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Machado de Assis: Biografia

Machado de Assis foi um homem negro, neto de escravizados alforriados, de origem muito humilde, gago e epilético, que, armado unicamente de uma inteligência avassaladora e de uma ironia cortante, superou todas as barreiras do Brasil imperial e republicano para se tornar o fundador da Academia Brasileira de Letras e o maior escritor do país.

 

O Início: As Raízes no Morro do Livramento e a Luta Autodidata (1839 – 1855)

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 21 de junho de 1839, no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro (então a capital do Império do Brasil).

Era filho de Francisco José de Assis, um pintor de paredes mulato, e de Maria Leopoldina Machado da Câmara, uma lavadeira açoriana. Cresceu numa casa modesta, nas dependências da chácara de D. Maria José de Mendonça Barroso (viúva de um senador), que era sua madrinha.

A sua infância foi marcada pelo luto. A sua mãe morreu quando ele era ainda uma criança. O seu pai casou-se novamente com Maria Inês da Silva, uma mulata que, além de fazer doces para vender, assumiu a criação de Machado com muito afeto após a morte de Francisco José pouco tempo depois.

Machado não teve educação formal e contínua. Foi um autodidata formidável. Reza a lenda que aprendeu francês conversando com um padeiro imigrante. Lia tudo o que lhe caía nas mãos e, com uma disciplina férrea, aprendeu também inglês, alemão e grego ao longo da vida.

 

A Tinta, o Jornalismo e a Ascensão na Corte (1855 – 1869)

A ascensão de Machado de Assis deu-se pelos bastidores da palavra impressa.

Em 1855, aos 15 anos, publicou o seu primeiro poema, Ela, na revista Marmota Fluminense, propriedade do influente editor Paula Brito.

Começou a trabalhar como aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional. Lá, conheceu Manuel Antônio de Almeida (autor de Memórias de um Sargento de Milícias), que se tornou seu protetor. Trabalhou depois como revisor e começou a escrever crônicas, críticas teatrais e contos.

Com uma escrita elegante e um comportamento polido, Machado foi conquistando o respeito da elite intelectual carioca. Era o início da sua vida burocrática, que culminaria em um alto cargo de diretor no Ministério da Viação, da Agricultura e Obras Públicas.

 

O Casamento com Carolina e a Fase Romântica (1869 – 1880)

A vida de Machado transformou-se radicalmente na esfera pessoal e literária a partir do final da década de 1860.

Em 1869, casou-se com Carolina Augusta Xavier de Novais, uma mulher portuguesa, culta e oriunda de uma família de intelectuais. O casamento enfrentou a resistência da família dela (devido à cor e origem de Machado), mas foi uma união de amor e parceria inabaláveis. Carolina apresentou-lhe os grandes clássicos ingleses, como Shakespeare e Laurence Sterne, que moldariam a sua genialidade futura.

Nesta época, publicou os romances da sua “Fase Romântica” (Ressurreição, A Mão e a Luva, Helena e Iaiá Garcia). Embora seguissem os padrões folhetinescos da época, estas obras já revelavam um interesse invulgar pela psicologia feminina e demarcavam-se do romantismo melodramático tradicional.

 

As Maiores Obras de Machado de Assis e o Realismo (1881 – 1899)

Em 1878, Machado sofreu uma grave crise de saúde, retirando-se para Nova Friburgo com Carolina para se recuperar. Desse retiro, ele regressou com uma voz literária totalmente nova.

Em 1881, publicou Memórias Póstumas de Brás Cubas. O livro foi uma ruptura absoluta com tudo o que se fazia no Brasil. Escrito por um “defunto-autor”, a obra abandona a linearidade, é permeada por um pessimismo filosófico, humor negro e ironia corrosiva. O Realismo brasileiro tinha nascido.

Consolidou a sua posição de mestre com as outras duas pedras angulares da sua obra-prima: Quincas Borba (1891), que explorava a teoria implacável do “Humanitismo” (“ao vencedor, as batatas”), e Dom Casmurro (1899), a genial narrativa de ciúme, obsessão e memória através da voz de Bentinho e da enigmática Capitu (“com os seus olhos de ressaca”).

 

O Bruxo do Cosme Velho, a ABL e o Fim (1897 – 1908)

Nos seus últimos anos, Machado era venerado como uma instituição viva, vivendo na sua famosa casa na Rua Cosme Velho.

Em 1897, liderou a fundação da Academia Brasileira de Letras (ABL). Foi eleito o seu primeiro presidente, cargo que ocupou até à morte (a instituição é ainda hoje apelidada de “Casa de Machado de Assis”).

Em 1904, sofreu o golpe mais duro da sua vida: a morte de Carolina, após 35 anos de casamento. Arrasado pela solidão, escreveu o comovente poema “Carolina”.

Sem a esposa, publicou os seus dois últimos grandes romances: Esaú e Jacó (1904) e o melancólico Memorial de Aires (1908). Joaquim Maria Machado de Assis faleceu a 29 de setembro de 1908, aos 69 anos. O seu funeral foi um evento de Estado, acompanhado pelas figuras mais eminentes do país.

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