Frankenstein: Capítulo 22

Resumo & Análise

RESUMO

O descanso na capital francesa
Antes de retornarem definitivamente a Genebra, Alphonse e Victor Frankenstein passam alguns dias em Paris para que Victor recupere suas forças. Durante este período, o pai de Victor percebe a profunda melancolia do filho e tenta de todas as formas reanimá-lo e afastá-lo do seu desespero constante.
A correspondência de Genebra
Victor recebe uma carta de Elizabeth Lavenza. Nela, a jovem expressa a sua preocupação com o longo distanciamento e a tristeza de Victor. Elizabeth questiona-o abertamente, perguntando se ele ama outra mulher e se o seu compromisso de casamento é mantido apenas por obrigação e respeito aos desejos da família.

ANÁLISE

A carta de Elizabeth introduz uma profunda ironia dramática na narrativa. Ao questionar se Victor ama outra mulher, Elizabeth baseia-se na lógica do mundo normal e civilizado, tentando encontrar uma explicação humana e corriqueira para a rejeição e o isolamento do noivo. A ironia reside no fato de que existe, de fato, uma “outra figura” que consome a vida de Victor de forma absoluta e destrutiva, mas não é uma amante humana. É o monstro. Há também um espelhamento macabro nesta suspeita: a única outra mulher na vida recente de Victor foi a companheira feminina da criatura, a qual ele mesmo destruiu (abortou) nas Ilhas Órcades. Elizabeth pressente a presença de um segredo que divide a lealdade de Victor, mas a sua mente inocente é incapaz de conceber a dimensão demoníaca desse obstáculo.

A reafirmação do compromisso
Imediatamente após ler a carta, Victor escreve uma resposta a Elizabeth. Ele assegura-lhe com veemência que não existe outra mulher e que ela é a única dona do seu afeto e a única fonte possível para a sua felicidade terrena.
O adiamento da revelação
Na mesma carta, Victor declara que tem um segredo terrível e obscuro que precisa partilhar com ela. No entanto, estipula uma condição: o segredo só será revelado no dia seguinte ao casamento. Victor exige que Elizabeth não o questione sobre o assunto até que esse momento chegue. Ele toma a decisão de seguir com o casamento, recordando-se da ameaça do monstro (“Estarei contigo na tua noite de núpcias”) e preparando-se para um confronto mortal.

A decisão de Victor de esconder o segredo até ao dia seguinte ao casamento é o ápice da sua arrogância (hybris) e de um narcisismo fatal. Ao interpretar a ameaça do monstro (“Estarei contigo na tua noite de núpcias”), Victor assume, de forma egocêntrica, que ele é o alvo do assassinato. Ele não consegue enxergar o padrão de vingança da criatura, que consiste em destruir todos os que Victor ama (William, Justine, Clerval) para condená-lo ao mesmo isolamento absoluto que o monstro sofre. Ao adiar a revelação e consentir no casamento, a análise psicológica demonstra que Victor usa Elizabeth como um escudo e uma isca sem perceber. O seu voto de silêncio não a protege; pelo contrário, sela irrevogavelmente a sua sentença de morte, transformando o leito nupcial num cadafalso.

O reencontro em Genebra
Victor e Alphonse chegam a Genebra. Elizabeth recebe Victor com grande afeto, mas não consegue esconder a consternação ao ver a aparência extremamente abatida, doentia e exausta do seu noivo.
A insistência de Alphonse
O pai de Victor propõe que o casamento seja realizado o mais rapidamente possível, acreditando que a união trará finalmente paz à família. Victor, antecipando o confronto com a criatura e acreditando que a morte de um dos dois encerrará a sua tortura, concorda que a cerimônia ocorra em dez dias.

Este segmento expõe a falência do modelo patriarcal da família Frankenstein. Alphonse, o pai de Victor, representa a visão iluminista e pragmática que acredita que a união matrimonial e a normalidade doméstica têm o poder de curar qualquer melancolia. Ele pressiona pela realização do casamento ignorando a podridão emocional do filho. Por sua vez, a submissão de Victor a este desejo paterno revela uma perigosa mentalidade de mártir. Victor não caminha para o altar para celebrar a vida, mas marchando para o que ele acredita ser o seu duelo final. O casamento é completamente esvaziado do seu significado de união e fertilidade, sendo subvertido num ritual de sacrifício.

O armamento e a vigilância
Nos dias que antecedem a cerimônia, Victor vive em estado de alerta máximo e paranoia. Ele passa a carregar consigo pistolas e punhais constantemente, vigiando cada sombra e trancando os seus aposentos para evitar ser pego desprevenido pela criatura.
A celebração das núpcias
O casamento entre Victor e Elizabeth finalmente se realiza. Após a cerimônia, os noivos se preparam para partir rumo à sua lua de mel em Villa Lavenza, uma propriedade nas margens do Lago Genebra, em Evian.
A viagem pelas águas e a chegada
O casal embarca em um barco e navega pelas águas do lago durante a tarde, contemplando as majestosas paisagens alpinas. O dia despede-se num final de tarde sereno, mas melancólico. O capítulo encerra-se com Victor e Elizabeth a desembarcarem e a caminharem pelas margens sob o cair da noite, com Victor sentindo o aperto crescente de uma tensão terrível.

A preparação para a lua de mel ilustra a degradação total de Victor, que agora opera puramente sob a lógica da besta. Ele arma-se com pistolas e punhais para um evento que deveria celebrar o amor, evidenciando que a civilização de Genebra não pode mais protegê-lo da selvageria que ele próprio criou. Do ponto de vista literário, a viagem pelo Lago Genebra em direção a Evian atua como uma subversão magistral da estética Romântica. Tradicionalmente, a Natureza (“O Sublime”) atua como um refúgio de paz, cura e contemplação. No entanto, a beleza dos Alpes e as águas serenas do lago servem apenas como um cenário indiferente e macabro para o clímax de terror que se aproxima. A tensão dramática é levada ao limite máximo: o cenário idílico contrasta violentamente com a paranoia asfixiante de Victor e com a angústia do leitor, que, diferentemente de Elizabeth, compreende perfeitamente o horror que aguarda o casal no desembarque.

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