RESUMO
A Angústia de Agamêmnon e Menelau
O capítulo começa no acampamento grego. Enquanto a maioria dos guerreiros dorme, o rei Agamêmnon sofre de uma insônia profunda, atormentado pelo brilho das fogueiras troianas e pela ameaça iminente à sua frota. Ele chora e arranca os cabelos. Seu irmão, Menelau, também está acordado, temendo pelos gregos que atravessaram o mar por sua causa. Os dois se encontram na escuridão e decidem que precisam de um plano imediato. Agamemnon diz a Menelau para reunir os melhores capitães aqueus enquanto ele conversa com Nestor.
ANÁLISE
O Canto X ocorre na mesma noite do Canto IX (quando a embaixada a Aquiles falha) e é conhecida como Doloneia (por causa da personagem Dólon, que se verá adiante). Os troianos, liderados por Heitor, acamparam na planície, perigosamente perto dos navios aqueus (gregos), após terem vencido a batalha do dia anterior. O início do canto oferece um raro vislumbre da vulnerabilidade da liderança. Agamêmnon, o comandante supremo, está em colapso. Chora, arranca os cabelos pelas raízes e geme. Ao contrário da fúria altiva de Aquiles, o desespero de Agamêmnon nasce do peso da responsabilidade e da percepção de sua própria incompetência tática. A crise exige um deslocamento de poder: não é o rei que elabora o plano, mas Nestor (a sabedoria da experiência), e quem o executa são Odisseu (o intelecto tático) e Diomedes (a força bruta inabalável).
O Conselho Noturno
Agamemnon e Menelau se separam para acordar os principais líderes aqueus em suas tendas. Eles reúnem Nestor (o velho e sábio conselheiro), Odisseu, Diomedes, Ájax e Idomeneu. A reunião acontece no escuro, perto da vala que protege o acampamento grego, um cenário que ressalta o clima de tensão e medo. Nestor propõe uma missão arriscada: alguém deve se infiltrar sorrateiramente no acampamento troiano para descobrir os planos de Heitor — se eles pretendem atacar os navios ao amanhecer ou recuar para a cidade de Troia. O jovem e destemido Diomedes voluntaria-se imediatamente para a missão, mas pede um companheiro para dar-lhe apoio tático e moral. Vários heróis se oferecem, mas Diomedes escolhe Odisseu, famoso por sua astúcia, inteligência e pelo favor que tem da deusa Atena.
A proposta do ataque durante a noite expõe uma nova dimensão do conflito. O conflito entre os dois lados não se limita a homens se enfrentando até a morte em armaduras completas. É preciso muita estratégia para vencer os troianos. Ao oferecer-se como voluntário, Diomedes reforça sua posição como um dos grandes heróis aqueus.
A Preparação dos Heróis
Diomedes e Odisseu começam a se armar com equipamentos emprestados por outros guerreiros (já que saíram de suas tendas desarmados): Diomedes recebe uma espada de dois gumes e um escudo; Odisseu recebe um arco, uma aljava, uma espada e, mais notavelmente, um capacete de couro forrado com dentes de javali (um artefato famoso que Homero descreve detalhadamente, com um longo histórico de antigos donos). Antes de partirem para a escuridão, Atena envia um bom presságio: o grito de uma garça à direita deles. Odisseu e Diomedes rezam à deusa pedindo proteção e sucesso na missão.
Um dos detalhes mais fascinantes da Doloneia é a descrição minuciosa do capacete que Meríones empresta a Odisseu: feito de couro e revestido com fileiras de dentes brancos de javali. Isso é um fóssil literário. Arqueólogos descobriram que esse tipo exato de capacete era usado na Grécia Micênica (1600–1100 a.C.), centenas de anos antes da época em que Homero (ou os poetas da tradição oral) viveu. Esse objeto não existia mais na Idade das Trevas grega. A descrição detalhada no Canto X é uma prova da capacidade da tradição oral de preservar memórias materiais exatas ao longo de séculos, conferindo um tom de antiguidade e peso histórico à missão de Odisseu.
O Espião Troiano Dólon
Enquanto isso, no acampamento troiano, Heitor também está acordado e convoca seu próprio conselho. Ele quer saber se os gregos, desmoralizados, estão planejando fugir de navio durante a noite. Heitor oferece uma recompensa colossal a quem tiver a coragem de espionar os navios gregos: a carruagem e os esplêndidos cavalos de Aquiles (embora os troianos ainda não os tivessem capturado, Heitor confiava na vitória). Um homem chamado Dólon, filho do arauto Eumedes, apresenta-se. Dólon é descrito como feio, mas muito rápido na corrida. Ele é ganancioso e exige que Heitor jure solenemente que lhe dará os cavalos de Aquiles. Após o juramento de Heitor, Dólon veste uma pele de lobo e um gorro de pele de doninha, pega seu arco e lança, e parte em direção aos navios gregos.
A decisão de Heitor de enviar um batedor cria um paralelo com a missão aqueia, mas com diferenças cruciais. Dólon é o anti-herói. É descrito como feio, mas veloz — uma combinação que, na estética grega antiga, frequentemente denota falha de caráter. Sua exigência pelos cavalos de Aquiles (seres divinos e imortais) é o cúmulo da hybris (arrogância desmedida). Pede uma recompensa muito acima de seu valor social e marcial, e a narrativa o pune de forma patética.
O Encontro com Dólon
Os dois espiões gregos (Odisseu e Diomedes) estão caminhando por um campo coberto de cadáveres e sangue quando Odisseu escuta os passos de Dólon se aproximando.
A Emboscada
Odisseu e Diomedes saem do caminho e se deitam entre os mortos, deixando Dólon passar por eles em direção aos navios.
A Perseguição
Assim que Dólon os ultrapassa, eles saltam e começam a persegui-lo. Diomedes atira sua lança de propósito para errar, apenas para assustar Dólon, fazendo a arma fincar no chão bem na frente dele.
O Terror de Dólon
Dólon entra em pânico, seus dentes batem de pavor e se rende. Chorando, implora por sua vida, prometendo que seu pai pagará um resgate imenso em bronze, ouro e ferro se souber que ele está vivo.
O Interrogatório
Odisseu, com frieza calculista, diz a Dólon para não temer a morte, acalmando-o apenas para arrancar informações. Interroga o troiano: Por que você está sozinho no escuro? Onde está Heitor? Onde estão as sentinelas? Quais são os planos dos troianos? Dólon, na esperança de ser poupado, trai seu próprio exército. Ele revela que Heitor prometeu os cavalos de Aquiles, a localização exata de Heitor, a disposição de todo o acampamento troiano, detalhando quais nações estão acampadas e onde. E a Informação crucial: menciona que os Trácios, aliados recém-chegados, estão acampados na extremidade do exército. O rei deles, Reso, tem os cavalos mais brancos, velozes e magníficos já vistos, além de uma armadura de ouro cintilante.
Dólon é percebido com muita facilidade diante de Diomedes e Odisseu, e sua covardia não lhe traz nada. A astúcia dos heróis aqueus permite que identifiquem uma posição troiana onde esperam encontrar oportunidades favoráveis. Dólon não tem a bravura dos guerreiros, por isso, diante do medo e da estratégia inimiga, acaba por trair seus companheiros.
A Execução Brutal
Após Dólon revelar tudo, espera ser levado como prisioneiro. No entanto, Diomedes diz a ele com total crueza que não pode deixá-lo vivo, pois voltaria para espionar ou lutar contra eles. Enquanto Dólon levanta a mão para tocar o queixo de Diomedes em um gesto tradicional de súplica, este desce sua espada no pescoço do espião com tanta força que a cabeça de Dólon cai na poeira enquanto ainda tentava falar. Odisseu dedica os espólios sangrentos de Dólon (a pele de lobo, o arco) à deusa Atena, escondendo-os em um arbusto de tamarisco para pegá-los na volta.
Aqui ocorre a falsa promessa de clemência: quando Dólon implora por sua vida, Odisseu diz: “Tranquiliza-te; não deixes a morte preocupar teu coração”. Ele não promete poupar Dólon, mas manipula o terror do espião para obter informações. Uma vez que Dólon se torna inútil, é decapitado friamente no meio de uma súplica — uma quebra brutal do código sagrado de proteção ao suplicante (hiketeia).
O Massacre de Reso
Armados com a informação de Dólon, Odisseu e Diomedes invadem silenciosamente o acampamento dos recém-chegados trácios, que estavam dormindo exaustos sem terem montado guarda. Diomedes entra na tenda como um leão atacando um rebanho. Ele mata o Rei Reso e doze de seus guerreiros enquanto dormiam. É uma matança furtiva e implacável. Enquanto Diomedes mata, Odisseu o segue arrastando os cadáveres para fora do caminho. Odisseu faz isso para que os famosos cavalos brancos não se assustassem ao pisar em corpos mortos quando fossem roubados. Odisseu amarra os cavalos de Reso e assobia para Diomedes, sinalizando que é hora de recuar. Diomedes ainda cogita arrastar a carruagem de ouro ou matar mais homens, mas Atena aparece para ele e o adverte a voltar para os navios imediatamente, antes que os deuses protetores dos troianos acordem o acampamento.
A coragem de Diomedes e Odisseu permite que ambos reduzam o número de inimigos e obtenham um valioso saque na forma de cavalos. No entanto, o massacre dos trácios não tem glória nos moldes homéricos. É uma execução em massa de homens indefesos. A guerra aqui deixa de ser um esporte nobre e revela sua face de carnificina pura.
A Intervenção de Apolo
O deus Apolo percebe a intervenção de Atena e acorda Hipocoonte, primo de Reso. Hipocoonte levanta e encontra o acampamento banhado em sangue e os cavalos roubados, soltando um grito de lamento que acorda os troianos. Eles se aglomeram em choque ao ver o massacre, mas os gregos já haviam fugido.
Assim como Atena se inclina a ajudar os aqueus, Apolo intervém em favor dos troianos e seus aliados.
O Retorno Triunfal
Diomedes e Odisseu galopam nos cavalos brancos de Reso de volta pelo caminho que vieram. Param no arbusto de tamarisco apenas para recolher a pele de lobo e as armas de Dólon. Ao chegarem ao acampamento grego, são recebidos com grande alívio e alegria por Nestor e os outros líderes. Relatam o sucesso da missão, exibem os magníficos cavalos e os espólios de Dólon. Para celebrar e se purificarem do sangue derramado, Odisseu e Diomedes: lavam o suor e o sangue de seus corpos entrando nas águas do mar, tomam banhos quentes preparados em banheiras de madeira polida, ungem-se com azeite de oliva fresco, e sentam-se para comer, derramando vinho doce em homenagem à deusa Atena, agradecendo por sua proteção.
Desde a antiguidade, estudiosos (começando com os comentadores de Alexandria) debatem se o Canto X foi originalmente escrito por “Homero”. O vocabulário apresenta dezenas de palavras que não aparecem em nenhum outro lugar da Ilíada. Além disso, o Canto X funciona em um vácuo. Os cavalos roubados de Reso nunca mais são mencionados ou usados em batalhas subsequentes. As informações que Dólon dá não alteram a estratégia grega no dia seguinte. Se você pular do Canto IX direto para o XI, a continuidade da história é perfeita. A maioria dos helenistas modernos concorda que a Doloneia foi uma composição posterior, inserida no épico para aproveitar o “intervalo noturno” e dar a Odisseu e Diomedes um momento de triunfo brilhante antes das derrotas desastrosas que os gregos sofrerão no dia seguinte (Canto XI).

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