Resumo & Análise
RESUMO
Capítulo 11: O Menino É Pai do Homem
O desenvolvimento da infância do protagonista no Rio de Janeiro transcorre sob o signo da impetuosidade constante e da total ausência de balizas ou freios morais. Ele cresce de forma instintiva e selvagem, como um elemento da natureza, sem que a família exerça qualquer intervenção disciplinar forte ou consistente sobre as suas condutas cotidianas. Na esfera doméstica, as suas atitudes perversas e pueris lhe rendem rapidamente a temida e certeira alcunha de “menino diabo”. O alvo principal das brincadeiras sadistas da infância é Prudêncio, um menino negro escravizado pertencente ao ambiente de sua casa. O protagonista costuma explorar o menino de modo impiedoso, submetendo o escravizado a seguidos castigos físicos unicamente pelo prazer sádico e pelo privilégio do poder irrestrito. O “menino diabo” força rotineiramente Prudêncio a atuar submisso como se fosse o seu cavalo de montaria, governando a criança através de cordéis, xingamentos e pancadas de varinhas. O convívio íntimo da casa o expõe de maneira natural à figura perniciosa do tio João, um sujeito picaresco, de língua bastante solta e vida galante e mundana. A partir de seus precoces onze anos de idade, o garoto é acolhido de perto pelo parente e passa a ser admitido como ouvinte habitual das histórias desse tio, cujas anedotas são sempre carregadas por tons imorais, impróprios e devassos.
ANÁLISE
O desenvolvimento da infância do protagonista no Rio de Janeiro transcorre sob o signo da impetuosidade constante e da total ausência de balizas ou freios morais. Ele cresce de forma instintiva e selvagem, como as magnólias e os gatos, sem que a família exerça qualquer intervenção disciplinar forte ou consistente sobre as suas condutas cotidianas. Na esfera doméstica, as suas atitudes perversas e pueris lhe rendem aos cinco anos de idade a temida e certeira alcunha de “menino diabo”. O garoto age de forma maligna, indiscreta e traquinas, quebrando a cabeça de uma escrava simplesmente porque ela lhe negara uma colher de doce de coco. Não satisfeito com o malefício físico, ele deita cinzas no tacho de doce e mente ativamente para a sua mãe, acusando a escrava de ter estragado a comida “por pirraça”. O alvo principal das brincadeiras sadistas da infância é Prudêncio, um menino negro escravizado pertencente ao ambiente de sua casa. O protagonista explora o menino de modo impiedoso, submetendo o escravizado a seguidos castigos físicos unicamente pelo prazer e pelo privilégio do poder irrestrito. O “menino diabo” força rotineiramente Prudêncio a atuar submisso como se fosse o seu cavalo de montaria, governando a criança através de cordéis postos nos queixos à guisa de freio, pancadas de varinhas e xingamentos expressos como “Cala a boca, besta!” sempre que este ousa gemer de dor. As façanhas deste jaez estendem-se livremente aos visitantes da casa, envolvendo esconder os chapéus de pessoas graves, pregar rabos de papel às escondidas, puxar cabeleiras alheias e dar beliscões ríspidos nos braços das matronas. O pai do menino nutre grande admiração por esse espírito robusto, repreendendo-o à vista de gente apenas por simples formalidade social e presenteando-o com muitos beijos em particular.
Capítulo 12: Um Episódio de 1814
A cronologia biográfica aterrissa em pleno ano de 1814, ocasião festiva em que a família Cubas decide organizar um jantar muito pomposo e suntuoso em sua residência para celebrar e exaltar diretamente a queda definitiva de Napoleão Bonaparte. A alta aristocracia fluminense reúne-se em peso sob os lustres da casa para festejar esse grande acontecimento do cenário político, comemorando alianças ao redor de jantares. No decorrer do faustoso evento, o menino Brás afasta-se momentaneamente dos olhares gerais dos convivas e acaba testemunhando, nos arredores mais ermos da propriedade (próximo a uma moita), uma cena furtiva. Ele flagra no jardim um flerte rápido e um beijo amoroso trocado às pressas entre o Dr. Vilaça, um profissional amplamente tido por austero e respeitável, e a dona da casa vizinha e participante da festa, a Dona Eusébia. Demonstrando incontrolável perversidade e nenhuma capacidade de segredo inerente à sua infância, o menino volta espalhafatosamente à sala principal e acusa em voz alta o caso extraconjugal na frente de toda a elite aristocrática ali presente. O grito inesperado rasga a polidez do evento, rompe o clima festivo e mergulha os respeitáveis adultos em um silêncio de absoluto escândalo e constrangimento coletivo.
A cronologia biográfica aterrissa em 1814, quando o protagonista detém nove anos de idade e a família Cubas decide organizar um jantar muito pomposo em sua residência para celebrar a primeira queda de Napoleão Bonaparte. O evento ilustra as contendas na casa: o pai tem ódio mental ao corso por crer na própria nobreza, o tio João perdoa o déspota admirando o general, e o tio padre mostra-se absolutamente inflexível contra Bonaparte. A população do Rio de Janeiro demonstra alegria cordial através de iluminações, salvas, Te-Deum, cortejos e puras aclamações. No decorrer do faustoso evento, o menino Brás passeia pelo ambiente portando um espadim novo presenteado por seu padrinho, interessando-se imensamente mais pelo seu próprio brinquedo militar do que pela derrota histórica do grande imperador europeu. O poeta Vilaça ganha todos os holofotes do salão principal, exercendo o papel central de glosar longas rimas aos convidados vitoriosos.Sentindo-se totalmente ignorado pelos adultos e irritado por ter sido privado da sua sobremesa, o menino afasta-se momentaneamente da roda e acaba testemunhando uma cena furtiva. Ele flagra nos arredores o respeitável Vilaça trocando beijos amorosos com D. Eusébia escondidos na moita da propriedade. O menino urde de modo silencioso e arquitetado a sua vingança baseada inteiramente nessa grande descoberta adúltera.
Capítulo 13: Um Salto
Exercendo total arbítrio e controle sobre o compasso do seu livro, o narrador decide deliberadamente que não irá narrar aos leitores os anos vagarosos que restam da sua pré-adolescência. Ele implanta na obra o que decreta ser um longo salto cronológico e narrativo, acelerando e abreviando drasticamente as convenções temporais usuais dos folhetins. Esse salto abrupto suprime por completo as travessuras restantes da infância e o arremessa de modo certeiro e imediato nos pródromos de sua adolescência. A nova aterrissagem temporal do texto ocorre com exatidão no fervoroso ano de 1822, que marca factualmente o processo da independência política do Brasil, mas também representa intimamente o início do que o narrador classifica como o seu “primeiro cativeiro” pessoal da juventude.
Exercendo total arbítrio sobre o compasso de seu próprio livro, o narrador decide deliberadamente que não irá narrar os longos e lentos anos de juventude escolar. Ele implanta na obra um salto cronológico veloz que o faz passar diretamente por cima da escola e de suas lições árduas. O período das cartilhas escolares dividia-se estritamente entre ler, escrever, contar, além da rotina habitual de dar e apanhar cacholetas físicas. O maior terror biológico desses dias pueris corporifica-se inteiramente na “palmatória”, manejada por Ludgero Barata, um velho mestre ossudo e calvo que tenta incutir o alfabeto, a prosódia e a sintaxe no cérebro do garoto através do medo e da dor. O menino burla as obrigações da compostura para ir ociosamente fazer diabruras variadas pelos morros e pelas praias. O capítulo introduz formalmente a figura incipiente de Quincas Borba, um garoto muito rico, mimado e formidavelmente travesso que costumava liderar sempre todas as brincadeiras infantis entre eles.
Capítulo 14: O Primeiro Beijo
O personagem chega pontualmente à marca dos seus dezessete anos de idade, vivenciando, enfim, as curiosidades inaugurais e instintivas da mocidade madura. As primeiras experiências da puberdade desenvolvem-se de forma muito ríspida, completamente despida dos habituais contornos de idealização romântica, elevação platônica ou arroubos transcendentes que a literatura exigia. O ato físico da sua descoberta, consubstanciado no momento banal de receber o primeiro beijo, é ditado primariamente pelo calor irrefletido da idade. O gesto carnal que o introduz formalmente aos encantos mundanos e ao desejo amoroso é movido tão somente por impulsos velozes, efêmeros e puramente ditados pelas urgências fisiológicas da sua carne adolescente.
O personagem chega pontualmente à marca dos seus dezessete anos de idade ostentando um buçozinho no rosto e olhos extremamente vivos e resolutos, as suas feições mais másculas daquele instante. O jovem possui uma atitude de notável arrogância física, misturando de modo não inteiramente distinguível os ares incertos de um menino com os fumos pesados de um homem. Ele é descrito pelo narrador como um lindo e audaz rapaz que entra bruscamente na vida vestido de botas, ostentando esporas e mantendo um chicote na mão, como quem está cavalgando na rua um corcel nervoso e veloz. O rapaz encanta-se de forma completamente cega e imediata por Marcela, uma formosa dama espanhola abertamente conhecida por ser amiga íntima de rapazes abastados e de muito dinheiro. Após o encerramento de uma ceia noturna e arrebatado por um incontrolável desejo carnal, o jovem toma a iniciativa instintiva e comete a grande ousadia de roubar-lhe o primeiro beijo no patamar inferior da escada.
Capítulo 15: Marcela
A imersão derradeira na sua juventude e perdição passional materializa-se logo através da eclosão de um caso amoroso extremamente intenso, dispendioso e turbulento vivenciado junto de uma famosa prostituta local chamada Marcela. Contrastando frontalmente com as virgens e doces noivas arranjadas pelo conservadorismo daquela sociedade aristocrática, Marcela assume com destreza a sua posição de elegante e cobiçada cortesã, dotada de requintada classe e assustadora astúcia urbana. O núcleo e a espinha dorsal de todo o arrebatador relacionamento não recaem unicamente na troca do afeto sublime, mas alicerçam-se vigorosamente em uma espiral de extorsão emocional metódica. O protagonista submerge em uma vida paralela onde a manutenção da companhia feminina amada é garantida puramente e à base constante de luxo. O prosseguimento do vínculo carnal ocorre mediante volumoso e irrefletido derramamento financeiro, o qual obriga a esvaziar os cofres para financiar a cobiça vaidosa da amante.
Inicia-se de vez o intenso, turbulento e espantosamente dispendioso relacionamento amoroso da sua juventude. São necessários trinta longos dias no lombo do “asno da paciência” para o jovem conseguir granjear a vontade real e o coração da mulher galante. A ligação íntima divide-se estruturalmente em fases de poder: a fase consular (curta), onde ele divide forçadamente as atenções da mulher com o rival Xavier, e a duradoura fase cesariana, onde concentra sozinho todos os poderes materiais. A manutenção do convívio amoroso baseia-se maciçamente no ininterrupto derramamento financeiro para prover luxo. Para cobri-la de sedas importadas e joias vistosas, o jovem explora a largueza inicial do pai, induz depois a mãe a desviar quantias às escondidas e, ao fim, passa a assinar obrigações temerárias sacadas sobre a própria herança com alta usura. Marcela costuma protestar os presentes caros através das palavras orais, mas nas ações factuais ela contempla as joias na luz, ri expansivamente e beija-o com repetida impetuosidade e sinceridade carnal. A cortesã amontoa avaramente e de modo sistemático as dobras antigas de ouro que ele lhe fornece numa caixinha de ferro mantida a chave longe do medo dos escravos. A amante habita uma casa sólida e própria na região dos Cajueiros, equipada com pesados móveis lavrados de jacarandá e adornada com uma lindíssima baixela de prata da Índia doada em antigos favores por um desembargador. O balanço aritmético atesta rigidamente que o romance cego cobrou a fortuna de exatos onze contos de réis ao longo de meros quinze meses corridos.
Capítulo 16: Uma Reflexão Imoral
O texto executa um rápido recuo revisionista no qual o autor cadavérico passa a reconsiderar e avaliar cinicamente as palavras aplicadas e depositadas no capítulo que narrou o seu passado passional. O capítulo opera como uma franca retificação perante as ideias amorosas puras, quebrando qualquer laço de ingenuidade emocional romantizada. O narrador propõe formalmente desmentir e consertar a ilusão de que a cortesã vivia a “morrer de amores” de forma submissa por ele no auge daquele delírio juvenil. Ele decreta cinicamente em suas páginas que, em vez de morrer em paixões platônicas pela figura de Brás, a formosa Marcela, na mais literal concretude das ações diárias, meramente “vivia de amores”. O fator material irresistível desse amor e atração de fachada não necessitava de adivinhos ou declarações poéticas rasgadas para ser atestado: a verdade pecuniária de Marcela podia ser comprovada empiricamente através das somas exorbitantes acumuladas pelos comerciantes e joalheiros da cidade, únicos agraciados com os seus presentes e derramamento de dinheiro.
O texto executa um rápido e metódico recuo no qual o autor cadavérico aplica uma reflexão imoral que atua como expressa correção de estilo para os parágrafos anteriores. Ele retifica e conserta a falsa ideia sentimental, desmentindo publicamente que a cortesã vivia a “morrer de amores” de forma submissa e romântica por ele. O texto estabelece cinicamente que Marcela, na mais literal concretude das negociações de alcova, simplesmente “vivia de amores”, um fato comercial atestado sem qualquer pudor empírico pelas vitrines dos comerciantes e joalheiros do mundo. A narrativa assevera, contudo, que o irredutível interesse financeiro não anula de todo o encanto carnal efetivo da união. O narrador defende a tese estética de que a mais bela testa do mundo feminino não se torna menos bela ou menos digna de ser amada apenas por estar decorada por um diadema de pedras finas, levando-o a manter, como conclusão irremovível, que Marcela efetivamente o amou.
Capítulo 17: Do Trapézio e Outras Coisas
O balanço aritmético dos deslumbramentos clandestinos dessa paixão desponta, expondo e contabilizando com cruel clareza matemática que a duração dos encontros totalizou parcos quinze meses, mas consumiu a monumental e escandalosa fortuna particular de onze contos de réis. O pai do protagonista descobre casualmente a espantosa extensão da fatura amorosa do desfalque pecuniário e entra em violento e irreprimível sobressalto perante o desperdício dos seus bens e do nome familiar. Em uma reação de ira explosiva, o idoso chefe da família repreende ruidosamente as inclinações perdulárias e a crônica mediocridade boêmia do seu filho inconsequente, esfregando-lhe os títulos devidamente resgatados na cara com acusações indignadas, ofendendo a sua honra através dos gritos cortantes de “gatuno” e “pelintra”. Para salvaguardar urgentemente as riquezas, as aparências de família e remediar os vícios, o genitor arranja de modo irredutível o envio imediato e punitivo do herdeiro em um navio despachado para uma expatriação e correção forçada na Europa. O pai dita como exigência inegociável de reparação social que o rapaz estude e tome o porte definitivo de um autêntico “homem sério”, determinando os austeros bancos da Universidade de Coimbra, em Portugal, como seu degredo formativo oficial. Acuado momentaneamente sob as iras paternas, o jovem cala-se e rumina secretamente o problema em casa, e quando decide levá-lo pessoalmente a Marcela, propõe com absoluta ingenuidade a fuga mútua da dupla para o exterior. Ao lhe ser apresentada e sugerida a perigosa ideia de arruinar o seu negócio e partir sorrateiramente atravessando oceanos nos porões amorosos do estudante endividado, a experiente cortesã paralisa calada, meramente fitando com surpresa os olhos perdidos pelo ar da sala.
O idoso pai do protagonista descobre ineditamente a dívida espantosa dos onze contos de réis e entra em violento sobressalto ao perceber a grave extensão dos desfalques. Em um furor temperado, o genitor sacode as folhas das dívidas já resgatadas na cara do rapaz calado, ofendendo a sua dignidade familiar através dos brados contundentes de “gatuno” e “pelintra” e acusando-o de mediocridade boêmia. Como única medida curativa, o pai dita o envio coercitivo e inadiável do herdeiro em um navio despachado para a Europa, visando interná-lo na austera Universidade de Coimbra, em Portugal, para corrigir seus desvios. O jovem, ainda sob o domínio alucinógeno da paixão, vai apressadamente procurar Marcela para lhe propor abertamente a fuga clandestina. Visando cativar a amante a abandonar o seu negócio mercantil, ele comete a loucura de contrair um derradeiro empréstimo, corre à movimentada Rua dos Ourives e adquire a melhor joia em exposição: um grande pente de marfim com brilhantes diamantes. Encontra Marcela reclinada mole e sonolenta numa rede, calça a joia reluzente nos seus cabelos desarrumados com grande carinho e implora-lhe que parta secretamente com ele atravessando os oceanos. A cortesã inicialmente taxa o ato verbalizando a expressão irônica “Doudo!”, mas logo a seguir puxa-o calorosamente, paga o perigoso sacrifício financeiro recebido com um beijo ardente, admira de esguelha o rico lavor material da pedra e, por fim, aceita resolutamente embarcar no navio ao seu lado em curtos dois ou três dias.
Capítulo 18: Visão do Corredor
Com a sentença europeia expedida em definitivo e a repulsa passiva da amante já consolidada à luz da realidade, a carga emocional acumulada desencadeia sobrecarga e pane nos processos mentais do viajante nas vésperas do doloroso embarque. Dominado pela separação afetiva perante o exílio iminente e imerso na agonia existencial da paixão brutalmente estancada, o protagonista entra num turvo declínio sensorial. O relato desdobra uma bizarra interferência psíquica de desespero: perambulando desamparado na saída, ele projeta ilusoriamente uma rica imagem visual num corredor, corporificando exteriormente na figura os ecos e os tormentos do apego romântico estilhaçado a forcejo pelo qual nutria apreço desmedido. Dissipada de vez a poeira e concluída a exposição atabalhoada dessa perturbação anímica do encerramento dos afetos, a estrutura do capítulo encerra-se com o tom fúnebre do aviso factual e certeiro da partida: ele decreta laconicamente que, superada toda aquela dor agoniante e passado o curto interregno de apenas três dias, as malas avançaram e a sua jornada rumo a Lisboa seguiu efetivamente no transatlântico de modo inelutável.
O jovem despede-se das escadas amorosas acreditando-se soberanamente amado e tomado pela grande vitória conquistada. Ele desce solitário aos degraus, pulsando com força e sem freios na imaginação a ilusão descabida do triunfo romântico arquitetado para o exterior. O plano audacioso, contudo, é implacavelmente destruído logo em seus primeiros passos concretos no plano material. Ao tentar cruzar de forma sigilosa e desavisada a alameda adjacente, o protagonista é pego no flagra e emboscado subitamente pelo próprio pai. Sem qualquer rota física de escape, ele é duramente aprisionado sem saída no escuro interior de uma sege paterna, perdendo o domínio de seu próprio corpo rumo ao cais e vendo o projeto ruir.
Capítulo 19: A Bordo
O navio ergue por fim as velas e a viagem transoceânica começa a distanciar o fidalgo brasileiro dos domínios tropicais do Rio de Janeiro Imperial, cortando fisicamente os laços diretos para com a cortesã deixada naquelas águas. A viagem transcorre isolando o melancólico exilado em uma embarcação populada por escassos onze passageiros registrados para convívio diário. O peso sufocante do adeus desencadeia reações intempestivas no jovem mimado, que cogita momentaneamente pôr termo radical à sua travessia na terra e a atirar a sua própria vida à morte sob um salto aquático e instinto de suicídio dramático. A pulsão poética do autoextermínio, típica dos folhetins do século, exaure-se veloz e amarelada na própria superficialidade da sua disposição covarde para a vida orgânica, sumindo na espuma revolta. Na hierarquia superior do transporte flutuante encontra-se a combalida esposa do diligente capitão náutico do brigue fretado. Essa mulher agonizante sofre na derradeira etapa avançada das terríveis marcas infligidas pela grave tísica (tuberculose), viajando deitada sem reações corpóreas na cama precária e ostentando publicamente a espantosa magreza fantasmagórica que tornava até as veias do corpo em cordas “transparentes”. O passageiro insensível relata de camarote, e no mais liso distanciamento, o declínio respiratório fatal e o fim irrefutável dessa acompanhante do barco durante as intempéries das correntes, atestando um egocentrismo inabalável ao não conseguir dedicar real luto ao triste desenlace póstumo e cruel por ter seus miolos aprisionados na imagem ilusória de Marcela ao mar.
O jovem enamorado é efetivamente enviado como prisioneiro inerte a bordo da estrutura flutuante da galera que ruma a Lisboa. Longe dos seios da amante, ele sucumbe e cai em um quadro médico de severa letargia mental e completa prostração física no ambiente do navio. O desterrado é assombrado persistentemente por uma perniciosa ideia fixa e covarde que o impulsiona momentaneamente a querer mergulhar nas grandes ondas frias do mar para realizar o autoextermínio poético. A jornada marítima de isolamento transcorre marcada e encharcada por um cego e espesso egocentrismo por parte do exilado fluminense. Completamente consumido pelo egoísmo de sua dor passional que o arruina, o jovem isola-se emocionalmente e decide ignorar sem piedade o sofrimento físico daqueles instalados nos poucos camarotes ao seu redor. Ele testemunha as dolorosas e visíveis agonias da infeliz esposa do capitão náutico do brigue fretado — uma mulher muito pobre, tísica, de extrema magreza fantasmagórica e inequivocamente moribunda — não conseguindo empenhar absolutamente nenhuma real lágrima ou solidariedade perante aquele declínio respiratório alheio.
Capítulo 20: Bacharelo-me
Ao desembarcar no cais marítimo de Portugal e acatar minimamente o trâmite social imposto pelas iras patriarcais para garantir o sobrenome honrado, o herdeiro entra burocraticamente nos austeros portões escolares da consagrada Universidade de Coimbra. Contrariando todos os rígidos planos de moralidade erigidos pelo enfurecimento burguês de seu genitor distante e esvaziado de aspirações, o calouro exila a chance preciosa de reeducação no ambiente superior, descartando prontamente de seus preceitos práticos a dedicação séria e maçante aos clássicos intelectuais. O ritmo dominante e escolhido a esmo no desenrolar de seus semestres europeus baseia-se unicamente na dedicação leviana de um esforço letivo preenchido por densas doses da frivolidade amoral. O escoar acadêmico resume-se no emprego perene do ócio luxuoso da intensa boemia contínua, adornada pelos seus dias sem sentido que o mesmo tenta justificar ou qualificar dissimuladamente frente à biografia como preceitos inerentes a uma forma rudimentar de romantismo estritamente prático. O rito obrigatório de transposição de fase concretiza-se invariavelmente não através das suas virtudes mentais da superação pessoal, mas amparado fortemente no complacente rito financeiro das instituições aristocráticas para não causar sobressaltos e dissidências nas nobres castas vigentes e rentistas. Desfilando ignorância com galhofa no retorno dos mares e ignorando suas deficiências e abstenções, o apático ex-universitário acata o pergaminho protocolar ofertado nos salões lusitanos, podendo regozijar-se sob os tetos cariocas trajando com plenos méritos elitistas o honroso e superficial diploma que agora o titula irrepreensivelmente, até a sepultura póstuma, perante as vistas estrábicas da Corte como bacharel.
Ao tocar os solos de além-mar e desembarcar com as próprias malas no cais marítimo de Portugal, todo o estilhaçado luto amoroso dissipa-se subitamente. A dor melancólica perante o duro abandono de Marcela evapora-se em extrema velocidade perante a vaidade trazida pelas portas universitárias e a imediata ambição de angariar para o próprio nome os honrosos novos títulos acadêmicos. O mimado herdeiro cruza por fim os burocráticos portões da Universidade de Coimbra visando reaver o selo da respeitabilidade social ditado pelo genitor. Substituindo as paixões, mas descartando os rigores intelectuais, o estudante atinge incólume o seu desejado e cobiçado diploma oficial de bacharel em Direito. Essa titulação obrigatória é inteiramente lograda e efetivada não por suor operário ou noites debruçadas sobre os clássicos, mas sim amparada em uma notável e crônica mediocridade do esforço intelectual, fundida inseparavelmente a um luxuoso, contínuo e frívolo estilo de vida boêmio entre salões lusitanos.

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