Análise Literária

Ponto de Vista

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💡 O ponto de vista na literatura é a perspectiva ou a lente através da qual uma história é narrada e apresentada ao leitor.

 

O ponto de vista de Memórias Póstumas de Brás Cubas, obra publicada originalmente em folhetins em 1880 e em livro em 1881 por Machado de Assis, representa a maior revolução formal do Realismo no Brasil. Ao abandonar o narrador onisciente e imparcial típico da escola realista europeia, o romance adota um foco narrativo em primeira pessoa conduzido por um protagonista que narra a própria história diretamente do além-túmulo. 

 

O Foco Narrativo em Primeira Pessoa e a Inversão do “Defunto Autor”

  • Narrador Protagonista (Autodiegético): A história é integralmente relatada sob o ponto de vista em primeira pessoa por Brás Cubas, que atua simultaneamente como personagem central e narrador de suas memórias.
  • A Subversão do “Defunto Autor”: Logo no primeiro capítulo (Óbito do Autor), o foco narrativo rompe com a tradição biográfica ao estabelecer que o narrador não é um “autor defunto” (alguém que escreveu em vida e morreu posteriormente), mas sim um “defunto autor”, para quem a campa do cemitério funcionou como um “outro berço”.
  • Inversão Cronológica Radical: Em vez de iniciar o relato pelo nascimento em 20 de outubro de 1805, o narrador decide abrir a obra pelo próprio falecimento — ocorrido às duas horas da tarde de uma sexta-feira de agosto de 1869, aos sessenta e quatro anos, em decorrência de uma pneumonia. O próprio protagonista destaca essa estrutura como a diferença radical entre o seu livro e o Pentateuco de Moisés, visando tornar o escrito “mais galante e mais novo”.

 

Liberdade de Além-Túmulo: Cinismo, Galhofa e Melancolia

  • Isenção Moral e Social Absoluta: A escolha de uma perspectiva situada “cá no outro mundo” não configura um artifício místico ou religioso, mas um trunfo estético de libertação ontológica. Imune à coerção social, à hipocrisia mundana e ao medo do julgamento burguês, o finado não tem reputação a zelar e pode pintar a si mesmo e aos outros com franqueza impiedosa.
  • O “Conúbio” Estético e o Humor Negro: No prólogo Ao Leitor, a voz narrativa revela os instrumentos de sua ótica: o livro foi redigido com a “pena da galhofa” (o deboche, a ironia corrosiva e o riso zombeteiro) molhada na “tinta da melancolia” (o desengano trágico e as “rabugens de pessimismo”).
  • Tradição da Sátira Menipeia: Pela localização do foco narrativo fora do mundo dos vivos e pela fusão constante entre comicidade irreverente e gravidade filosófica — inaugurada já na dedicatória ao primeiro verme que roeu as frias carnes de seu cadáver —, o ponto de vista filia-se à tradição da sátira menipeia, desmascarando convenções morais e sistemas intelectuais.

 

Narrador Parcial e o Viés da Elite Escravocrata no Brasil Imperial

  • Subjetividade e Filtragem Egoísta: Por ser construído em primeira pessoa, todo o panorama dos acontecimentos e das personagens é estritamente parcial, filtrado pelas memórias, pelas vaidades e pelo egoísmo de um representante da aristocracia fluminense.
  • Mentalidade Patrimonialista e Ociosa: O olhar de Brás Cubas traduz a cosmovisão do homem rico do Brasil Imperial, que vive financiado pela herança paterna, nutre aversão ao trabalho produtivo e esconde as raízes populares de seu ancestral tanoeiro, Damião Cubas, atrás de uma falsa fidalguia forjada por um trocadilho (calembour) sobre trezentas cubas tomadas aos mouros.
  • Mercantilização dos Afetos e Desconstrução do Romantismo: Sob a lente cínica e materialista do narrador, o amor romântico idealizado é demolido e reduzido a cálculos de status e transações financeiras. Essa perspectiva transparece quando ele resume a paixão juvenil pela cortesã Marcela a “quinze meses e onze contos de réis”, quando descarta a jovem Eugênia (“a flor da moita”) por covardia estética diante do fato de ela ser coxa de nascença, e quando narra o longo adultério com Virgília — casada com o carreirista político Lobo Neves — como uma relação regida pela vaidade, pelo comodismo e pelo medo do escândalo público.
  • Naturalização da Barbárie Escravocrata: O ponto de vista senhorial expõe, por meio da frieza com que relata os fatos, a crueldade estrutural da elite brasileira. O narrador recorda com naturalidade o sadismo de sua infância como “menino diabo”, quando usava o menino escravizado Prudêncio como cavalo de montaria; relativiza cinicamente os castigos sangrentos no calabouço e o contrabando de africanos praticados pelo cunhado Cotrim como mero fruto das “relações sociais”; e reduz a vida miserável de Dona Plácida à função utilitária de acobertar seus encontros clandestinos na casinha da Gamboa.

 

A “Forma Livre”, o Tempo Psicológico e o Estilo Volúvel

  • Substituição do Tempo Cronológico pelo Psicológico: A perspectiva narrativa estilhaça o encadeamento linear dos folhetins oitocentistas, avançando e recuando ao sabor do tempo psicológico, das associações livres da memória e dos caprichos da consciência.
  • A “Forma Livre” e o Romance Digressivo: O próprio narrador classifica sua obra como “difusa”, declarando ter adotado a “forma livre” de escritores humorísticos e digressivos como Laurence Sterne e Xavier de Maistre. Essa escolha estética manifesta-se em capítulos curtíssimos, interrupções bruscas do enredo e experimentalismos gráficos, como diálogos feitos de pontuações e o epitáfio em formato de cruz de Nhã-loló no Capítulo 125.
  • A “Pachorra” Póstuma e a Volubilidade como Crítica Social: Desvinculado da “brevidade do século”, o narrador escreve com deliberada “pachorra”, gabando-se no Capítulo IX (Transição) de manter “todas as vantagens do método, sem a rigidez do método”. Sob a ótica sociológica da literatura, essa volubilidade narrativa — que oscila rapidamente entre a postura “austera” e a “brincalhona” — reproduz na própria estrutura formal do texto a inconstância mental, o diletantismo e a ausência de propósitos sólidos da classe dominante rentista do Império.

 

Metalinguagem, Controle do Leitor e o Pessimismo Schopenhaueriano

  • Quebra da Quarta Parede e Provocação: O foco narrativo é intensamente metalinguístico, interpelando o leitor a todo instante para comentar os próprios andaimes da escrita. Evocando Stendhal no prólogo, o narrador desdenha tanto da “gente grave” quanto da “gente frívola” — as “duas colunas máximas da opinião” — e ameaça pagar com um desdenhoso “piparote” àqueles a quem o livro não agradar.
  • Autoritarismo Narrativo: Mesmo quando finge cortesia técnica — como no Capítulo 124 (Vá de Intermédio), inserido como ponte para preparar o leitor antes de um epitáfio —, a voz narrativa exerce controle tirânico sobre o ritmo da leitura e chega a culpar a pressa e a superficialidade do próprio leitor pelos defeitos do livro, como ocorre no Capítulo 71 (O Senão do Livro).
  • Ceticismo Filosófico e o Saldo “Das Negativas”: Ao longo do relato, a perspectiva de além-túmulo refuta o otimismo humanista — rebaixando o “caniço pensante” de Pascal a uma “errata pensante” entregue aos vermes e satirizando o darwinismo social através do Humanitismo de Quincas Borba. No desfecho da obra, alinhado ao pessimismo de Arthur Schopenhauer, o ponto de vista póstumo realiza o balanço final de uma vida fútil — na qual não inventou o “Emplasto Brás Cubas”, não foi ministro e não casou —, extraindo de sua esterilidade o único saldo positivo: o de não ter tido filhos e não ter transmitido a nenhuma criatura o legado da miséria humana.

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