RESUMO
O tribunal convocado
O capítulo inicia-se às onze horas da manhã com o julgamento de Justine Moritz pelo assassinato do pequeno William. A corte de Genebra encontra-se repleta de espectadores. Victor Frankenstein acompanha os trâmites mergulhado numa agonia excruciante, pois é o único a saber a verdadeira autoria do crime cometido pela sua criatura.
A firmeza de Justine
Durante o processo, Justine apresenta um comportamento calmo e sereno, mesclado com a tristeza da situação. Ao ser chamada a depor, relata o seu álibi de forma clara. Explica que, ao saber do desaparecimento de William, passou a noite procurando por ele. Acabou trancada fora dos portões da cidade, abrigou-se no celeiro de uma cabana e, ao despertar pela manhã assustada com passos próximos, seguiu em busca da criança.
A prova material
Confrontada sobre como a miniatura com o retrato de Caroline Beaufort foi parar em suas vestes, Justine afirma desconhecer completamente a origem da prova. Ela levanta a hipótese de que o verdadeiro assassino deve ter colocado a joia em seu bolso enquanto ela dormia ou estava desorientada no celeiro.
ANÁLISE
A análise do primeiro momento do capítulo revela uma crítica mordaz de Mary Shelley ao sistema judicial e à cegueira institucional. O tribunal de Genebra não opera como um bastião da verdade, mas como um teatro de aparências. Justine Moritz, apesar de sua postura serena e do relato lógico de seu álibi, já entra na corte condenada por provas meramente circunstanciais (a miniatura de Caroline Beaufort). A sua tranquilidade contrasta violentamente com a agonia de Victor Frankenstein. É aqui que se consolida a maior falha trágica do protagonista: a covardia moral. Victor possui a onisciência do autor do crime, mas a sua paralisia demonstra como o seu narcisismo se sobrepõe a qualquer senso de justiça coletiva. Ele prefere proteger a sua própria reputação — temendo ser rotulado de louco furioso caso relate a existência do seu monstro animado — a tentar salvar uma vida que sabe ser inocente.
Testemunhas de caráter esvaziadas
Várias pessoas que conheciam a bondade e a índole pacífica de Justine são chamadas a testemunhar em sua defesa. No entanto, intimidadas pela gravidade das evidências (a miniatura e a sua ausência na noite do crime) e pela hostilidade pública, as testemunhas relutam e os seus depoimentos são fracos e vacilantes.
O apelo de Elizabeth Lavenza
Notando a falência da defesa e o desespero de Justine, Elizabeth levanta-se voluntariamente na corte. Ela profere um discurso apaixonado, detalhando o histórico da acusada, a sua natureza afetuosa e a devoção profunda e maternal que ela sempre dedicara à família Frankenstein e, de modo muito específico, a William.
O efeito adverso no tribunal
O depoimento corajoso de Elizabeth gera grande comoção e murmúrios de aprovação quanto à lealdade de Elizabeth, mas tem o efeito prático inverso sobre o júri. Para os julgadores e para o público, a bondade da família Frankenstein serve apenas para agravar o suposto crime de Justine, fazendo-a parecer uma figura de monstruosa ingratidão.
A intervenção de Elizabeth Lavenza ilustra o choque direto entre os ideais do Romantismo (a paixão, a lealdade incondicional e a intuição dos puros sentimentos) e o cinismo de uma sociedade amedrontada. O depoimento de Elizabeth é um apelo à humanidade e ao histórico ilibado do caráter de Justine, elementos que, numa ordem moral íntegra, deveriam pesar muito mais do que um objeto encontrado no bolso da acusada. Contudo, a ironia macabra se abate sobre o tribunal: o discurso apaixonado de Elizabeth serve apenas para inflamar a percepção de uma suposta ingratidão monstruosa por parte de Justine. A sociedade genebrina retratada é incapaz de compreender a virtude complexa; o júri e o povo operam sob a lógica implacável da multidão e do preconceito velado de classe, onde uma mera criada é convenientemente transformada num bode expiatório para aplacar a fúria e o terror público.
A condenação
Apesar dos esforços de Justine e de Elizabeth, o júri baseia-se nas provas circunstanciais irrevogáveis. Justine é declarada culpada de homicídio qualificado e sentenciada à morte.
O silêncio do criador
Victor presencia tudo em um desespero silencioso, optando por não se pronunciar ou revelar a existência do seu monstro, convencido de que o seu relato de uma criatura artificial reanimada seria imediatamente descartado como o delírio de um louco furioso, incapaz de alterar a sentença.
A confissão e a coação religiosa
No dia seguinte, espalha-se a notícia de que Justine confessou o crime. A revelação abala severamente Elizabeth. Mais tarde, descobre-se que a confissão foi totalmente forjada: o padre que atendeu Justine na prisão a ameaçou com a excomunhão e o fogo do inferno caso não confessasse, levando a jovem a assumir uma culpa inexistente na esperança desesperada de garantir a sua absolvição espiritual.
A falsa confissão de Justine não é fruto de um despertar de consciência ou arrependimento, mas de puro terrorismo psicológico. O confessor atua como um agente de tortura espiritual, ameaçando uma mente já devastada e exausta com a excomunhão e o fogo eterno do inferno. A religião, que deveria oferecer conforto e graça à inocência, funciona aqui como a máquina de coerção que arranca uma mentira para justificar a “verdade” falha do tribunal civil. Paralelamente, a passividade crônica de Victor torna-o, de fato, cúmplice direto de um duplo homicídio. Ao calar-se perante a coerção que destrói Justine, Victor sela não apenas o destino da jovem, mas a sua própria danação irrevogável. Fica claro que o verdadeiro monstro deste capítulo não é a criatura de três metros escondida nos Alpes, mas o silêncio acovardado de seu criador e as engrenagens hipócritas dos homens.
A visita à cela
Aflita com a confissão, Elizabeth, acompanhada por um Victor devastado, visita Justine em sua cela. Justine desmorona em lágrimas e explica a Elizabeth a verdadeira razão da sua falsa confissão, reiterando a sua mais pura inocência.
O consolo final
Elizabeth abraça a sua versão sem hesitações, afirmando que nunca duvidara dela. Essa certeza traz uma enorme e melancólica paz à condenada, que afirma estar agora pronta para enfrentar a morte com resignação, livre do estigma perante as pessoas que ama.
A morte e o remorso definitivo
Na manhã seguinte, Justine Moritz caminha para o cadafalso e é executada. O capítulo termina com Victor Frankenstein consumido por um tormento inominável; ele carrega agora o peso esmagador de duas vidas inocentes — William e Justine — destruídas diretamente pelas mãos daquilo que ele próprio trouxe à vida.
O encerramento do capítulo cristaliza uma inversão dramática de papéis. Justine Moritz, a caminho da morte, encontra uma paz melancólica e uma elevação espiritual cimentada na certeza de sua inocência e na confiança de Elizabeth. Ela assume o contorno de uma mártir resignada com o absurdo da mortalidade injusta. Em total contraste, Victor Frankenstein condena-se ao inferno em vida. Enquanto o corpo físico de Justine morre limpo de culpa, a alma de Victor apodrece sob o peso do remorso insuportável. A execução de Justine marca a morte definitiva da inocência na vida da família Frankenstein. A partir deste ponto, o luto deixa de ser apenas uma dolorosa contingência da natureza (como o fora na morte de sua mãe, Caroline) para se tornar uma maldição autoinfligida. Psicologicamente, as mãos de Victor estão agora tão manchadas de sangue quanto estariam se ele próprio tivesse estrangulado o menino William e amarrado a corda no pescoço de Justine.

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