RESUMO
O Triângulo de Temperamentos: Victor, Elizabeth e Henry Clerval
O capítulo inicia-se traçando um forte contraste psicológico entre as três figuras centrais da juventude de Victor. Elizabeth é uma alma contemplativa e poética, que aprecia a beleza serena da natureza e se dedica à poesia. Henry Clerval, apresentado como o melhor amigo de Victor, é movido pela literatura cavalheiresca, pelo romance heróico e pelas questões morais da humanidade. Victor, no entanto, é consumido por uma curiosidade violenta e investigativa.
ANÁLISE
A dinâmica entre Victor, Elizabeth e Henry Clerval revela muito mais do que meras diferenças de personalidade na infância; trata-se de uma representação alegórica das forças conflitantes no pensamento europeu do final do século XVIII e início do século XIX. Elizabeth personifica o Sublime Romântico em sua forma passiva e apreciativa. Ela não deseja dominar a natureza, mas sim venerá-la. A sua mente é poética, voltada para a harmonia e as aparências celestiais do mundo. Henry Clerval encarna o humanismo clássico e a moralidade cívica. O seu foco está nas relações humanas, na ética, no heroísmo e na estrutura social. Victor, em contrapartida, é a personificação do arquétipo Fáustico e do cientificismo sem freios. Enquanto Elizabeth e Henry representam a conexão (com o belo e com a sociedade, respectivamente), a busca de Victor exige a dissecação, a penetração violenta e o isolamento. A grande tragédia estruturada aqui é que Elizabeth e Henry funcionam como âncoras de sanidade para Victor. Ao longo do romance, o afastamento progressivo de Victor em relação a essas duas figuras espelha a sua perda de bússola moral e de humanidade. Ao rejeitar o equilíbrio que oferecem, Victor condena-se à loucura solitária de quem vê a natureza apenas como um obstáculo a ser conquistado.
A Descoberta da Alquimia e a Falha Didática do Pai
Um dos momentos de maior impacto no capítulo ocorre quando, aos treze anos, durante as férias, Victor encontra um volume de Cornelius Agrippa. Ao mostrar o livro ao pai, Alphonse Frankenstein descarta a obra levianamente como “triste lixo”, sem explicar ao filho que os princípios daqueles antigos alquimistas haviam sido completamente invalidados pela ciência moderna. Essa falha paterna atua como um catalisador. A falta de uma explicação racional, aliada à rebeldia intelectual natural de Victor, empurra o jovem para uma obsessão desmedida. Passa a devorar as obras de Agrippa, Paracelso e Alberto Magno. A sua busca desvia-se das verdades prováveis para abraçar quimeras: ele não quer apenas entender o mundo, mas anseia pela glória suprema de banir a doença e descobrir o elixir da imortalidade.
O episódio do livro de Cornelius Agrippa é crucial para a compreensão da falha fatal de Victor. O gesto de seu pai, Alphonse, ao descartar o livro sem oferecer uma explicação científica do porquê os alquimistas estavam errados, é uma crítica sutil de Mary Shelley à arrogância cega do Iluminismo (a Era da Razão). A recusa do pai em educar o filho adequadamente deixa um vácuo intelectual que a mente ansiosa de Victor preenche com fantasia e ambição desmedida. A atração de Victor por Agrippa, Paracelso e Alberto Magno não é acidental: estes pensadores não buscavam apenas entender a natureza, mas sim transmutá-la, curar todas as doenças e alcançar a imortalidade. A ciência moderna, aos olhos do jovem Victor, parece frustrante e limitadora, preocupando-se apenas com coisas mesquinhas, enquanto a alquimia promete a ele o poder de um deus. Psicologicamente, este momento planta a semente de sua arrogância (hybris): a ideia de que as leis naturais que governam a vida e a morte não se aplicam a ele, e que ele pode subvertê-las. É também um sombrio prenúncio da negligência parental que o próprio Victor demonstrará para com a sua futura Criatura.
O Relâmpago, o Carvalho e a Revelação da Eletricidade
Quando Victor atinge os quinze anos, a narrativa apresenta um evento de forte peso simbólico: durante uma violenta tempestade em Belrive, o jovem testemunha um raio pulverizar um velho e majestoso carvalho, reduzindo-o a meras fitas de madeira chamuscada. Um pesquisador que estava com a família explica aos presentes as imensas leis da eletricidade e do galvanismo.
A destruição do majestoso carvalho pela tempestade elétrica é uma das imagens mais potentes e simbólicas do romance. Na tradição literária, o carvalho é um símbolo de força, antiguidade e da ordem natural estabelecida. A sua obliteração instantânea pelo relâmpago serve a um propósito duplo na narrativa: o fogo roubado dos deuses por Prometeu é aqui substituído pela eletricidade (uma referência direta aos experimentos de galvanismo de Luigi Galvani e Giovanni Aldini, muito discutidos no círculo de Mary Shelley). Victor depara-se com uma força infinitamente superior à mágica dos velhos alquimistas: a energia brutal e invisível da própria natureza. A árvore reduzida a um “tronco despedaçado e chamuscado” é o espelho do que o próprio Victor se tornará. Ao tentar domar e manipular essa centelha vital incontrolável, acabará por atrair o relâmpago para si mesmo e para a sua família, terminando a sua vida tal como o carvalho: oco, destruído e arruinado pelas forças que não soube respeitar.
A Ilusão do Livre-Arbítrio e o Papel do Destino
O capítulo encerra-se com o abandono temporário da ciência por parte de Victor. Ele reflete retrospectivamente que o seu breve refúgio na matemática e na tranquilidade foi uma intervenção de seu “anjo da guarda”, o último esforço de sua sanidade para salvá-lo. A análise do discurso do narrador evidencia uma forte inclinação ao determinismo e à evasão de responsabilidades. Victor frequentemente invoca a figura do Destino para justificar a sua queda. Ao narrar que o Destino interveio para garantir sua “inevitável e miserável ruína”, o protagonista tenta, inconscientemente, eximir-se da culpa total de suas escolhas, atribuindo o seu retorno posterior à ambição desenfreada a uma força cósmica e inescapável.
A conclusão do capítulo traz uma análise complexa sobre a confiabilidade do próprio narrador. Quando Victor narra que um “anjo da guarda” tentou desviá-lo da ciência ao direcioná-lo para a matemática, e que o “Destino” decretou a sua destruição inevitável, o leitor depara-se com um mecanismo psicológico de defesa profunda: a recusa em assumir culpa.
Victor, ao contar a sua história retrospetivamente a Robert Walton, luta com o trauma terrível de ser o responsável pela morte das pessoas que mais amava. Para não sucumbir ao peso esmagador de sua própria vaidade, ele constrói uma narrativa fatalista. Ele transforma-se em um mártir cósmico, um peão nas mãos de um universo malévolo. Mary Shelley brinca com a tensão entre o livre-arbítrio e o determinismo. Victor teve escolhas. Escolheu ignorar os conselhos, escolheu o isolamento, escolheu roubar partes de corpos em cemitérios e, mais tarde, escolherá abandonar a sua criação. Atribuir essas escolhas ao “Destino” sublinha o narcisismo e a imaturidade moral que definem o personagem do princípio ao fim da sua vida.

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