Análise Literária

Personificação

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Ironia


💡 A personificação, também chamada de prosopopeia, é uma figura de linguagem que atribui qualidades, emoções ou ações humanas a seres inanimados, animais ou ideias abstratas.

 

A PROSOPOPEIA ENUNCIATIVA: O “DEFUNTO AUTOR”, O LIVRO VIVO E O PRIMEIRO VERME

  • A Voz de Além-Túmulo como Prosopopeia Matriz: Em sua definição retórica primordial (presente em Quintiliano), a prosopopeia inclui o artifício de dar voz aos mortos ausentes (conformatio). A obra inteira alicerça-se nessa subversão ontológica ao instaurar a figura do “defunto autor” — não alguém que escreveu em vida e faleceu depois (“autor defunto”), mas um cadáver pensante para quem a campa funcionou como um “outro berço” e que narra a partir da eternidade após morrer de pneumonia em agosto de 1869, aos sessenta e quatro anos.
  • A Autonomia Estilística do Próprio Livro: O texto frequentemente personifica a própria materialidade da escrita e do volume que o leitor tem em mãos. Adotando a “forma livre” de Laurence Sterne e Xavier de Maistre, a narrativa declara possuir uma filosofia desigual — ora austera, ora brincalhona —, define-se como um livro que “cheira a sepulcro” (Capítulo 71) e gaba-se no Capítulo IX (Transição) de caminhar livremente “sem gravata nem suspensórios”, mimetizando na postura corporal da frase a própria volubilidade da elite ociosa imperial.
  • A Humanização Irônica do Verme Roedor: Logo na abertura, a dedicatória subverte a tradição áulica de consagrar obras a mecenas ou figuras ilustres ao personificar como destinatário e interlocutor de “saudosa lembrança” o primeiro verme que roeu as frias carnes do cadáver do narrador, nivelando a soberba humana ao ciclo bruto da putrefação orgânica.

 

PERSONIFICAÇÕES ALEGÓRICAS E CÓSMICAS: O DELÍRIO E O COMBATE MENTAL

  • Pandora (A Natureza) como Mãe e Inimiga: No Capítulo VII (O Delírio), a força cega e impessoal do cosmos é personificada na figura colossal de Pandora, que interpela o moribundo nos gelos eternos declarando-se simultaneamente sua “mãe e inimiga”. Desconstruindo a visão providencialista e romântica da criação, essa personificação alegórica encarna a indiferença brutal do universo e a voragem implacável da vida, que devora gerações sem qualquer finalidade moral.
  • O Hipopótamo Falante e Zombeteiro: No mesmo episódio delirante, o hipopótamo que resgata Brás Cubas e galopa para trás rumo à “origem dos séculos” recebe o dom humano da fala e da ironia. A montaria dialoga com o cavaleiro, questiona a desorientação do passageiro e zomba de seu desejo de parar na tenda de Abraão, simbolizando a regressão vertiginosa da consciência e a perda do controle racional diante da agonia da morte.
  • A Disputa Dramática entre a Razão e a Sandice: No Capítulo VIII (Razão contra Sandice), faculdades psíquicas abstratas são personificadas como duas mulheres em conflito doméstico dentro do cérebro do enfermo. Enquanto a Sandice (a loucura) implora por mais alguns minutos para desvendar os mistérios da vida e da morte, a Razão ri com escárnio, agarra a intrusa pelos pulsos e a expulsa de casa, ao que a loucura reage deitando a língua de fora antes de seguir caminho — alegoria que desnuda a fragilidade da lucidez humana.

 

A PERSONIFICAÇÃO DO TEMPO, DO ESQUECIMENTO (“OBLIVION”) E DA VELHICE

  • O Tempo como “Ministro da Morte” e o Sol de Ezequias: Ao longo do romance, o tempo deixa de ser uma medida cronológica neutra para atuar como um agente implacável, personificado como um “ministro da morte” que degrada a juventude, corrói a beleza e esvazia as paixões. É a ação desse tirano que devasta a cortesã Marcela com a varíola no fundo de uma loja e transforma Virgília, aos cinquenta e quatro anos, em uma “formosa ruína” diante da qual só restam “corações murchos”, contra o qual apenas a memória tenta operar o milagre fugaz de um Ezequias que faz o sol recuar.
  • O Estribeiro “Oblivion” e o Tédio de Saturno: Na maturidade desencantada do protagonista, o esquecimento e a obsolescência mundana são personificados na figura do estribeiro “Oblivion”. Esse personagem invisível apeia sem piedade da carruagem da glória as damas envelhecidas que outrora brilharam sob o ministério Paraná, encenando um espetáculo cuja única finalidade é divertir o aborrecimento do planeta Saturno, igualmente personificado como um espectador entediado.
  • A Velhice como “Editor” da “Errata Pensante”: Ao refutar a máxima de Blaise Pascal de que o homem seria um “caniço pensante”, a obra concebe o ser humano como uma “errata pensante”, personificando as estações da vida e a velhice como um editor que revisa e corrige sucessivamente as edições anteriores até entregar a versão definitiva gratuitamente aos vermes.

 

PERSONIFICAÇÕES PSICOLÓGICAS E FILOSÓFICAS: A “IDEIA FIXA” E HUMANITAS

  • A “Ideia Fixa” como Acrobata no Trapézio Cerebral: Nos capítulos iniciais, as monomanias e ambições humanas ganham vida própria por meio da personificação da “ideia fixa”, que salta repentinamente, agarra-se e balança em um trapézio instalado dentro do cérebro do narrador. Essa animação do pensamento retira do indivíduo o comando de sua própria mente, nivelando a obstinação política de estadistas como Cavour e Bismarck aos devaneios dos loucos.
  • O Contágio Letal da “Ideia Grandiosa e Útil”: Na velhice de Brás Cubas, essa ideia acrobata materializa-se na obsessão pelo “Emplasto Brás Cubas”, impulsionada pelo vaidoso “amor da glória” e pelo desejo de ver o nome estampado em caixinhas e jornais. A personificação da monomania como agente patogênico é tão intensa que a própria causa mortis do protagonista — antes mesmo da pneumonia provocada por um golpe de ar — é atribuída ao ataque fatal de uma “ideia grandiosa e útil”.
  • Os “Estalares de Dedos” de Humanitas: Na sátira ao positivismo e ao darwinismo social oitocentista conduzida através do filósofo Quincas Borba, o princípio abstrato do “Humanitismo” (Humanitas) é personificado como uma entidade soberana dotada de corpo, vontade e gestos humanos. Sob essa prosopopeia filosófica, a fome, a guerra, a disputa sanguinária de dois cães de rua por um osso sem carne (Capítulo 122) e o frango assado alimentado com milho plantado por um africano escravizado trazido de Angola são cinicamente justificados como meros “estalares de dedos” de Humanitas para sua própria conservação e recreio.

 

PERSONIFICAÇÕES SOCIAIS E O CONTRASTE DIALÉTICO COM A REIFICAÇÃO HUMANA

  • A “Opinião” como Tribunal Vigilante e as “Duas Colunas”: No retrato sociológico do Brasil Imperial, a opinião pública é personificada como uma entidade coercitiva, curiosa e implacável que governa a vida privada das elites pelo pavor do escândalo. Dividida desde o prólogo entre a “gente grave” e a “gente frívola” — as “duas colunas máximas da opinião” —, é essa força vigilante que assombra os encontros adúlteros de Brás e Virgília na casinha da Gamboa e obriga o marido traído, Lobo Neves, a engolir a delação de uma carta anônima e aceitar a presidência de uma província para escapar às línguas da Corte.
  • O “Esqueleto das Ciências” e o Segredo Animado: No plano das convenções burguesas, o saber universitário adquirido em Coimbra é configurado anatomicamente como o “esqueleto inútil das ciências”, acompanhado de uma fraseologia polida para “despesas de conversação”, ao passo que a indiscrição inevitável das aventuras amorosas ganha vida na imagem do cachorrinho adestrado da rainha de Navarra, cujo latido acaba sempre por trair os amantes.
  • O Quiasmo Ontológico: Personificação de Coisas vs. Coisificação de Pessoas: Sob a ótica da crítica literária e sociológica, o efeito mais contundente da personificação em Memórias Póstumas de Brás Cubas reside no seu contraste dialético com a reificação (coisificação) e a zoomorfização dos seres humanos numa sociedade escravocrata e mercantil. Enquanto ideias se exercitam em trapézios, hipopótamos filosofam e o Esquecimento atua como estribeiro, os seres humanos — sobretudo os oprimidos — são sistematicamente desumanizados e reduzidos a objetos ou bestas de carga:
    • Na infância senhorial, o “menino diabo” converte o menino negro escravizado Prudêncio em seu cavalo de montaria sob freios de cordel e varinhas, violência que Prudêncio, já alforriado, reproduzirá mais tarde na praça do Valongo ao chicotear outro cativo comprado como propriedade.
    • O cunhado Cotrim reduz seres humanos a mercadoria de contrabando e a corpos sangrando no calabouço, enquanto limpa sua reputação social por meio de doações a irmandades religiosas.
    • A miserável Dona Plácida tem toda a sua existência dolorosa reduzida à função instrumental de peça de mobília e cortina moral para acobertar o adultério na Gamboa.
    • Até mesmo no topo da pirâmide afetiva, os sentimentos são mercantilizados — como a paixão juvenil por Marcela, resumida contabilmente a “quinze meses e onze contos de réis”, ou a rejeição estética da jovem Eugênia (“a flor da moita”) por ser coxa de nascença —, e a própria amante Virgília é coisificada textualmente como o “travesseiro” que confortava o espírito do protagonista no auge do idílio e, no fim da vida, como uma imponente e “formosa ruína”.

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