RESUMO
O desespero no bosque
Após ser expulso violentamente da cabana por Felix, a criatura refugia-se na floresta. Ela passa a noite imersa em desespero profundo, declarando, pela primeira vez, guerra à humanidade e, em especial, ao seu criador.
A fuga dos De Lacey
Ao retornar ao seu anexo na manhã seguinte para tentar uma nova abordagem, a criatura ouve uma conversa e descobre que Felix e a sua família abandonaram o chalé apressadamente, aterrorizados com o que viram.
O incêndio
Consumida por uma fúria incontrolável diante da perda definitiva da família que tanto admirava, a criatura destrói o jardim durante a noite. Em seguida, incendeia a cabana vazia, dançando ao redor das chamas antes de abandonar o local para sempre.
ANÁLISE
Até este momento, o fogo representava para a criatura o calor da civilização, o intelecto e a sobrevivência (a fogueira abandonada que ele encontrou no início da sua vida e a lareira dos De Lacey). Ao incendiar o chalé, ocorre uma subversão trágica: o fogo torna-se o instrumento da aniquilação e do caos. O ato de dançar ao redor das chamas é um ritual fúnebre e pagão. O ser empático que chorava ao som de música morre naquelas chamas; das cinzas do chalé ergue-se, efetivamente, o “monstro” de Frankenstein. A destruição da casa dos De Lacey simboliza a destruição final de qualquer ponte entre a criatura e o ideal romântico da sociedade humana.
O mapa e o inverno
Utilizando as anotações do diário que encontrou nas roupas que pegou do laboratório, a criatura descobre que Victor Frankenstein reside em Genebra. Ela inicia uma longa e penosa viagem em direção à Suíça, escondendo-se durante o dia e caminhando à noite ao longo de um inverno rigoroso.
O resgate da menina
Já na primavera, durante o trajeto pelos bosques, a criatura presencia uma jovem menina escorregar e cair nas águas violentas de um rio rápido. A criatura mergulha e salva a criança do afogamento.
O tiro da espingarda
Um camponês que acompanhava a menina aproxima-se rapidamente. Acreditando que a criatura está a atacar a criança, arranca a menina dos braços do monstro e foge. Quando a criatura o persegue, o homem atira contra ela com uma espingarda, ferindo-a gravemente. A criatura sobrevive, mas jura vingança implacável contra toda a espécie humana em decorrência dessa brutalidade.
O resgate da menina no rio turbulento expõe a ironia mais cortante da obra de Mary Shelley. A criatura age movida por um instinto puro de benevolência e heroísmo. A recompensa por salvar uma vida humana é, contudo, a violência física brutal (o tiro disparado pelo camponês). A análise filosófica deste incidente demonstra a rutura definitiva da visão de Rousseau sobre o “bom selvagem”. A criatura compreende que não há redenção através de boas ações, pois a humanidade está cega pelo preconceito estético. O tiro rasga não apenas a carne do monstro, mas o último fio do seu contrato social com a humanidade. A partir daquela ferida, o que sangra não é apenas dor física, mas a justificação moral para a sua futura misantropia.
O encontro com a criança
Após semanas a curar a ferida no ombro, a criatura chega aos arredores de Genebra. Num bosque, encontra um menino. Ela pensa que uma criança tão jovem e inocente ainda não teria preconceitos contra a sua aparência, e decide sequestrá-lo para o educar como o seu primeiro companheiro.
A revelação do nome
O menino debate-se violentamente, cobre os olhos para não ver o monstro e ameaça-o, gritando que o seu pai é M. Frankenstein e que o punirá.
O estrangulamento
Ao ouvir o nome “Frankenstein”, o criador que o abandonou, a criatura é tomada por uma ira fulminante. Ela estrangula o pequeno William até a morte, sentindo um triunfo sombrio ao perceber que é capaz de causar uma dor avassaladora ao seu inimigo.
O estrangulamento do menino William marca a passagem da criatura de vítima a algoz ativo. O detalhe mais perverso, psicologicamente, é que a criatura não mata William por sadismo inato, mas por associação identitária. Ao ouvir o nome “Frankenstein”, a criatura transfere o ódio que sente pelo criador para o seu sangue. A análise evidencia que este é o momento em que a criatura descobre a sua “agência” (o seu poder de impactar o mundo). Se a sociedade lhe negou o poder de inspirar amor, ele abraça o poder de inspirar terror absoluto. É o espelhamento exato do raciocínio de Lúcifer no poema Paraíso Perdido (a obra que ele leu): “Antes reinar no Inferno do que servir no Céu”.
O medalhão roubado
A criatura examina o corpo sem vida de William e retira do pescoço do menino um retrato em miniatura de uma mulher lindíssima (Caroline Beaufort, mãe de Victor).
A armadilha no celeiro
Buscando um lugar para se esconder, a criatura entra num celeiro nas redondezas e encontra uma jovem mulher (Justine Moritz) a dormir exausta na palha.
O plantio da prova
Sabendo que a jovem acordaria e o denunciaria com horror se o visse, a criatura sussurra que ela sofrerá pelos crimes da humanidade. Ele coloca o retrato furtado nas dobras do vestido de Justine, garantindo que ela acorde com a prova do crime e seja executada pelas leis dos homens.
O plantio da prova que culpará Justine Moritz representa a verdadeira corrupção intelectual da criatura. O assassinato de William foi um ato de fúria cega, mas o plantio do medalhão nas vestes de Justine é um ato de malícia calculada. A análise destaca que a criatura aprendeu como a sociedade humana funciona: ele compreende as noções de culpa, provas materiais e a falibilidade da justiça dos homens. Movido por um ressentimento misógino nascido da certeza de que uma mulher bela como Justine nunca olharia para ele senão com asco, a criatura usa a lei humana como uma arma contra os próprios humanos. Ao transformar a justiça de Genebra na assassina de uma mulher inocente, a criatura prova que a civilização é tão monstruosa quanto ele próprio.
O encerramento da história
O longo relato retrospectivo da criatura chega ao fim, alcançando o momento presente na caverna de gelo no Montanvert, diante de Victor Frankenstein.
O ultimato da companheira
A criatura dita a sua condição inegociável para deixar Victor e o resto da sua família em paz: Victor deve criar uma fêmea, tão monstruosa e deformada quanto ele, para que ambos possam viver juntos e partilhar da mesma existência isolada, longe da humanidade.
O encerramento do capítulo culmina no paradoxo existencial supremo do monstro. Apesar da sua declaração de guerra à humanidade, a sua exigência — uma companheira feminina — sublinha que ele não consegue suportar o isolamento absoluto. A análise aponta para a inversão colossal na dinâmica de poder: a criatura, o “Adão” falhado, chantageia o seu “Deus” (Victor) para que assuma novamente o seu papel de criador e forje uma “Eva” tão deformada quanto ele. O monstro compreende que só pode existir em comunhão com o seu reflexo. A chantagem demonstra uma profunda evolução linguística e estratégica: ele oferece a paz em troca da sua própria espécie, ou a destruição total caso lhe seja negado o direito básico de amar e existir acompanhado.

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