RESUMO
O cenário e o momento
Em uma noite fria e chuvosa de novembro, por volta de uma hora da manhã, Victor Frankenstein atinge o clímax do seu trabalho de quase dois anos. Com instrumentos dispostos ao seu redor para infundir a centelha da vida na matéria inerte, ele aguarda sob a iluminação fraca e bruxuleante de uma vela.
A primeira respiração
Victor vê o olho amarelo da criatura se abrir. O ser começa a respirar com dificuldade e seus membros se agitam em um movimento convulsivo. As características que Victor havia selecionado por serem teoricamente “belas” revelam-se uma visão grotesca na vida. A criatura possui uma pele amarela escurecida que mal oculta o emaranhado de músculos e artérias abaixo dela. Seus cabelos são de um negro lustroso e escorridos, e seus dentes de um branco perolado; contudo, esses traços contrastam assustadoramente com as órbitas pálidas, os olhos aquosos da mesma cor cinzenta das órbitas, a pele enrugada e os lábios retos e enegrecidos.
A fuga do criador
Imediatamente dominado pelo horror, pela repulsa e pelo desgosto pela obra que consumira a sua juventude, Victor abandona o seu laboratório às pressas e corre para refugiar-se em seu próprio quarto, incapaz de suportar a visão do ser que construiu.
ANÁLISE
Victor selecionou cada parte do corpo da criatura por sua suposta “beleza”. Contudo, a beleza idealizada, quando forjada através da profanação da morte, inevitavelmente degenera no grotesco. A ausência da alma natural e a palidez mortiça transformam o sonho do criador em uma abominação visual, escancarando a falácia de que a ciência humana poderia replicar a perfeição divina. O momento da animação marca o pecado original de Victor. O texto demonstra que a criatura não nasce má: nasce como uma folha em branco, respirando com dificuldade e agitando-se como um recém-nascido. A rejeição de Victor é um ato de suprema covardia moral. Ele recusa o papel de pai e cuidador, abandonando a sua criação à própria sorte. A verdadeira monstruosidade evidenciada neste item não é a aparência da criatura, mas a negligência absoluta do seu criador.
O sonho macabro
Após caminhar de um lado para o outro em extrema angústia, Victor finalmente cai de exaustão sobre a cama e entra num sono agitado. Ele tem um pesadelo vívido no qual encontra Elizabeth caminhando pelas ruas de Ingolstadt em plena saúde. Quando ele a abraça e lhe dá o primeiro beijo, os lábios dela empalidecem com o toque da morte. As feições de Elizabeth transformam-se repentinamente no cadáver de sua mãe morta (Caroline Beaufort), enrolado em uma mortalha de flanela, da qual Victor vê vermes rastejando nas dobras.
O encontro
Victor acorda horrorizado, coberto por um suor frio e tremendo. À luz pálida da lua que entra pelas persianas, ele vê a criatura em pé ao lado de sua cama. O monstro ergue as cortinas do dossel da cama e fixa os olhos em Victor. Suas mandíbulas se abrem, emitindo sons inarticulados, e um sorriso enruga as suas bochechas. A criatura estende a mão na tentativa de detê-lo.
A fuga para o pátio
Aterrorizado com a aproximação, Victor escapa do quarto, desce as escadas correndo e refugia-se no pátio do prédio onde reside. Passa o resto da noite caminhando debaixo de chuva e no frio cortante, tremendo a cada som, imaginando que o monstro o está caçando.
O pesadelo em que o beijo em Elizabeth a transforma no cadáver da mãe de Victor (Caroline Beaufort) é carregado de simbolismo psicológico. A análise sugere uma profunda conexão entre o desejo (Eros) e a morte (Thanatos). Victor subverteu o processo natural de procriação humana (que envolveria Elizabeth) ao gerar vida sozinho através da morte. O sonho profetiza que a sua criação antinatural trará a corrupção e a morte para a sua própria noiva e família. Quando Victor acorda e encontra o monstro ao lado de sua cama, a atitude da criatura é ambígua para o leitor, mas interpretada como maliciosa pelo criador. O monstro murmura sons inarticulados, sorri e estende a mão — gestos típicos de um bebê humano buscando contato e aceitação. Victor, cego pelo próprio pavor e preconceito estético, interpreta essa vulnerabilidade como uma ameaça letal e foge, selando o isolamento definitivo do ser.
A deambulação matinal
Com o amanhecer do dia chuvoso e lúgubre, Victor abandona o pátio e começa a vagar a esmo pelas ruas de Ingolstadt, ensopado e sem coragem de retornar aos seus aposentos. A caminhada o leva até a hospedaria da cidade onde as carruagens e diligências fazem paradas. Ele percebe a aproximação de uma carruagem suíça e, quando a porta se abre, depara-se com seu grande amigo de infância, Henry Clerval.
A reação de Clerval
Clerval desembarca demonstrando enorme alegria por finalmente poder estudar em Ingolstadt. Contudo, ao observar Victor mais de perto, o amigo surpreende-se com a sua aparência pálida, doentia, emagrecida e febril, como se Victor não dormisse há várias noites consecutivas.
Clerval personifica o ideal Romântico: a saúde, o equilíbrio, o respeito pela natureza, as humanidades e as artes. A sua chegada sublinha o quão longe Victor se desviou do caminho da humanidade em sua busca obsessiva pela glória científica. A análise destaca que a aparência macilenta, cadavérica e insone de Victor diante do amigo saudável é uma manifestação externa do seu apodrecimento moral. Victor tentou dar vida à matéria morta, mas, ironicamente, a transferência de energia quase lhe custou a própria vitalidade, transformando o criador num reflexo vivo dos cadáveres que manipulou.
O retorno temeroso
Victor conduz Clerval em direção aos seus aposentos, mas durante o trajeto é consumido pelo pavor antecipado de que a criatura ainda esteja solta pelo apartamento e que Clerval a veja. Pedindo a Clerval que espere no pé da escada, Victor sobe apressadamente, abre a porta e inspeciona cada cômodo. Ao constatar que o apartamento está vazio e que a criatura fugiu, sente um alívio súbito.
A descompensação nervosa
Ele permite a entrada de Clerval, mas o alívio de Victor se transforma em uma alegria maníaca, descontrolada e histérica. Ele ri desenfreadamente aos gritos e, logo em seguida, desmaia em um colapso completo diante do amigo. Victor é acometido por uma violenta febre nervosa que o deixa completamente prostrado e frequentemente delirante, imaginando durante os delírios que o monstro o espreita e o sufoca.
Os meses de cuidados
Clerval torna-se o único cuidador de Victor ao longo de vários meses, abdicando de seus próprios estudos. Ele oculta a gravidade do estado do amigo da família Frankenstein em Genebra para não lhes causar dor. No final do capítulo, com a chegada da primavera e a natureza reflorescendo, Victor recobra finalmente as suas forças e a sua lucidez, momento em que Clerval lhe anuncia que uma carta de Elizabeth o aguarda.
Quando Victor descobre que o monstro fugiu de seu apartamento, a sua alegria maníaca e histérica expõe uma perigosa imaturidade. Ele opera sob a falácia infantil de que “o que não pode ser visto, não existe”. Ele prefere acreditar que o problema desapareceu simplesmente por ter saído do seu campo de visão, ignorando a grave ameaça que uma criatura super-humana e alienada representa para a sociedade lá fora. O colapso físico imediato e os meses de febre nervosa não são apenas o resultado do esgotamento, mas uma defesa psicossomática severa. Diante do trauma inominável de ter rompido as leis da natureza e do terror da sua própria responsabilidade, a mente de Victor desliga o seu corpo. A febre permite que ele regrida a um estado de total dependência e infantilidade, forçando Clerval a cuidar dele e eximindo-o, temporariamente, de ter que caçar ou enfrentar o monstro que libertou no mundo.

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