Frankenstein: Capítulo 14

Resumo & Análise

RESUMO

A origem aristocrática
A narrativa revela que a família De Lacey pertencia à nobreza francesa. Eles viviam em Paris, desfrutando de luxo, grande fortuna e enorme respeito perante a alta sociedade.
O erro da justiça
Um comerciante turco (o pai de Safie) que residia em Paris é acusado de um crime que não cometeu. Ele é preso e rapidamente condenado à morte, um veredito impulsionado primariamente por xenofobia e preconceito religioso por parte das autoridades e do público francês.
A indignação e a promessa de Felix
Felix De Lacey, presente durante o julgamento, fica revoltado com a injustiça e a tirania do veredito. Ele elabora secretamente um plano audacioso para libertar o prisioneiro.

ANÁLISE

A revelação do passado aristocrático da família De Lacey em Paris funciona como um forte contraste geográfico e social com a pobreza da cabana na Alemanha. A análise literária indica que a inserção do julgamento do mercador turco serve para desmistificar a suposta “iluminação” e superioridade moral da justiça francesa. O veredito de morte não se baseia em evidências factuais de criminalidade, mas sim em uma reação xenofóbica institucionalizada e no preconceito religioso contra o “Outro” islâmico. A revolta de Felix De Lacey diante da tirania do tribunal posiciona-o como o arquétipo do herói romântico liberal, cujos valores éticos transcendem as leis arbitrárias do Estado. Ao decidir libertar o prisioneiro, Felix rejeita a legalidade corrompida do seu próprio país em nome de uma justiça natural e universal. Esse evento estabelece um paralelo direto com a própria Criatura, que, ao ouvir o relato, aprende simultaneamente sobre a existência de uma alta virtude humana (o altruísmo de Felix) e de uma profunda vileza sistêmica (a corrupção da justiça estatal).

A recompensa oferecida
O mercador turco, percebendo as intenções de Felix, promete-lhe vastas recompensas financeiras. Felix recusa o dinheiro, mas a sua atenção é capturada por Safie, a filha do turco, que acabara de chegar da Turquia.
O acordo de casamento
O mercador percebe a paixão mútua entre Felix e Safie e promete a mão da filha em casamento assim que estiverem a salvo. Através de cartas e visitas secretas, Safie e Felix fortalecem o seu compromisso.
O resgate
Na véspera da execução programada, Felix executa o seu plano com sucesso. Ele retira o mercador da prisão parisiense e conduz pai e filha de forma clandestina através da França, conseguindo atravessar a fronteira em segurança até Livorno, na Itália.

A dinâmica entre Felix, o mercador turco e Safie expõe uma tensão entre o materialismo pragmático e o idealismo sentimental. Enquanto Felix recusa as recompensas financeiras por sua ação heróica — demonstrando o desinteresse característico da nobreza de espírito —, o mercador turco utiliza a própria filha como moeda de troca, prometendo a sua mão em casamento para garantir a fidelidade do jovem francês. O afeto que floresce entre Felix e Safie atua como uma força subversiva que desafia barreiras geopolíticas, linguísticas e religiosas. Através das cartas secretas que trocam durante o planejamento da fuga, estabelece-se uma comunicação puramente intelectual e espiritual, que antecipa o método pelo qual a Criatura também tentará aproximar-se da família. A fuga bem-sucedida para Livorno ilustra a eficácia da ação individual contra a opressão estatal, sugerindo temporariamente que o idealismo e a coragem podem triunfar sobre as estruturas de poder.

A descoberta e a retaliação
O governo francês descobre a conspiração e a fuga. Como represália imediata, o velho De Lacey e a sua filha, Agatha, são encarcerados em Paris. Ao receber a notícia na Itália, Felix decide abandonar temporariamente Safie e o turco. Ele retorna rapidamente a Paris e entrega-se às autoridades francesas, na esperança de que a sua confissão liberte o pai e a irmã.
A perda da fortuna
A tentativa de Felix é em vão. Os três membros da família De Lacey permanecem presos durante cinco meses. No fim, são julgados, destituídos de toda a sua riqueza, perdem os seus títulos e propriedades, e são condenados ao exílio perpétuo do seu país natal.
O refúgio na Alemanha
Reduzidos à mais absoluta miséria, os De Lacey fogem para a Alemanha, onde encontram abrigo na pobre e rústica cabana adjacente à qual o monstro de Frankenstein viria, mais tarde, a refugiar-se.

O retorno voluntário de Felix a Paris para poupar o pai e a irmã do encarceramento serve como um espelhamento crítico e uma acusação tácita à conduta do protagonista do romance, Victor Frankenstein. Enquanto Felix sacrifica a sua liberdade, a sua fortuna e o seu status social para assumir as consequências de seus atos e proteger os seus entes queridos, Victor age com covardia contínua, silenciando e abandonando a sua própria criação para salvaguardar a sua reputação. A condenação dos De Lacey ao exílio perpétuo e a perda total de seus bens representam uma “morte social” dentro da Europa Ocidental. Destituída de títulos e propriedades, a família é violentamente empurrada para a marginalidade econômica. O refúgio na cabana alemã transforma os De Lacey em párias políticos e econômicos, o que liminarmente os aproxima da condição da Criatura. A análise estrutural indica que Mary Shelley constrói essa vizinhança forçada para demonstrar que o preconceito e a exclusão unem aqueles que foram rejeitados pelos sistemas dominantes, embora a Criatura permaneça em um exílio ontológico ainda mais profundo que o desterro político dos camponeses.

A quebra do acordo
O mercador turco, sabendo da ruína financeira e do exílio de Felix, decide traí-lo. Ele despreza a ideia de ver a filha casada com um cristão deserdado. Aproveitando a ausência de Felix, o turco prepara-se para retornar secretamente a Constantinopla e ordena que Safie o acompanhe.
A rebeldia e a fuga
Safie, que fora educada pela sua mãe cristã a valorizar a independência e que nutre um amor verdadeiro por Felix, recusa-se a voltar para a opressão na Turquia. Munida de algumas jóias e de uma pequena quantia em dinheiro que o pai lhe deixara temporariamente, ela foge.
O percurso até a Alemanha
Safie contrata uma criada italiana de confiança que conhece as rotas e viaja em direção à Alemanha à procura do seu amado. Durante a viagem, a criada adoece gravemente e acaba por morrer, deixando Safie completamente sozinha num país desconhecido. Apesar da barreira do idioma e das dificuldades, Safie utiliza os documentos e informações que possui e, com a ajuda de habitantes locais compadecidos, consegue finalmente localizar a isolada cabana dos De Lacey, momento que coincide com os eventos descritos no capítulo anterior.

A traição perpetrada pelo mercador turco, que renega a promessa feita a Felix assim que se vê em segurança, cristaliza a temática da perfídia humana. O mercador demonstra uma profunda ingratidão e preconceito ao rejeitar um casamento com um homem desprovido de fortuna, e de religião cristã, ironicamente reproduzindo a mesma intolerância religiosa de que ele próprio fora vítima em Paris. Em total oposição à covardia do pai, a figura de Safie introduz uma poderosa crítica de gênero na obra. Educada pela memória de uma mãe grega e cristã que a ensinou a valorizar a independência intelectual e a recusar a reclusão opressiva do harém oriental, Safie recusa o destino de submissão patriarcal na Turquia. A sua fuga solitária pela Europa em direção à Alemanha é um ato de autodeterminação extraordinário para a época. Ao enfrentar a perda da criada, o isolamento e as barreiras linguísticas, Safie exibe uma agência e uma coragem que superam o desespero paralisante de Victor Frankenstein. O seu reencontro com Felix representa o triunfo da vontade individual e da busca pela liberdade, oferecendo à Criatura a ilusão de que o esforço, o conhecimento e o afeto também poderiam quebrar as correntes da sua própria exclusão.

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