Análise Literária

Alusões

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💡 A alusão é uma figura de linguagem e um recurso literário que faz uma referência indireta ou implícita a uma pessoa, evento, lugar ou outra obra.

 

Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, a alusão jamais opera como mero ornamento retórico ou deferência passiva ao cânone ocidental. Pelo contrário, ela atua sob o signo da sátira menipeia, gênero clássico que funde a reflexão filosófica à comicidade corrosiva para ridicularizar instituições e verdades absolutas.

Sociologicamente, o uso ostensivo de alusões mimetiza e denuncia a formação intelectual da própria classe dominante do Brasil Imperial. Conforme a obra analisa no Capítulo 24, a educação universitária da elite na Europa servia apenas como um verniz acadêmico projetado para absorver o “esqueleto inútil das ciências” e uma “fraseologia polida” guardada estritamente para “despesas de conversação” nos salões da Corte. Esteticamente, porém, a narrativa manipula esse repertório erudito por meio do rebaixamento satírico e da paródia: convoca-se o sublime (a epopeia, a tragédia, a Bíblia, a metafísica) para iluminar, por contraste irônico, o grotesco, a covardia moral e a mesquinhez utilitária da vida burguesa.

 

ALUSÕES LITERÁRIAS E METALINGUÍSTICAS

  • Laurence Sterne, Xavier de Maistre e a Taça de “Outro Vinho”: No prólogo Ao Leitor, a narrativa inscreve-se explicitamente na linhagem do romance digressivo europeu ao declarar a adoção da “forma livre” de Laurence Sterne e de Xavier de Maistre. Contudo, no prólogo da terceira edição, a obra esclarece o alcance dessa intertextualidade por meio da imagem simbólica de uma taça que, embora apresente lavores de igual escola estética, carrega em seu interior “outro vinho”. A alusão não é servil: o texto apropria-se da estrutura fragmentada europeia para infundir nela as “rabugens de pessimismo” e espelhar a volubilidade mental da classe ociosa fluminense.
  • O Filtro de Stendhal e o Pacto Irônico de Recepção: Ao abrir o prólogo aludindo à confissão de Stendhal de haver escrito para apenas cem leitores — número que o narrador reduz ironicamente para dez ou cinco leitores —, o romance estabelece um pacto metalinguístico de recusa ao consumo fácil do folhetim romântico. A referência demarca o distanciamento crítico da obra tanto perante a “gente grave”, que busca solenidade retórica, quanto perante a “gente frívola”, que espera o enredo linear do romance usual.
  • Shakespeare (Hamlet), Corneille (Le Cid) e Molière (Tartufo): O diálogo intertextual com o teatro clássico europeu opera sistematicamente pelo viés do heroísmo às avessas. A alusão em inglês ao “undiscovered country” (o país desconhecido do solilóquio de Hamlet) no Capítulo 1 retira qualquer grandeza trágica da morte do protagonista, que deixa o mundo de modo trôpego e aborrecido. De forma análoga, a citação em francês de Le Cid, de Pierre Corneille (“Chimène, qui l’eût dit? Rodrigue, qui l’eût cru?”), no Capítulo 6, serve de moldura irônica para o reencontro fúnebre entre Brás Cubas e Virgília, reduzidos pela velhice a uma “formosa ruína” e a dois “corações murchos”. Já no Capítulo 8, a expulsão da Sandice pela Razão no cérebro do narrador recorre à citação direta do Tartufo, de Molière (“La maison est à moi, c’est à vous d’en sortir”), rebaixando um conflito psicológico a um litígio burguês de propriedade.
  • O “Romantismo Prático” de Coimbra e o Estrangeirismo (Luncheon): A passagem do protagonista pela Universidade de Coimbra, onde conquista o diploma de bacharel sem abandonar a mediocridade boêmia e o chamado “romantismo prático”, satiriza a importação superficial de modelos literários europeus pela juventude abastada. Esse mesmo mecanismo de colonização cultural reaparece na maturidade através do emprego deliberado do anglicismo luncheon (Capítulo 73) para designar os encontros clandestinos na casinha da Gamboa, utilizando o verniz aristocrático estrangeiro para higienizar o adultério burguês.

 

ALUSÕES BÍBLICAS E TEOLÓGICAS

  • Moisés e a Inversão Cronológica do Pentateuco: Logo no primeiro capítulo (Óbito do Autor), ao justificar a decisão de iniciar a narrativa pela própria morte em agosto de 1869 em vez do nascimento em 1805, o “defunto autor” estabelece uma comparação direta com Moisés. Como o patriarca hebreu também relatou a própria morte, mas colocou-a no final do Pentateuco e não no intróito, a alusão instaura uma paródia estrutural que dessacraliza a escrita bíblica para tornar o relato póstumo “mais galante e mais novo”.
  • O Milagre do Rei Ezequias e a “Baba de Caim”: No Capítulo 6, a visita de Virgília ao leito de morte do protagonista aciona duas alusões antagônicas do Antigo Testamento. Inicialmente, o poder subjetivo da memória é comparado ao milagre divino concedido ao rei Ezequias, fazendo a sombra do sol recuar até os dias juvenis para suspender provisoriamente a ação do tempo. Logo em seguida, porém, a digressão filosófica destrói qualquer idealização ao sentenciar que a felicidade presente carrega sempre uma gota da “baba de Caim”. A referência ao primeiro homicida bíblico atesta que a experiência humana no tempo real está irremediavelmente contaminada pela dor, pela inveja e pelo mal.
  • A Suma Teológica, a Asna de Balaão e as Paródias do Novo Testamento: Ao longo da narrativa, o repertório cristão sofre contínuo esvaziamento satírico. No transe febril do Delírio (Capítulo 7), a metamorfose alucinatória do moribundo na Suma Teológica de São Tomás de Aquino simboliza o peso rígido do dogmatismo escolástico, enquanto a dúvida sobre se o hipopótamo falante descendia da bíblica asna de Balaão rebaixa o milagre sagrado ao grotesco. De modo similar, no arco da jovem Eugênia — a meiga “flor da moita”, rejeitada covardemente por ser coxa de nascença —, títulos como Bem-aventurados os que não descem (paródia ao Sermão da Montanha) e O Caminho de Damasco (alusão à conversão de São Paulo) são pervertidos para encobrir a covardia estética, o elitismo e o cálculo político mundano do protagonista.

 

ALUSÕES HISTÓRICAS, CLÁSSICAS E MITOLÓGICAS

  • Cavour, Bismarck e o Trapézio da “Ideia Fixa”: No Capítulo 4 (A Ideia Fixa), para ilustrar a obstinação mental que salta e se agarra ao cérebro humano como num trapézio, a voz narrativa alude aos grandes estadistas da unificação italiana e alemã, Cavour e Bismarck. Ao equiparar a ambição geopolítica europeia e os delírios dos loucos à criação fútil do “Emplasto Brás Cubas” — um medicamento supostamente filantrópico contra a melancolia, mas movido pelo vaidoso “amor da glória” —, a alusão histórica nivela a pretensa genialidade pública à pura sandice megalomaníaca.
  • O Calembour das Trezentas Cubas e a Farsa Genealógica: No Capítulo 3 (Genealogia), o texto satiriza o uso instrumental da História pela elite imperial para apagar origens plebeias ligadas ao trabalho manual. Envergonhado de que o autêntico fundador da família, Damião Cubas, tivesse sido um modesto tanoeiro, e após falhar na tentativa de usurpar a linhagem do histórico capitão-mor Brás Cubas, o pai do protagonista fabrica uma alusão épica às guerras da Reconquista. Por meio de um trocadilho (calembour), inventa que o sobrenome derivava de um cavaleiro heroico que arrebatara trezentas cubas aos mouros na África, expondo a falsificação historiográfica que legitimava a aristocracia escravocrata.
  • In Hoc Signo Vinces! e o Rebaixamento Clássico: A máxima latina “In hoc signo vinces!” (“Com este sinal vencerás”), historicamente associada à visão da cruz pelo imperador Constantino, sofre uma inversão brutal quando é proferida por Quincas Borba no Capítulo 59. Reduzido à extrema mendicância no Passeio Público, o filósofo grita a divisa imperial não diante de um símbolo sagrado ou militar, mas ao fitar com cobiça uma nota de cinco mil-réis recebida de esmola, instantes antes de furtar sorrateiramente o relógio de Brás Cubas.
  • A Natureza (Pandora), a Água da Juventa e o Ceticismo Antigo: As referências à mitologia clássica e à historiografia antiga reforçam a cosmovisão implacável do romance. No Delírio, quando o protagonista é transportado à origem dos séculos para confrontar a indiferença brutal da Natureza (Pandora), e no Capítulo 6, quando a memória é comparada à mítica água da Juventa frente ao “ministro da morte”, que é o tempo, a mitologia sublinha a insignificância biológica do indivíduo. Paralelamente, alusões a historiadores e filósofos como Suetônio, Sêneca, Aristóteles, Vespasiano e aos navios do Pireu atuam ao longo do livro para demolir a crença na verdade histórica objetiva e diagnosticar a loucura das vaidades humanas.

 

ALUSÕES FILOSÓFICAS E CIENTÍFICAS

  • A Refutação de Blaise Pascal (Do “Caniço Pensante” à “Errata Pensante”): No Capítulo 27, a obra estabelece um diálogo filosófico direto com Blaise Pascal, refutando a célebre máxima humanista de que o homem seria um “caniço pensante”. Em seu lugar, a narrativa define a espécie humana através da metáfora editorial de uma “errata pensante”, segundo a qual cada estação da vida tenta emendar os erros da edição anterior até que a velhice entregue a edição definitiva gratuitamente aos vermes.
  • Paródia ao Positivismo, ao Evolucionismo e ao Darwinismo Social (Humanitismo): Toda a construção do “Humanitismo”, sistema filosófico elaborado por Quincas Borba para arruinar as demais escolas de pensamento, funciona como uma vasta alusão paródica às correntes cientificistas europeias do século XIX — especificamente o positivismo, o evolucionismo e o darwinismo social. Ao sustentar que o princípio universal (Humanitas) utiliza a guerra, a fome e a miséria como engrenagens de conservação e que a dor é pura ilusão, a doutrina é ilustrada pela disputa sanguinária de dois cães de rua famintos por um osso sem carne (Capítulo 122) e pela fábula do frango assado nutrido com milho plantado por um africano escravizado trazido de Angola. A alusão desnuda como a elite intelectual utilizava teorias científicas deterministas para racionalizar a escravidão, a violência de classe e a lei do mais forte, culminando ironicamente na demência e morte do próprio filósofo.
  • O Utilitarismo de Helvétius e o Pessimismo de Arthur Schopenhauer: Enquanto a referência iluminista a Helvétius (Capítulo 133) é acionada para demonstrar que a vaidade irrefletida governa o interesse próprio, a espinha dorsal filosófica do romance estabelece uma alusão profunda e estrutural à metafísica pessimista de Arthur Schopenhauer. Esse ceticismo atravessa desde a constatação da vida miserável de Dona Plácida (Capítulos 74 e 75) até a contabilidade árida do derradeiro capítulo, “Das Negativas“. Ao somar o fracasso de todas as suas ambições — não inventou o emplasto, não foi ministro de Estado, não casou —, o narrador encerra a obra celebrando o único “pequeno saldo” positivo de sua existência: o de não ter tido filhos e não ter transmitido a nenhuma criatura o legado da miséria humana.

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