RESUMO
A Defesa Inicial de Menelau
O canto começa imediatamente após a morte de Pátroclo. Menelau, rei de Esparta, percebe a queda do companheiro e avança para proteger o corpo. Homero usa uma metáfora célebre aqui, comparando Menelau a uma mãe vaca protegendo seu bezerro recém-nascido.
A Morte de Euforbo
Euforbo, o jovem guerreiro troiano que havia dado a primeira estocada em Pátroclo, confronta Menelau, exigindo o direito de levar a armadura do morto (que pertencia a Aquiles). Menelau recusa, e um duelo se inicia. Com a ajuda dos deuses, Menelau crava sua lança na garganta de Euforbo, matando-o. O sangue do jovem troiano encharca seus belos cabelos, que Homero descreve como adornados com ouro e prata, em uma cena de trágica beleza.
ANÁLISE
O Canto XVII da Ilíada não é apenas uma ponte entre a morte de Pátroclo e o retorno de Aquiles à guerra; é um estudo profundo sobre a mortalidade, o luto, a glória e o limite da resistência humana. Para o leitor moderno, dedicar um capítulo inteiro a uma “guerra de puxa-estica” por um cadáver pode parecer grotesco. No entanto, na mentalidade da Grécia Arcaica, o destino do corpo físico determinava o destino espiritual e o legado do herói. Heitor não quer apenas matar Pátroclo; ele quer decapitar o corpo, espetar a cabeça em uma estaca e jogar o corpo aos cães de Troia. Isso destruiria o kleos (glória imortal) de Pátroclo e de Aquiles, e impediria que a alma do morto encontrasse descanso no Hades. Homero compara a disputa pelo corpo ao trabalho de artesãos esticando um couro de boi molhado de gordura. Essa imagem brutal, crua e visceral despoja a guerra de seu glamour. O herói caído é reduzido a matéria, puxado de um lado para o outro em um esforço animalesco e exaustivo.
A Chegada de Heitor e Ájax (O Grande)
Apolo, assumindo a forma do líder dos cícones, Mentes, incita Heitor a atacar Menelau e tomar o corpo. Diante da investida feroz de Heitor e do exército troiano, Menelau percebe que não conseguirá defender o cadáver sozinho e recua taticamente para buscar a ajuda de Ájax Telamônio (o Grande Ájax), o guerreiro mais formidável dos aqueus depois de Aquiles. Quando Menelau e Ájax retornam, Heitor já havia conseguido despojar Pátroclo da armadura de Aquiles, mas, ao ver o gigantesco Ájax se aproximando com seu enorme escudo em forma de torre, Heitor recua e abandona o corpo nu de Pátroclo.
O Grande Ájax consolida seu papel como o escudo inquebrável dos gregos. Ele não busca glória pessoal ou despojos neste canto; todo o seu poder é direcionado a proteger os seus.
A Repreensão de Glauco e a Húbris de Heitor
Glauco, líder dos lícios e aliado dos troianos, repreende Heitor severamente por sua covardia ao fugir de Ájax. Glauco argumenta que, se os troianos capturassem o corpo de Pátroclo, poderiam trocá-lo pelo corpo e armadura de Sarpédon. Ferido em seu orgulho, Heitor promete provar sua coragem. Em um momento de profunda importância simbólica e de grave húbris (arrogância desmedida), Heitor veste a armadura de Aquiles que acabara de roubar. No Monte Olimpo, Zeus observa a cena. O deus balança a cabeça em desaprovação e murmura uma profecia sombria: embora Heitor sinta grande glória agora, ele não viverá para que sua esposa, Andrômaca, receba aquela armadura após a batalha. Contudo, em compensação pela sua morte iminente, Zeus infunde Heitor com uma força sobre-humana e um poder aterrorizante.
A armadura de Aquiles é imortal (forjada pelos deuses). Ao vesti-la, Heitor tenta apropriar-se da aura, do terror e do poder do maior herói grego. Contudo, as armas não pertencem a ele. É um ato de húbris (desmedida/arrogância cega). A tragédia de Heitor é selada aqui. Zeus observa a cena com melancolia e decreta que Heitor jamais retornará vivo para os braços de Andrômaca. A força formidável que Heitor exibe no final do canto não é fruto de seu próprio mérito, mas uma compensação irônica de Zeus: um último brilho de glória antes da aniquilação inevitável. Heitor torna-se, metaforicamente, um “morto-vivo”, marchando com a armadura de seu futuro carrasco.
O “Cabo de Guerra” e a Névoa Divina
Com Heitor fortalecido e vestindo as armas de Aquiles, o confronto se torna uma carnificina total. A batalha por Pátroclo passa a envolver os maiores heróis de ambos os lados: Eneias e Heitor do lado troiano, contra Ájax, Menelau e Idomeneu do lado aqueu. Para proteger o corpo, Zeus lança uma densa e escura névoa sobre o campo de batalha, especificamente ao redor do cadáver. Essa escuridão isola os guerreiros, criando uma sensação claustrofóbica. Enquanto o resto da planície de Troia brilha sob o sol, os heróis em torno de Pátroclo lutam às cegas, cobertos de sangue, suor e poeira, puxando o corpo de um lado para o outro. Homero compara o esforço coletivo dos guerreiros esgarçando o corpo a artesãos esticando a pele de um boi para curti-la.
A névoa sobrenatural que Zeus derrama sobre o campo de batalha em torno do corpo de Pátroclo é densamente simbólica, não é apenas um obstáculo militar; é a manifestação física do luto, da confusão e da ausência de razão na guerra. Ela contrasta fortemente com o sol que brilha no resto da planície, isolando o sofrimento daquela disputa.
O Choro dos Cavalos Imortais e Automedonte
Longe do centro da batalha, ocorre uma das cenas mais comoventes da Ilíada. Os cavalos imortais de Aquiles — Xanto e Bálio, que Pátroclo havia levado para o combate, estão paralisados. Os animais choram a morte de seu auriga substituto, vertendo lágrimas quentes na poeira, com as crinas manchadas e caídas. Zeus sente pena das criaturas imortais presas à tristeza mortal. O deus lhes concede renovado vigor, permitindo que o auriga Automedonte consiga controlá-los e voltar a manobrar o carro de guerra pelo campo de batalha, embora sem conseguir atacar efetivamente, pois estava sozinho na carruagem.
A cena de Xanto e Bálio (os cavalos imortais) chorando por Pátroclo é uma das passagens mais sublimes e existencialistas de toda a literatura ocidental. Os cavalos não sentem dor física, não envelhecem e não morrem, mas estão presos na poeira da batalha, sofrendo emocionalmente pela morte de um humano que amavam. Ao ver os cavalos chorando, Zeus reflete sobre a maldição da humanidade: “Não há criatura mais miserável que o homem, dentre todas as que respiram e rastejam sobre a terra.” Aqui, Homero inverte o olhar: não somos nós olhando para o Olimpo invejando os deuses, mas o universo divino olhando para nós com uma pena profunda e melancólica. A mortalidade humana é tão trágica que afeta até mesmo a natureza imortal.
A Prece de Ájax e a Missão de Antíloco
A exaustão toma conta das fileiras gregas. A escuridão enviada por Zeus os desespera, pois não conseguem ver quem está vivo, quem está morto, ou como escapar da pressão constante dos troianos. É neste momento que Ájax faz uma de suas preces mais famosas: “Zeus poderoso! liberta os Acaios das trevas que os cercam! O firmamento serena, concede-lhes luz para os olhos! Morram, se assim te é agradável, mas que isso se passe no claro!” Comovido pela bravura e pelo apelo de Ájax, Zeus dissipa a névoa e devolve o sol ao campo de batalha. Com a visão restaurada, Ájax percebe que a situação é insustentável. Então instrui Menelau a procurar Antíloco (filho de Nestor) e enviá-lo às pressas às tendas de Aquiles para entregar a terrível notícia de que Pátroclo está morto, na esperança de que Aquiles finalmente saia de sua ira e venha ao resgate do corpo.
No auge do desespero cego, Ájax não pede aos deuses para sobreviver ou vencer. Ele diz: “Dá-nos luz para os olhos! Se é o teu desejo destruir-nos, que seja ao menos na luz do dia!” Esta é talvez a maior afirmação do heroísmo homérico. O herói grego aceita a morte (Moira, o destino), mas exige morrer com consciência, com clareza, olhando o inimigo nos olhos. Ájax recusa-se a morrer como um animal abatido no escuro. Ainda, a decisão de Ájax de enviar Antíloco para avisar Aquiles funciona como um mecanismo narrativo de altíssima tensão. Durante todo o longo e exaustivo Canto XVII, o leitor sabe o que Aquiles ainda não sabe: o homem que ele mais amava está morto. A corrida de Antíloco em direção às tendas atua como o pavio queimando em direção ao barril de pólvora. A exaustiva retirada dos Ájax carregando o cadáver ensanguentado não é o fim da batalha, mas o prelúdio do apocalipse que virá quando Aquiles despertar para sua vingança cega.
O Retiro Estratégico com o Corpo
O canto termina com uma manobra tática complexa e dramática: Menelau e Meríones erguem o cadáver de Pátroclo do chão e começam a carregá-lo dolorosamente em direção aos navios gregos. Enquanto isso, os dois Ájax (o Telamônio e o filho de Oileu) formam uma barreira viva, servindo de retaguarda. Os guerreiros bloqueiam heroicamente as violentas investidas de Heitor e Eneias, que os atacam como falcões caçando pássaros menores. O Canto XVII se encerra com essa procissão sangrenta e desesperada rumo ao acampamento aqueu, preparando o terreno para a fúria apocalíptica de Aquiles que eclodirá nos cantos seguintes.
O Canto XVII é uma meditação sobre a exaustão da guerra. O heroísmo aqui não está em conquistar, mas em resistir, honrar os mortos e manter a dignidade humana — mesmo quando o destino, os deuses e a névoa tentam apagá-la.

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