Ilíada

Homero

Canto V

Resumo & Análise

RESUMO

A Chama de Atena
O canto começa com a deusa Atena infundindo coragem e força extraordinárias no coração de Diomedes, filho de Tideu e rei de Argos. Para garantir que alcance glória imortal, ela faz com que um fogo místico brilhe de seu capacete e de seu escudo (semelhante à estrela de outono). Diomedes lança-se na batalha de forma implacável. No entanto, a verdadeira dádiva de Atena não é apenas a força física, mas a visão transcendental. Ela remove a “névoa” dos olhos de Diomedes, permitindo que este distinga claramente os deuses dos homens no campo de batalha. A deusa impõe uma única e estrita condição: o herói não deve lutar contra nenhum deus imortal, com exceção de Afrodite, caso ela ouse entrar na guerra. Atena auxilia ainda mais Diomedes, atraindo Ares para longe do campo de batalha. Vários capitães aqueus, incluindo Agamemnon, Idomeneu e Menelau, matam seus adversários troianos.

ANÁLISE

O Canto V da Ilíada de Homero é um dos capítulos mais grandiosos, violentos e teologicamente complexos de toda a epopeia. É universalmente conhecido como a Aristéia de Diomedes — termo grego que designa o momento de excelência, bravura suprema e glória ininterrupta de um guerreiro no campo de batalha. Naturalmente, uma deusa, Atena, o auxilia a alcançar essa glória. Além disso, A aristéia de Diomedes serve a um propósito narrativo crucial: preencher o vácuo deixado por Aquiles. Com Aquiles recusando-se a lutar, os gregos precisavam de um campeão, e Diomedes assume esse papel, mas com uma diferença psicológica fascinante: diferente de Aquiles (movido pela ira cega) e de Agamêmnon (movido pela arrogância), Diomedes representa o ideal militar. É disciplinado, piedoso e absolutamente focado no bem coletivo de seu exército. O fogo que Atena acende em seu capacete simboliza a iluminação e o favor divino (charis). O fogo purifica e consome; Diomedes torna-se, temporariamente, uma força da natureza, transcendendo a mortalidade comum, mas sem perder sua essência humana.

O Ferimento
Diomedes continua seu ataque contra os troianos, agindo como uma força da natureza. O massacre promovido por Diomedes aterroriza as fileiras troianas. Vendo isso, Pândaro — o célebre arqueiro troiano que, no Canto IV, havia quebrado a trégua ao atirar em Menelau — dispara uma flecha que atinge o ombro direito de Diomedes, perfurando sua armadura.
A Fúria do Leão
Pândaro comemora prematuramente, acreditando ter matado o maior campeão grego. Diomedes, no entanto, pede a seu escudeiro Estênelo que puxe a flecha. Banhado em sangue, faz uma prece fervorosa a Atena. A deusa atende prontamente: ela o cura instantaneamente, retira o peso de seus membros e preenche seu peito com a fúria implacável que outrora pertenceu a seu pai, Tideu. Diomedes retorna à batalha, descrito como um leão atacando um rebanho de ovelhas. Ele mata vários troianos, incluindo dois filhos de Príamo.

Homero utiliza descrições da natureza para descrever a força de Diomedes como profundamente poderosa e quase elemental. Da mesma forma, o fato de Diomedes estar ferido, mas continuar lutando, serve para reforçar sua glória no campo de batalha. Os poderes que Atena concede ao herói também preparam o terreno para um possível encontro posterior com um deus em combate. Homero usa aqui uma de suas metáforas mais viscerais: Diomedes retorna ao combate como um leão que, após ser levemente ferido por um pastor, não se intimida, mas entra em um frenesi assassino, trucidando o rebanho inteiro. Para os antigos gregos, os leões não seriam uma metáfora exótica, pois ainda existiam na Grécia e na Anatólia. Homero usa a metáfora para descrever Diomedes como uma força avassaladora.

Eneias Entra em Cena
Vendo a fúria de Diomedes, o herói troiano Eneias procura o arqueiro Pândaro, que lhe conta que já havia abatido Diomedes e que este devia ter um deus ao seu lado. Eneias convence Pândaro para que suba em sua carruagem, e os dois partem em perseguição a Diomedes.

Eneias, filho de Afrodite e do mortal Anquises, e Pândaro tornam-se o contraponto à fúria de Diomedes, tentando detê-lo.

O Fim do Quebrador de Juramentos
O co-capitão de Diomedes, Estênelo, percebe a aproximação de Eneias e Pândaro e aconselha Diomedes a recuar, mas o herói rejeita o conselho, dizendo que Atena determinará o vencedor. Pândaro ataca primeiro, arremessando sua lança, que atravessa o escudo de Diomedes, mas não atinge sua carne. Em resposta, Diomedes arremessa sua lança, guiada por Atena e mata Pândaro.
A Queda de Enéias
Com Pândaro morto, Enéias salta do carro para proteger o cadáver do amigo. Diomedes, demonstrando uma força sobre-humana, levanta uma pedra gigantesca — tão pesada que “dois homens de hoje não conseguiriam carregar” — e a arremessa contra Enéias, esmagando a articulação do seu quadril e rasgando seus tendões. Enéias desmaia e está prestes a ser morto, mas sua mãe divina, Afrodite, desce ao campo para envolvê-lo em seu manto brilhante e resgatá-lo.

O conselho de Estênelo permite ao leitor compreender o que um soldado normal faria, mas Diomedes é fortalecido pelos deuses. O golpe em Pândaro é brutal e carrega um forte peso de justiça poética: a lança atinge o nariz de Pândaro, quebra seus dentes e corta a raiz de sua língua, saindo pelo queixo. Pândaro morre instantaneamente. O fato de a arma cortar sua língua é simbólico, punindo o homem cujas palavras e ações falsas quebraram a trégua sagrada. Já pedra que Diomedes levanta é outro exemplo de um feito quase sobre-humano, já que o herói se torna, temporariamente, quase mais do que um homem. Eneias, um personagem com uma mãe imortal, é o alvo de Diomedes, aumentando a sensação de glória.

O Ferimento de Afrodite
Afrodite tenta afastar Eneias da luta, mas Diomedes consegue vê-la. Lembrando-se da permissão de Atena, o herói persegue a deusa através da batalha. Com um golpe de lança, rasga a pele imortal do pulso de Afrodite. Dela escorre não sangue humano, mas ícor, o fluido celestial dos deuses, pois não comem pão nem bebem vinho. Gritando de dor, Afrodite deixa Enéias cair (sendo salvo por Apolo). E então foge com a ajuda do deus Ares, tomando seu carro de guerra rumo ao Olimpo. Lá, cai no colo de sua mãe, Dione, que a consola citando outros deuses que já sofreram nas mãos de mortais. Atena e Hera, porém, zombam cruelmente de Afrodite perante Zeus, que sorri e adverte a deusa do amor: a guerra não é o domínio dela; e que deve se ater aos assuntos do casamento.

O ataque de Diomedes a Afrodite, uma deusa, enfatiza sua estatura heróica na batalha. Homero apresenta a história de Dione como um contraponto à fúria de Diomedes, indicando que ainda deve haver deferência aos deuses, que são muito mais fortes do que os homens mortais, e que mesmo os homens mortais, com um deus a protegê-los, estão fadados a cair de sua glória. A humilhação de Afrodite no campo de batalha não é apenas porque ela é fraca em combate, mas porque ela violou a ordem natural das coisas. Na visão de mundo homérica, cada deus tem sua esfera de influência designada pela Moira (o Destino ou a Ordem Cósmica). Quando Zeus sorri e diz a Afrodite para cuidar dos “trabalhos doces do casamento”, não é apenas uma repreensão paternal; é a afirmação de que o universo só funciona quando cada força opera dentro de seu próprio domínio. O amor (Afrodite) tentando agir na guerra (Ares/Atena) gera distorção e resulta em seu rápido castigo.

O Limite da Húbris
No campo de batalha, Apolo envolve o ferido Enéias em uma nuvem escura. Embriagado pela vitória, Diomedes tenta o impensável: ataca o próprio Apolo três vezes, mas o deus o repele em todas elas. Na quarta investida, Apolo solta um grito aterrorizante que gela o sangue do herói grego: “Pensa, filho de Tideu, e recua! Não tentes igualar teu espírito aos deuses, pois a raça dos deuses imortais nunca será igual à dos homens que caminham sobre a terra.” Reconhecendo o limite de sua condição mortal e evitando o pecado da húbris (orgulho desmedido), Diomedes recua. Apolo leva Enéias para seu templo em Pérgamo, onde Leto e Ártemis o curam milagrosamente. Para manter a moral dos troianos, Apolo cria um “fantasma” de Enéias que continua a lutar no campo.

A húbris é o orgulho desmedido, o ato de um mortal tentar igualar-se aos deuses, o que inevitavelmente atrai a ira divina (Nêmesis). Diomedes consegue ferir Afrodite, mas sua recém-adquirida glória tem seus limites. Apolo é muito mais forte do que ele. O momento em que Apolo grita e exige que Diomedes reconheça seu lugar como “aquele que caminha sobre a terra” é central. Diomedes recua. Ele demonstra sophrosyne (moderação, autocontrole). É essa obediência e consciência de seus limites cósmicos que permite que ele sobreviva à sua própria aristéia, algo que muitos heróis trágicos gregos não conseguem fazer. Já o resgate de Eneias ajuda a enfatizar o status verdadeiramente incomum dos homens que têm pais imortais. Os deuses curarão os ferimentos de Eneias e o enviarão de volta à batalha.

A Entrada do Deus da Guerra
Aqueus e troianos cercam o corpo falso, lutando pela armadura de Eneias. Apolo instiga Ares, o deus da guerra, a entrar no conflito para deter Diomedes. Ares assume a forma de um mortal (Acamas) e encoraja os filhos de Príamo. Quando Diomedes vê Ares (pois ainda tinha a visão mística), ele estremece. Seguindo estritamente as ordens de Atena de não lutar contra outros deuses, ele ordena que os gregos recuem lentamente. Ares traz consigo Enyo (a deusa da destruição), e juntamente com Heitor e os troianos, começa a massacrar os gregos.

A criação do espectro de Eneias por Apolo indica, mais uma vez, o caráter simbólico dos deuses. De um lado, o fantasma sugere que Eneias continua de fato presente, e que sua retirada da luta por Apolo é, na realidade, a metáfora. No entanto, os deuses aparecem de forma bastante concreta na história e interagem de maneiras que transcendem o metafórico.

A Luta de Sarpédon
O aliado troiano Sarpédon provoca Heitor, e este leva seus homens à batalha com renovada força. Eneias reaparece no campo de batalha, e os troianos, encorajados por vê-lo ileso, avançam. Os aqueus resistem ao ataque troiano, liderado por Diomedes, Odisseu e os eantes (plural de Ajax). Os dois lados trocam mortes: Agamemnon mata um companheiro de Eneias, e Eneias mata dois capitães aqueus. Em seguida, Antíloco, filho de Nestor, e Menelau repelem Eneias. A batalha se intensifica. Tlepólemo, filho de Hércules, troca insultos com Sarpédon. Sarpédon mata Tlepólemo, mas também fica ferido na luta. Odisseu, ao presenciar a morte de Tlepolemo, mata vários homens de Sarpédon em represália. Sarpédon era filho de Zeus e não estava destinado a ser morto por Odisseu. Heitor avança, passando por Sarpédon ferido, com a intenção de repelir os aqueus de volta aos seus navios, e os aqueus recuam lentamente.

A natureza intercalada dos combates mantém a tensão da batalha em alta, pois sempre parece que o resultado pode mudar a qualquer instante. O fato de Tlepólemo ser descendente de Hércules aumenta a tristeza de sua morte, pois os filhos dos soldados são, em certa medida, as lembranças de seus próprios pais. Os assassinatos de Odisseu são parte da sua glória. Homero deixa bem claro que não era a hora de Sarpédon morrer, mostrando o quanto Zeus controlava os detalhes da luta.

A Luta contra Ares
Ao ver a matança dos gregos, Hera e Atena não suportam a quebra da promessa de Ares (que havia dito que não se envolveria daquela maneira). Hera pede permissão a Zeus para “dar uma lição” em Ares, e Zeus concorda. As deusas preparam seu esplêndido carro celestial e descem à planície de Troia. Enquanto Hera grita com voz de trovão para reagrupar as tropas de Agamêmnon, Atena vai direto a Diomedes. Ela o encontra exausto, resfriando o ferimento causado por Pândaro. Atena o repreende levemente, dizendo que seu pai Tideu seria mais corajoso, mas Diomedes responde que não está fugindo, apenas obedecendo à ordem dela de não atacar Ares. Atena revoga a regra anterior. Ela diz a Diomedes para não temer Ares nem deus nenhum, pois ela estará a seu lado. Atena entra na carruagem de Diomedes e os dois atacam Ares. Ares ataca Diomedes com sua lança, mas Atena, invisível (usando o elmo de Hades), desvia a arma do deus. Então, Diomedes golpeia com sua lança. Atena guia a ponta de bronze diretamente para o abdômen baixo de Ares, rompendo sua carne imortal. O Deus da Guerra solta um grito colossal — tão alto quanto o brado de nove ou dez mil homens em batalha feroz. Tanto gregos quanto troianos estremecem de pavor. Envolto em nuvens escuras, Ares foge imediatamente para o Olimpo.

Os deuses estão sempre intervindo na guerra e, de certa forma, os rumos do conflito são indicados por essas intervenções. Normalmente, a chegada de um deus indica que a sorte virou no campo de batalha, que os soldados estão se sentindo revigorados. Com o auxílio de Atena, a aristeia de Diomedes atinge seu ponto máximo quando o herói ataca o próprio deus da guerra com sua lança. Mas o clímax do capítulo é o embate indireto e direto entre Atena e Ares. Em uma das cenas mais impressionantes da Ilíada, Atena puxa Estênelo do carro de Diomedes e assume as rédeas ao lado do herói mortal. Homero descreve um detalhe fabuloso: o eixo de carvalho do carro range alto sob o peso simultâneo do maior dos heróis e de uma deusa formidável.

Epílogo: A Repreensão no Olimpo
Ares senta-se ao lado de Zeus, mostrando o sangue imortal (ícor) e choramingando sobre a crueldade de Atena e a audácia de Diomedes. Zeus, porém, não tem paciência para as reclamações de Ares. Ele o silencia duramente, declarando que Ares é o deus que ele mais odeia, pois ama apenas a discórdia, a guerra e o sangue. Zeus afirma que, se Ares não fosse seu filho, há muito tempo já teria sido atirado no Tártaro (mais fundo que os Titãs). Mesmo assim, por laços de sangue, Zeus ordena que o curandeiro dos deuses, Peão, trate a ferida do Deus da Guerra. Com Ares fora do campo de batalha, Hera e Atena retornam triunfantes ao Olimpo. Os deuses se afastam, e a guerra mortal continua a consumir a planície de Troia, inaugurando o Canto VI.

Apesar de a Ilíada ser toda sobre uma guerra, Ares desempenha um papel secundário entre os deuses do poema. Em parte, está menos envolvido no resultado, ao contrário de Afrodite ou Hera, mas Zeus também indica que sua consideração por Ares é desfavorável. Isso pode ser um indício de que nenhum dos lados luta na guerra por amor à guerra, mas sim por outras razões mais importantes — honra e glória. Ainda, pode-se perceber que quando Afrodite e Ares são feridos, o tom de Homero beira a sátira. Sangram ícor e fogem choramingando para o Olimpo como crianças ofendidas. Pelo motivo de que os deuses não podem morrer, o seu sofrimento não tem peso moral. A dor divina é retratada como patética, destacando que a imortalidade esvazia a coragem de seu verdadeiro significado.

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