatura, que o lê como uma história factual e verdadeira. Ele traça comparações diretas entre si e as figuras bíblicas: inicialmente equipara-se a Adão (por não ter laços com outros seres), mas conclui que a sua existência se assemelha muito mais à de Satanás, pois também ele é consumido pela inveja ao ver a felicidade alheia da qual é excluído.
ANÁLISE
A descoberta das três obras literárias atua como um acelerador trágico e formidável para o desenvolvimento psicológico da criatura. O texto demonstra que a criatura não absorve esses livros apenas como ficção, mas como a verdadeira história da humanidade e do cosmos, o que molda a sua percepção de forma indelével. A obra de Goethe ensina à criatura a linguagem da interioridade, da depressão e do isolamento extremo. A análise revela que a leitura desperta no ser a consciência aguda da sua própria singularidade maldita: enquanto Werther tem amigos e um lugar na sociedade antes de sucumbir à paixão, a criatura percebe que não possui nada nem ninguém. O livro ilumina a vastidão do seu vazio afetivo. Através de Plutarco, a criatura é introduzida à esfera pública, ao heroísmo, mas também à carnificina da qual a humanidade é capaz. O intelecto do ser evolui do individual (Werther) para o coletivo, permitindo-lhe desenvolver um senso crítico e moral. Ele passa a julgar os homens, admirando a virtude e sentindo asco pela violência, o que torna a violência que sofrerá posteriormente ainda mais trágica e irônica. A leitura do épico de Milton é o pilar central da identidade da criatura. A análise literária aponta um espelhamento dilacerante: a criatura anseia ser Adão, o primeiro da sua espécie, mas reconhece que a ele foi negado um Criador amoroso e uma companheira (Eva). Inevitavelmente, identifica-se com Satanás, o anjo caído. Contudo, a tragédia é aprofundada pela constatação de que até mesmo Satanás tinha demônios para lhe fazer companhia, enquanto a criatura sofre uma exclusão cósmica absoluta.
A descoberta dos manuscritos
Nas roupas que havia pegado do laboratório de Victor Frankenstein em Ingolstadt antes de fugir, a criatura encontra papéis ocultos nos bolsos. Ele constata que se trata do diário científico de Victor.
A revelação do horror
A criatura lê meticulosamente os registros e descobre todos os detalhes grotescos dos meses que antecederam a sua criação. Ele lê as descrições feitas por Victor, que expressam profundo asco, nojo e terror em relação ao ser que estava montando.
A repulsa de si mesmo
A leitura do diário mergulha a criatura numa profunda agonia. Ele questiona por que Victor lhe deu uma forma tão medonha que fez com que o seu próprio criador o abandonasse imediatamente após ganhar vida.
Se O Paraíso Perdido ofereceu à criatura um mito fundacional, o diário de Victor Frankenstein oferece-lhe a sua verdadeira e grotesca gênese. A análise aponta que a leitura destes papéis representa o trauma definitivo do abandono parental. O texto contrasta violentamente a forma como Deus criou o homem (à Sua imagem, perfeito e amado) com a forma como Victor montou a criatura (com repulsa, desleixo e asco). O diário funciona como uma certidão de nascimento lavrada com ódio. Ao ler as descrições enojadas de Victor sobre a sua própria obra, a criatura internaliza esse repúdio. O abismo psicológico aprofunda-se, pois o ser compreende que a sua maldição não é fruto de um erro ou de um acidente, mas da negligência criminosa e da vaidade egoísta daquele que lhe deu a vida.
A decisão de aproximação
O outono avança. Apesar do desespero trazido pelo diário de Victor, o afeto da criatura pelos camponeses da cabana anexa cresce ao ponto de ele não conseguir mais suportar o isolamento. Ele decide revelar-se à família De Lacey.
A estratégia elaborada
Ciente de que a sua aparência monstruosa causará terror instantâneo nos jovens, planeja cautelosamente o seu primeiro contato. Ele determina que se aproximará apenas do velho De Lacey quando este estiver completamente só, contando com a cegueira do ancião para ser julgado apenas pelas suas palavras e não pela sua deformidade.
O planejamento da criatura para abordar o velho De Lacey é um testemunho brilhante da sua inteligência analítica, mas expõe, simultaneamente, uma ingenuidade dolorosa. A estratégia de se aproximar apenas do homem cego revela que a criatura compreendeu a falha fatal da humanidade: o preconceito visual. Ele tenta contornar essa superficialidade apostando na razão e na retórica. A análise destaca que a criatura age impulsionada por um ideal quase Iluminista e Romântico: a crença de que a alma, expressa através da linguagem e da gentileza genuína, pode sobrepujar o instinto visceral humano do medo. A sua preparação é uma aposta desesperada de que a civilização e a empatia são mais fortes do que os preconceitos atávicos.
A oportunidade de agir
O momento ideal surge num dia de inverno em que Felix, Agatha e Safie saem para uma longa caminhada no campo, deixando o velho cego sozinho a descansar na cabana.
O diálogo com o ancião
A criatura entra na casa, apresenta-se como um forasteiro necessitado em busca do auxílio de amigos, e inicia uma conversa com De Lacey. O velho cego ouve-o com gentileza, simpatia e disposição genuína para ajudá-lo a encontrar os amigos de quem fala.
O retorno da família
Encorajado pela bondade do velho, a criatura confessa subitamente que a família de quem ele fala é a do próprio De Lacey e lança-se aos joelhos do ancião, implorando por proteção no exato momento em que Felix, Agatha e Safie abrem a porta da cabana.
A agressão e a fuga
A visão do monstro agarrado ao pai provoca reações extremas: Agatha desmaia, Safie foge aterrorizada, e Felix avança furiosamente. Felix arranca a criatura de perto do velho, derruba-a no chão e golpeia-a violentamente com um pedaço de pau. Sem esboçar qualquer reação de revide contra aqueles que ama, a criatura levanta-se e foge novamente para a escuridão do seu anexo.
O encontro na cabana é o ponto de ruptura definitivo na estrutura do romance. É o exato momento em que o “bom selvagem”, de coração puro e empático, é assassinado pelas mãos da própria sociedade humana. O sucesso momentâneo da conversa com o velho cego De Lacey prova que a alma da criatura é, de fato, nobre e digna de compaixão. No entanto, a chegada de Felix, Agatha e Safie aniquila esse triunfo. O desmaio, a fuga e a agressão física imediata confirmam os piores temores da criatura: no mundo dos homens, a aparência dita a humanidade de alguém. A análise sublinha o fato de que, ao ser espancada violentamente por Felix, a criatura — que possui força sobre-humana capaz de destroçar o rapaz — não revida. Essa não-reação é o último suspiro de sua bondade inerente. Ao fugir sem atacar, a criatura comprova a sua superioridade moral momentânea sobre os humanos. O rechaço pela família De Lacey fecha a porta para a redenção. Se o criador o abandonou, e se a família mais virtuosa que ele conheceu o espancou, a análise conclui que a sociedade acaba de forjar o seu próprio carrasco. A solidão imposta transforma-se, a partir daqui, em ódio ativo.

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