Ilíada

Homero

Canto I

Resumo & Análise

RESUMO

A Invocação e a Peste
O prólogo deste canto traz a invocação à Musa e a introdução da história da ira de Aquiles, filho de Peleu e o maior herói grego na Guerra de Troia, e suas consequências desastrosas para os gregos (aqueus). A história se inicia nove anos após o começo da guerra, quando os aqueus atacam uma cidade que é aliada dos troianos e conseguem capturar duas jovens lindas, Criseida e Briseida. Agamemnon, líder supremo do exército aqueu, captura Criseida como recompensa; e Aquiles toma Briseida. 
A Súplica do Sacerdote
O pai de Criseida, Crises, que é sacerdote do deus Apolo, suplica a Agamemnon para que devolva sua filha, oferecendo um resgate exorbitante em troca. 
A Arrogância do Rei
Apesar de o exército concordar que o sacerdote deva ser respeitado, Agamémnon recusa o resgate e expulsa Crises de forma grosseira e ameaçadora.
A Punição de Apolo
Crises reza a Apolo em busca de auxílio. O deus atende à prece e desce do Olimpo disparando suas flechas mortais contra o acampamento. Durante nove dias, uma peste terrível dizima mulas, cães e guerreiros aqueus.

ANÁLISE

O Canto I é a fundação de toda a obra, estabelecendo o motor principal da narrativa: a cólera (menis) de Aquiles. O poema não narra o início da Guerra de Troia, mas foca especificamente nas consequências dessa fúria devastadora durante o décimo ano do cerco. Quando o Canto inicia-se com “canta-me, ó Deusa (…)”, essa divindade é a Musa. Também presente na Odisseia e outras obras, os termos Musa ou Musas são usadas sem muita distinção. Uma invocação inicial à Musa era muito usado em poemas épicos e em hinos literários, assim como o pedido para cantar (através do poeta) o tema principal. Os cantores (poetas) afirmavam ser inspirados e ensinados pelas Musas, as deusas da música, dança e canto, que eram tidas como filhas de Zeus e Mnemosina (a Memória), e que habitavam o Monte Hélicon, perto do Monte Olimpo. A ‘ira’ que a deusa cantará persistirá ao longo de todo o poema e determinará, em certo sentido, o destino de Troia. Quando Agamemnon se recusa a entregar a filha de Crises, a passagem de Apolo é exemplo precoce de intervenção divina, demonstrando como os deuses podem mudar rapidamente a sorte dos homens. E Apolo age ele próprio: como deus arqueiro, às vezes precisa estar no local ou perto, não no Olimpo. As primeiras vítimas são os animais (mulas e cães),  detalhe relevante, pois pode aludir à uma reminiscência de uma verdadeira peste.

A Assembleia e o Embate
Depois de nove dias de angústia, Aquiles reúne uma assembleia (ideia dada pela deusa Hera) com a participação do exército aqueu. Então, solicita a um oráculo que explique a origem da praga, questionando se foi por omissão ou erro de algum sacrifício. 
A Revelação de Calcas
Calcas, um vidente de grande renome, oferece-se. Apesar de abordar o tema das represálias de Agamemnon, Calcas revela que a praga foi uma manobra tanto vingativa quanto estratégica de Crises e Apolo. Fazendo Aquiles prometer protegê-lo, o vidente então conclui que se deve devolver a filha de Crises, e fazer um sacrifício a Apolo.

Aquiles pode convocar uma assembleia por ser o melhor guerreiro, mas, para o poeta, essa ordem será importante para o início da querela entre ele e Agamemnon. Hera, esposa de Zeus, foi quem deu a ideia da assembleia para Aquiles, demonstrando a simpatia dela pelo povo aqueu. Aquiles levanta possibilidade sobre o motivo da praga, porém esconde, talvez deliberadamente, a ofensa de Agamemnon a Crises. O discurso de abertura de Calcas (cujo tom cauteloso, para não dizer ardiloso) visa protegê-lo da provável irritação do rei com o que ele dirá. A perigosa ira dos reis contra portadores de más notícias era um lugar-comum posteriormente, por exemplo, em Édipo Rei, de Sófocles, e As Bacantes, de Eurípides, e provavelmente já o era na tradição épica antes da época de Homero. Os reis também eram propensos a se irritarem com meras discordâncias. Assim, esse apelo de Calcas para que Aquiles o proteja já prenuncia o conflito entre Agamemnon e Aquiles.

A Exigência de Agamemnon
Agamemnon deprecia Calcas como profeta e se opõe, afirmando que prefere Criseida a sua esposa, mas que abriria mão dela se fosse o melhor para todos. No entanto, afirma que deve ser recompensado por sua perda, caso contrário, feriria sua honra (seu timê), eis que ficaria sem prêmio algum.
A Troca de Insultos
Aquiles informa que todo o tesouro foi repartido e que o pagamento será realizado mais tarde. Agamemnon nega, dizendo que pegará o presente de qualquer capitão que quiser, até mesmo de Aquiles. O herói, então, acusa Agamémnon de ser ganancioso e de sempre ficar com as melhores recompensas, enquanto os outros fazem o trabalho pesado nas batalhas e avisa que voltará com seu povo, os Mirmidões, para Ftia. Em retaliação, Agamémnon declara que tomará Briseida, a jovem que foi dada como prêmio ao próprio Aquiles e afirma não se importar caso abandone a campanha.

Agamemnon dirige seus comentários primeiro ao vidente e depois aos aqueus em geral. Sua raiva se manifesta de três maneiras diferentes e sucessivas: (i) pela depreciação tendenciosa de Calcas como profeta; (ii) pela frase central descontrolada que se transforma em uma comparação franca e até brutal de Criseida com sua esposa, e; (iii) pela exigência final irracional da entrega imediata de um prêmio equivalente. Assim, a disputa entre Agamemnon e Aquiles é, primordialmente, uma questão de honra. A resposta de Aquiles é calma e não abertamente provocativa. Sua análise da situação parece bastante lógica: (i) Não há estoque de prêmios não utilizados, (ii) O que já foi distribuído não pode ser razoavelmente recuperado, (iii) O rei será recompensado três ou quatro vezes mais se e quando Troia for capturada. Mas isso deixa o comandante supremo sem uma cativa feminina por enquanto; e do ponto de vista de honra, isso é o importante. A ameaça de Agamemnon é vista por Aquiles como uma enorme desonra, já que Briseida foi tomada em razão de sua destreza em combate. Além disso, parece ter um grande vínculo emocional com a jovem. A raiva de Aquiles, como se observa, é provocada pelo rei Agamemnon, que o menospreza sem necessidade, e também pelo próprio Aquiles, que se mostra excessivamente obcecado em defender sua honra, em detrimento de seus companheiros, com quem não possui qualquer conflito.

A Espada Pela Metade
Aquiles, cego de raiva, saca parcialmente sua espada da bainha, hesitando entre matar Agamémnon ali mesmo ou controlar sua fúria.
O Puxão de Atena
A deusa Atena, enviada por Hera, aparece atrás dele, puxa-lhe o cabelo e consegue conter sua raiva. Apenas Aquiles a vê. A deusa ordena que  guarde a espada, prometendo que, no futuro, será recompensado três vezes mais pela insolência de Agamémnon. Aquiles obedece.
O Juramento do Cetro
Aquiles guarda a espada, mas dispara uma enxurrada de insultos contra o comandante (chamando-o de “cara de cão e corajoso como um veado”). Segurando o cetro da assembleia, ele jura que se retirará da guerra com seus soldados (os mirmidões) e profetiza que chegará o dia em que os gregos implorarão por sua ajuda quando estiverem sendo massacrados por Heitor

Atena aparece e é a primeira vez que testemunhamos uma deusa se dirigindo diretamente a um mortal. Seu ato de acalmar a fúria de Aquiles levanta dúvidas sobre o livre-arbítrio dele naquele instante. Seus sentimentos tempestuosos e tumultuados se tornam um simples debate formal. A deusa, de fato, simboliza o código de conduta ortodoxo (o princípio da ordem que os deuses promovem e sustentam entre os homens). Atena segurando os cabelos de Aquiles com firmeza, puxando com força, é a mais notável de todas as ações físicas de um deus ou deusa na Ilíada.

A tentativa de Nestor
O capitão Nestor tenta apaziguar a situação, pedindo que Agamemnon e Aquiles se afastem um do outro, mas eles não lhe dão ouvidos. Aquiles, furioso, volta para seu acampamento, enquanto Agamemnon se dispõe a oferecer um sacrifício a Apolo.
A captura de Briseida
Agamemnon convoca dois arautos e os instrui a ir ao acampamento de Aquiles para lhe trazer Briseida. Quando chegam, Aquiles os acolhe cordialmente e autoriza os mensageiros a levar Briseida sem resistência. Reprova Agamemnon mais uma vez e informa aos arautos que haverá um dia em que irão necessitar de sua assistência. Os mensageiros trazem Briseida de volta para o acampamento de Agamemnon.

Nestor é tido como uma das personagens favoritas de Homero. Quando Agamemnon decide devolver Criseida, não está apenas perdendo uma escrava; ele está sofrendo uma desvalorização pública de seu “capital” de honra. Ao tomar Briseida de Aquiles, o rei transfere essa falência para o guerreiro. A dor de Aquiles não é (primariamente) romântica por perder a mulher que ama, mas sim a dor aguda do desrespeito público, pois foi tratado como um subalterno descartável, o que é inaceitável para alguém que escolheu morrer jovem em troca de glória (Kleos). Embora Aquiles seja capaz de resistir aos arautos de Agamemnon, assume uma postura moral superior, dizendo aos arautos que eles próprios não são culpados. Sabemos que a profecia de Aquiles se cumprirá, enfatizando a natureza imutável de seu destino.

O Choro do Herói
Em lágrimas, Aquiles suplica à sua mãe Tétis, uma deusa do mar, por auxílio para se vingar de Agamemnon. Afirma que, ciente de que sua vida será breve, pelo menos merece ter sua honra mantida. Tétis surge ao seu lado, percebendo sua aflição.
O Plano de Vingança
Aquiles detalha a situação e solicita à mãe que converse com Zeus para que este tome medidas. O herói se recorda de que Zeus lhe deve um favor, uma vez que sua mãe o auxiliou a evitar uma revolta dos demais deuses. Tétis chora pelo destino de seu filho Aquiles, que está fadado à dor e a uma vida breve. Ela aceita visitar Zeus quando este voltar ao Olimpo em doze dias e ordena ao filho para que fique longe da batalha.

Ao invocar sua mãe Tétis, Aquiles põe seu destino em movimento. A figura da deusa introduz a melancolia central de Aquiles. Sendo uma divindade imortal, ela sabe que seu filho mortal tem um destino trágico e de vida curta. Quando Aquiles chora na praia, não é um guerreiro implacável, mas um jovem vulnerável clamando por sua mãe. A ironia trágica da intercessão de Tétis é cruel: Aquiles pede para que seus próprios aliados gregos sejam massacrados apenas para provar seu valor a Agamemnon. Ele consegue o que quer (Zeus aceita o pacto), mas esse mesmo massacre culminará, mais tarde, na morte de Pátroclo (o grande amigo e irmão de armas de Aquiles), o que destruirá a alma do próprio herói.

O retorno de Briseida
O capitão Odisseu zarpa em direção à ilha de Crises, onde devolve a filha do sacerdote e oferece um sacrifício (hecatombe) a Apolo. Satisfeito, o deus encerra a peste. Os homens celebram e, em seguida, voltam para o acampamento grego.

O sacrifício de Odisseu é necessário para apaziguar Apolo e salvar os exércitos aqueus. O banquete proporciona uma visão da vida cotidiana e das rotinas utilizadas para os sacrifícios.

O Pedido a Zeus
Doze dias depois, Zeus volta para o Olimpo. Tétis o encontrará e se prosta diante dele, tocando seus joelhos e seu queixo (a posição clássica de súplica), implorando que honre seu filho, concedendo a vitória aos troianos enquanto Aquiles permanece afastado da luta. Zeus se enfurece e afirma que se ajudar os troianos, terá que lutar contra sua esposa Hera, que apoia os aqueus. Entretanto, assente e inclina a cabeça, como que prometendo. Tétis se afasta e Zeus se une aos demais deuses na reunião.

A promessa de Zeus é descrita como algo poderoso e irrevogável: a honra de Aquiles será preservada. Contudo, Zeus também indica que Hera lutará contra sua promessa, um sinal tanto da natureza incerta do destino quanto das paixões humanas dos deuses.

A DR Conjugal
Embora Zeus tenha tentado fazer sua promessa a Tétis de forma discreta, Hera ouviu tudo. Ela ridiculariza Zeus por sua tentativa de elaborar planos secretos e afirma que o viu fazendo a promessa a Tétis. Zeus a admoesta, afirmando que ela não deve se meter em seus projetos e que não há nada que possa fazer para impedi-lo de agir conforme sua vontade. Hera permanece em silêncio diante de suas palavras ríspidas.

Pela primeira vez, os deuses são vistos juntos e parecem uma família onde marido e esposa discutem. Embora Hera consiga provocar ou atrapalhar Zeus, fica claro que o deus é muito mais forte do que ela e que sua promessa será cumprida.

O Fim em Festa
Hefesto se ergue perante todos os deuses, buscando pacificar a briga entre seus pais, Zeus e Hera. Comenta com Hera que Zeus possui uma força imensa e faz um discurso engraçado sobre como ele mesmo caiu do Olimpo. Na última ocasião em que tentou proteger Hera, Zeus o lançou do Olimpo; ferido de forma grave, recebeu cuidados dos mortais até conseguir se recuperar. Os deuses gargalham e celebram. Quando a noite chega, Zeus adormece ao lado de sua esposa Hera.

O deus Hefesto desarma a situação tensa entre Zeus Hera servindo bebidas (néctar) de forma desajeitada. Os deuses riem, banqueteiam-se e vão dormir tranquilamente. Para eles, a Guerra de Troia é um esporte, um espetáculo sem risco real de vida ou morte. Para os humanos, é sangue, suor e tragédia irrevogável. A frivolidade do banquete divino torna o sofrimento humano na Terra ainda mais doloroso e poético.

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