RESUMO
O Desespero dos Aqueus
O Canto começa com os aqueus em estado de pânico. Após sofrerem duras perdas para os troianos liderados por Heitor (que agora acampam perigosamente perto dos navios gregos), o moral está destruído.
O Choro de Agamemnon
O comandante supremo, Agamemnon, convoca uma assembleia em segredo. Em prantos (Homero compara suas lágrimas a uma fonte de águas escuras), admite a derrota, declara que Zeus o enganou e propõe que os gregos fujam de volta para casa em seus navios.
A fúria de Diomedes
O jovem e valente Diomedes se levanta e repreende o rei duramente. Ele afirma que Agamemnon pode ter recebido o cetro do poder, mas não recebeu a coragem. Diomedes declara que, mesmo que todos fujam, ele e seu escudeiro Estênelo ficarão para lutar até que Troia caia. O exército aplaude efusivamente.
ANÁLISE
Agamemnon reduz um pouco sua própria honra ao sugerir que os aqueus desistam da guerra. A recusa de Diomedes em ir embora é recebida com muito mais animação por suas tropas. De maneia similar, Agamemnon utiliza a vontade dos deuses como justificativa para seus insucessos. Entretanto, ele desconhece a verdadeira natureza e magnitude do plano de Zeus.
A sabedoria de Nestor
O ancião Nestor intervém para acalmar os ânimos. Ele sugere que guardas sejam posicionados na muralha e que Agamemnon ofereça um banquete aos líderes para deliberarem com calma. Durante o banquete, Nestor vai direto ao ponto: a culpa da atual desgraça grega é de Agamemnon, que ofendeu o maior de seus guerreiros, Aquiles, ao roubar-lhe a escrava Briseida (no Canto I). Nestor aconselha o rei a aplacar a ira de Aquiles com presentes e palavras gentis.
A Oferta de Agamemnon
Agamemnon reconhece seu erro (“fui cego”) e oferece uma indenização colossal para que Aquiles volte à batalha. A oferta inclui: Sete trípodes intactas, vinte caldeirões reluzentes e dez talentos de ouro; Doze cavalos de corrida premiados; Sete belas mulheres de Lesbos, habilidosas em trabalhos manuais; A devolução de Briseida, com o juramento solene de que Agamemnon nunca se deitou com ela; No futuro (se vencerem): Muito ouro e bronze de Troia, vinte mulheres troianas (as mais belas depois de Helena) e a mão de uma das filhas de Agamemnon em casamento, acompanhada de um dote de sete cidades ricas. Apesar da oferta grandiosa, Agamemnon conclui dizendo que Aquiles deve se submeter a ele, pois ele (Agamemnon) é o rei mais poderoso e mais velho.
Agamemnon oferece uma montanha de riquezas para compensar Aquiles, mas comete um erro fatal de diplomacia e psicologia. Se analisarmos a oferta de Agamemnon, é uma tentativa de comprar a submissão de Aquiles, não um pedido de perdão. A prova disso está na frase final de Agamemnon (que Odisseu sabiamente oculta, mas Aquiles intui): “Que ele se submeta a mim, porque sou o rei mais majestoso e sou mais velho.” Agamemnon quer reintegrar Aquiles ao exército reafirmando a sua própria superioridade hierárquica. Tenta transformar uma reparação moral em uma transação comercial. Aquiles recusa porque entende que aceitar os presentes sob essas condições não restauraria sua honra, mas o rebaixaria à condição de um mercenário comprado pelo rei que o insultou.
A Embaixada
Nestor seleciona os embaixadores ideais para a missão: Odisseu (o mais astuto e eloquente), Fênix (o velho tutor e figura paterna de Aquiles) e Ájax (o guerreiro mais formidável depois do próprio Aquiles), acompanhados por dois arautos.
O Encontro com Aquiles
A embaixada chega ao acampamento dos mirmidões (a tropa de Aquiles) e encontra o herói tocando lira e cantando os feitos gloriosos dos heróis do passado, acompanhado apenas por seu fiel amigo Pátroclo. Aquiles os recebe com imensa hospitalidade. Ele suspende a música, levanta-se, os chama de “seus amigos mais queridos” e ordena a Pátroclo que prepare vinho forte e asse carnes para um banquete. Somente após comerem e beberem, as negociações começam.
Aquiles é retratado como um bom anfitrião. Ele questiona a razão fundamental de se lutar na guerra, rejeitando, ainda que temporariamente, a ideia de que os soldados podem alcançar maior honra em combate. Da perspectiva de Aquiles, toda morte é igual, portanto, não importa como ela ocorra. Homero utiliza os três embaixadores para representar três formas clássicas de persuasão (Logos, Pathos e Ethos/Philia). A reação de Aquiles a cada um revela as camadas do seu intelecto e emoção.
O Discurso de Odisseu
Odisseu fala primeiro e descreve o perigo iminente que os navios correm com a fúria de Heitor. Enumera, um por um, todos os magníficos presentes oferecidos por Agamemnon. Odisseu apela à piedade de Aquiles pelos gregos que estão morrendo e à chance de glória, pois Heitor estaria vulnerável. Por fim, lembra o conselho que Peleu, pai de Aquiles, lhe deu ao partir para Troia: “controla o teu orgulho”. A Resposta de Aquiles é a rejeição brutal e absoluta. Diz que odeia como os portões do Hades o homem que diz uma coisa e esconde outra no coração (uma alfinetada em Odisseu e Agamemnon). Então expõe sua crise heróica: lutou ferozmente, arriscou a vida, e o que ganhou? A mesma recompensa do covarde que ficou na tenda. Assim, recusa todos os presentes, dizendo que Agamemnon não pode comprar sua honra.
Odisseu faz um discurso brilhante de político e diplomata. Tenta usar o medo (Heitor destruirá os navios), a ganância (lista os presentes detalhadamente) e a glória (matar Heitor). A falha é que Odisseu repete as palavras de Agamemnon, e Aquiles abomina a falsidade de ambos. Para Aquiles, Odisseu representa o “sistema” que o traiu. A recusa de Aquiles aqui é a mais radical: ameaça ir embora no dia seguinte.
A Profecia de Tétis
Aquiles, a seguir, revela seu duplo destino (profetizado por sua mãe, Tétis): ficar em Troia e morrer jovem, mas ter glória imortal (kleos); ou voltar para casa e perder a glória, mas ter uma vida longa e pacífica (nostos). Anuncia, então, que escolheu a vida. Diz que partirá com seus navios de volta para a Grécia na manhã seguinte. Convida seu velho amigo Fênix a permanecer com ele, caso deseje retornar à casa.
O momento mais profundo do Canto IX é a revelação da escolha que Aquiles precisa fazer. Sua mãe, a deusa Tétis, profetizou dois destinos excludentes: Ficar e morrer jovem, perder a vida, mas ganhar Kleos (glória eterna); ou partir e Viver até a velhice, ter Nostos (um retorno ao lar seguro), mas ser esquecido pela história. O ideal heróico grego exigiria que ele escolhesse a glória sem pestanejar. Mas a ofensa de Agamemnon desencantou Aquiles. Ele faz o que nenhum herói épico faz: ele valoriza a própria vida biológica acima da glória cantada. Ele diz: “De todas as riquezas de Troia, nada vale a minha vida. Pode-se roubar gado e ovelhas, mas a vida do homem não retorna depois que o fôlego passa pelos dentes.”
O Discurso de Fênix
Fênix, o velho mentor, chora, e faz um longo e comovente discurso lembrando como criou Aquiles desde criança, alimentando-o no colo, e o considera como um filho. Para convencê-lo a perdoar, Fênix usa duas histórias:
A Alegoria das Preces (Litai) e da Ruína (Ate)
As preces (filhas de Zeus) são mancas e enrugadas, mas curam. A Ruína é rápida e cega as mentes dos homens. Quem rejeita as Preces sofre a fúria da Ruína. Agamemnon cedeu à Ruína antes, mas agora envia Preces (os presentes). Aquiles não deve rejeitá-las.
O Mito de Meleagro
Conta a história de um herói que, ofendido, recusou-se a defender sua cidade. Quando a cidade estava em chamas, ele finalmente lutou a pedido de sua esposa, mas já era tarde para receber os presentes e a honra. Fênix avisa Aquiles para não cometer o mesmo erro.
A Resposta de Aquiles
A fúria de Aquiles diminui ligeiramente. Demonstra respeito pelo velho mentor, mas pede que Fênix não tome o partido de Agamemnon. Oferece que Fênix fique e durma em sua tenda naquela noite. Há uma mudança de postura: já não crava que partirá. Então diz a Fênix: “Amanhã de manhã, decidiremos juntos se partimos ou se ficamos.”
Fênix apela para a memória afetiva e a responsabilidade moral. É o discurso mais longo e complexo da Ilíada. A Alegoria das Preces (Litai) e da Ruína (Ate) é a chave moral do poema. Fênix explica que o Erro/Ruína (Ate) fere as pessoas, mas as Preces (Litai), filhas de Zeus, vêm mancando atrás para curar a ferida. Se um homem recusa as Preces de quem o ofendeu, Zeus envia a Ruína contra ele. Ao recusar ceder a Fênix, Aquiles comete a húbris (soberba). Até aquele momento, Aquiles era a vítima da arrogância de Agamemnon. A partir do Canto IX, ao recusar a compensação máxima ditada pelos costumes e ignorar os deuses, Aquiles se torna o arquiteto de sua própria desgraça.
O Discurso de Ájax
Ájax não é um grande orador; é um soldado prático. Frustrado, ele se vira para Odisseu e diz que eles deveriam ir embora, pois Aquiles endureceu o coração e se esqueceu da camaradagem (philia). Ájax argumenta que os homens aceitam o “preço de sangue” (indenização) até mesmo pelo assassinato de um irmão ou filho, mas Aquiles se recusa a ceder por causa de “apenas uma garota”.
A Resposta de Aquiles
Aquiles reconhece que Ájax falou verdades que ressoam em seu coração, mas diz que seu sangue ferve de raiva toda vez que lembra como Agamemnon o tratou como um vagabundo sem valor diante de todos. Então, faz uma concessão crucial. Não vai partir de manhã. No entanto, ele jura que não entrará na batalha até que Heitor chegue aos navios e tendas dos mirmidões e traga fogo a eles.
Ájax faz o discurso mais curto e contundente. Sendo um guerreiro prático, diz: “Esqueça Agamemnon. E os seus irmãos de armas que estão morrendo por sua causa?” O impacto é que é o único argumento que atinge Aquiles. Ele não liga mais para Agamemnon ou para os deuses, mas liga para seus companheiros. É por causa da repreensão de Ájax que Aquiles abandona a ideia de fugir para a Grécia, decidindo ficar nos navios. Esta última concessão é o seu grande erro trágico. Ao ficar em Troia, mas recusar-se a lutar até o último segundo, cria a situação insustentável que forçará seu amigo Pátroclo a vestir sua armadura para salvar os gregos (no Canto XVI).
O Retorno dos Embaixadores
A embaixada termina. Odisseu e Ájax, seguidos pelos arautos, retornam à tenda de Agamemnon, onde os líderes gregos aguardam ansiosamente. Odisseu relata as más notícias: Aquiles recusou os presentes, sua raiva está intacta e ameaçou partir (Odisseu omite a concessão feita a Ájax, focando na recusa principal). Um silêncio fúnebre cai sobre o conselho grego. Mais uma vez, é Diomedes quem quebra o silêncio, afirmando que nunca deveriam ter implorado a Aquiles, pois as ofertas e as súplicas apenas o tornaram mais arrogante. Diomedes diz para deixarem Aquiles em paz — ele lutará quando o seu coração mandar ou um deus o impelir. Por agora, os gregos devem dormir, descansar e, ao amanhecer, o próprio Agamemnon deverá liderar as tropas na linha de frente para defender os navios.
O fracasso da embaixada reflete a posição de Aquiles como um herói individual dentro do exército aqueu. Diomedes sugere que Aquiles lutará simplesmente porque é da sua natureza como guerreiro e que ele não pode conter a raiva para sempre.

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