RESUMO
A Ilusão de Segurança e o Domínio sobre a Natureza
A Carta 3, enviada pelo capitão Robert Walton à sua irmã, Margaret Saville, é a mais curta de todas as correspondências introdutórias do romance. Datada de 7 de julho, ela é despachada por meio de um navio mercante que retorna de Arcangel para a Inglaterra. A expedição está avançando rapidamente. Walton tranquiliza a irmã afirmando estar a salvo, relatando que até o momento não enfrentaram grandes perigos, à exceção de ventanias e um pequeno vazamento no navio. Embora o capitão mencione estar cercado por montanhas de gelo flutuante — o que indica um perigo letal iminente — minimiza a ameaça. Para Walton, o oceano não é uma força incontrolável, mas sim um “elemento indomável, porém obediente”.
ANÁLISE
Quando Walton descreve o oceano como um “elemento indomável, porém obediente”, o texto expõe uma contradição fatal. A natureza, por definição, não pode ser simultaneamente indomável e submissa à vontade de um capitão. Walton enxerga os blocos de gelo flutuantes não como os arautos de uma morte iminente, mas como meros obstáculos físicos que a engenhosidade humana pode facilmente contornar. Essa percepção reflete o perigoso antropocentrismo de sua época: a crença de que a Terra e seus elementos existem para serem mapeados, dominados e subjugados pelo intelecto do homem. A tranquilidade que Walton transmite à irmã não é fruto de uma travessia pacífica, mas de uma cegueira seletiva. Ele despoja o Ártico de sua letalidade intrínseca, reduzindo-o a um mero palco para a sua glória pessoal. Essa ilusão de controle é a antessala da catástrofe, servindo como um espelho temático para a futura tentativa de Victor Frankenstein de dominar os processos biológicos da vida e da morte.
A Consagração da Hybris (Arrogância Humana)
O núcleo da Carta 3 é o absoluto delírio de grandeza de Walton. Ele promete à irmã que não será imprudente, mas imediatamente contradiz essa promessa ao declarar sua fé inabalável de que o sucesso coroará os seus esforços. A pergunta retórica mais emblemática da epístola: “O que pode deter o coração determinado e a vontade resoluta do homem?” cristaliza a hybris do personagem — o orgulho desmedido que leva os mortais a desafiarem o bom senso e as leis naturais. Walton está tão cego pela própria ambição que se julga onipotente.
Aqui se tem o cerne do orgulho desmedido, a hybris grega, que define os trágicos heróis românticos. A indagação retórica de Walton — “O que pode deter o coração determinado e a vontade resoluta do homem?” — não é apenas uma demonstração de autoconfiança, mas uma declaração de invulnerabilidade quase divina. Walton sofre de uma miopia existencial: confunde o desejo profundo com a capacidade material. Para ele, a “vontade resoluta” é uma força mágica capaz de suspender as leis da física, do clima e da mortalidade. Ao fazer tal afirmação, a personagem tenta transcender a condição humana, ignorando que o corpo humano (e o de sua tripulação) é frágil e perfeitamente destrutível pelo frio extremo. A carta atinge aqui o ápice de um delírio de grandeza. A arrogância não reside apenas na busca pelo inexplorado, mas na presunção profana de que o universo deve, obrigatoriamente, curvar-se diante da teimosia de um único homem.
Ironia Dramática e Prenúncio
O capitão relata que as próprias estrelas são testemunhas de seu “triunfo”. O leitor, ciente do gênero da obra, pressente que essa confiança inabalável precede uma queda catastrófica.
A Carta 3 atua como um recurso de tensão narrativa. Ao clamar que “as próprias estrelas” testemunham o seu triunfo, Walton compõe o seu próprio réquiem irônico. A ironia dramática ocorre porque o leitor, imerso em um romance gótico, possui uma percepção superior à do narrador: sabe-se que tamanho ufanismo em território desconhecido é o prenúncio clássico da ruína. Por fim, a carta funciona como um funil narrativo. Seu tamanho reduzido (apenas dois parágrafos) mimetiza a velocidade com que o navio avança sem freios rumo ao perigo. Não há tempo para descrições longas ou reflexões cautelosas: há apenas o ímpeto eufórico do avanço. Essa euforia serve para maximizar o impacto do que ocorrerá na Carta 4. Ao inflar o balão da esperança e da arrogância de Walton até o seu limite máximo nesta terceira correspondência, o romance garante que o subsequente aprisionamento do navio no mar de gelo — e a terrível aparição de Victor Frankenstein e sua Criatura — sejam sentidos com um choque devastador. A falsa paz da Carta 3 é, portanto, o abismo disfarçado de triunfo.

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