Análise Literária

Tom

Próximo → 
Temas


💡 O tom na literatura refere-se à atitude e ao posicionamento emocional do autor em relação ao tema da obra, aos personagens ou ao próprio leitor.

 

O tom de Memórias Póstumas de Brás Cubas, obra-prima publicada originalmente em folhetins em 1880 e em livro em 1881 por Machado de Assis, constitui um dos elementos mais revolucionários do Realismo no Brasil. Afastando-se tanto do sentimentalismo idealizado do Romantismo quanto da objetividade científica e impessoal do Realismo europeu tradicional, o romance inaugura uma dicção tragicômica, cínica, digressiva e profundamente irônica.

 

O “Conúbio” Estético: A Pena da Galhofa e a Tinta da Melancolia

  • A Dualidade Tragicômica: O tom matriz do romance é sintetizado logo no prólogo Ao Leitor pela fusão inusitada entre dois instrumentos metafóricos: a “pena da galhofa” e a “tinta da melancolia”. Enquanto a galhofa instaura a zombaria constante, o deboche afiado e a ironia corrosiva, a melancolia impregna o relato com uma tristeza espessa e a consciência aguda da finitude humana.
  • As “Rabugens de Pessimismo”: Embora o livro adote a chamada “forma livre” de escritores humorísticos e digressivos como Laurence Sterne e Xavier de Maistre, a narrativa diferencia-se de seus modelos europeus por infundir no texto diversas “rabugens de pessimismo”. Há um constante sentimento amargo e áspero que costura os episódios, mesmo sob a aparência risonha da prosa.
  • Humor Negro e Sátira Menipeia: O produto desse “conúbio” literário é o predomínio absoluto do humor negro e da sátira menipeia, tradição clássica que combina o riso filosófico à gravidade trágica para ridicularizar instituições e sistemas intelectuais. Na obra, o riso jamais é festivo ou redentor; ele opera como um mecanismo de defesa psicológico para suportar o vazio e a tragédia existencial.

 

Cinismo de Além-Túmulo, Escárnio e Desconstrução Antirromântica

  • A Isenção Ética do “Defunto Autor”: O tom de absoluta sem-cerimônia e franqueza impiedosa decorre diretamente do estatuto ontológico do narrador, que escreve não como um “autor defunto”, mas como um “defunto autor” para quem a campa funcionou como “outro berço”. Situado na eternidade e imune às coerções sociais, à necessidade de bajulação e ao medo do julgamento burguês, o protagonista despe-se de qualquer pudor para expor as próprias misérias e as alheias.
  • Dessacralização da Morte e dos Rituais: O escárnio inaugura o livro já na dedicatória fúnebre, consagrada com “saudosa lembrança” ao primeiro verme que roeu as frias carnes de seu cadáver. Ao longo da trama, o tom dessacraliza momentos solenes: o enterro de Brás Cubas para apenas onze amigos sob uma “chuvinha miúda, triste e constante” tem sua oratória inflamada desmascarada pelo legado de “vinte apólices” no testamento, enquanto a morte da jovem Nhã-loló é tratada cinicamente como um problema de diagramação e resumida a um seco epitáfio em formato de cruz no Capítulo 125.
  • Contabilidade Fria dos Afetos: Ao abordar as paixões, a voz narrativa adota um tom utilitarista e desencantado que demole o idealismo amoroso do Romantismo. O ardor juvenil pela cortesã Marcela é reduzido ao cálculo financeiro de “onze contos de réis” em quinze meses; a singela Eugênia (“flor da moita”) é descartada por covardia estética devido ao estigma de ser coxa de nascença; e o longo adultério com Virgília encerra-se sob um olhar corrosivo que a descreve, na velhice e à beira do leito de morte do ex-amante, como uma “formosa ruína” de “corações murchos”.

 

A “Filosofia Desigual”: Volubilidade, Pachorra e Estilo Ébrio

  • Oscilação entre o Austero e o Brincalhão: No Capítulo 4 (A Ideia Fixa), o próprio romance autodefine-se como detentor de uma “filosofia desigual”, cujo tom se mostra ríspido e austero num instante para, logo em seguida, converter-se em aberta zombaria e postura brincalhona.
  • A “Pachorra” Póstuma e o Estilo Ébrio: Desvinculado da pressa que consome os vivos, o narrador escreve com deliberada “pachorra” póstuma, avançando por meio de saltos no tempo psicológico e gabando-se no Capítulo 9 (Transição) de conservar “todas as vantagens do método, sem a rigidez do método”. No Capítulo 71 (O Senão do Livro), a voz narrativa confessa que o livro “cheira a sepulcro” e compara o próprio estilo ao caminhar dos ébrios, que “guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem”.
  • A Volubilidade como Crítica Sociológica: Sob a ótica da crítica literária, esse tom volúvel, caprichoso e diletante não é mero experimentalismo formal, mas a tradução estética da psicologia da elite patrimonialista e rentista do Brasil Imperial. A prosa inconstante espelha o ócio, o tédio e a ausência de propósitos produtivos de uma classe senhorial financiada pela herança e avessa ao trabalho braçal.

Provocação Metalinguística e Insolência perante o Leitor

  • Desdém pelas Colunas da Opinião: Em vez do tom cordato dos folhetins oitocentistas, o narrador adota uma postura insolente e provocadora, evocando Stendhal para projetar apenas dez ou cinco leitores. Ele declara que o livro frustrará tanto a “gente grave” quanto a “gente frívola” — as “duas colunas máximas da opinião” — e ameaça pagar com um desdenhoso “piparote” (um peteleco aristocrático) àqueles a quem a obra desagradar.
  • Falsa Cortesia e Autoritarismo Narrativo: A voz póstuma alterna momentos de fingida polidez — dirigindo-se ao público como “fino leitor” ou criando pontes metalinguísticas como o Capítulo 124 (Vá de Intermédio) para poupar o leitor de abalos bruscos — com ataques diretos à superficialidade de quem o lê. No Capítulo 71, o tom torna-se abertamente acusatório ao decretar que “o maior defeito deste livro és tu, leitor”, culpando a pressa burguesa do público pela incompreensão de seu ritmo.

Frieza Senhorial e Ironia Cortante diante da Barbárie Social

  • Naturalização da Violência Escravocrata: Ao retratar a escravidão e as hierarquias do Império, o tom assume uma naturalidade gélida e blasé que desnuda a perversidade da casa-grande. O narrador recorda em tom quase anedótico o sadismo de sua infância como “menino diabo”, quando montava e açoitava o menino escravizado Prudêncio, e observa mais tarde com distanciamento irônico o mesmo Prudêncio, já alforriado, transferindo as chicotadas do passado para outro negro escravizado na praça do Valongo.
  • O Eufemismo Cínico em Cotrim: A ironia machadiana atinge seu grau mais ácido no Capítulo 123 (O Verdadeiro Cotrim), através do tom de falsa defesa empregado para descrever o cunhado Cotrim. Enquanto revela que o escravocrata contrabandeava africanos ilegalmente e enviava cativos ao calabouço até descerem a escorrer sangue, o narrador finge atenuar a barbárie classificando-a como mero fruto impessoal das “relações sociais” e exaltando os “sentimentos pios” do cunhado no amor aos filhos e nas doações a irmandades religiosas.
  • Desprezo Utilitarista pelos Subalternos: De igual modo, a história de Dona Plácida (Capítulos 74 e 75) — cuja vida de trabalho honesto e exaustivo culmina na miséria e na humilhação de acobertar o adultério na casinha da Gamboa — é narrada sob um tom que mescla nojo burguês, cálculo utilitário e ceticismo ateu, demolindo o mito da meritocracia e da providência divina.

 

Sátira Filosófica, Gravidade Cósmica e Niilismo Schopenhaueriano

  • Paródia à Política e ao Darwinismo Social: No plano das ideias, o tom converte-se em sátira mordaz contra a vacuidade parlamentar do Império — exemplificada pela solenidade fútil com que Brás Cubas defende a redução da barretina da guarda nacional — e contra o cientificismo europeu. O otimismo positivista e o darwinismo social são parodiados pelo tom grandiloquente e absurdo do “Humanitismo” de Quincas Borba, que enxerga na guerra, na fome e numa disputa sanguinária de cães de rua (Capítulo 122) a expressão sublime da substância universal.
  • Gravidade Trágica e a “Errata Pensante”: Em passagens filosóficas centrais, a galhofa cede espaço a um tom visionário e de angústia metafísica, como no famoso Delírio, em que o moribundo é transportado à origem dos séculos para confrontar a indiferença brutal da Natureza. Ao mesmo tempo, o tom cético refuta o humanismo clássico de Pascal, rebaixando o “caniço pensante” à condição de uma “errata pensante” entregue de graça aos vermes.
  • A Aridez Niilista no Balanço Final: No encerramento do romance, alinhado ao pessimismo de Arthur Schopenhauer, o tom despe-se das digressões brincalhonas e assume uma secura contábil e letárgica. Ao somar o fracasso de todos os seus projetos — não inventou o “Emplasto Brás Cubas”, não foi ministro, não casou —, a voz póstuma encerra a obra num tom de triunfo sombrio e niilista, celebrando o “pequeno saldo” positivo de não ter tido filhos e não ter transmitido a nenhuma criatura o legado da miséria humana.

Próximo → 
Temas