Análise Literária

Eufemismo

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Citações


💡 O eufemismo é uma figura de linguagem empregada para suavizar o sentido de expressões consideradas rudes, desagradáveis ou muito chocantes.

 

EUFEMISMO SOCIOLÓGICO E ESCRAVOCRATA: A BARBÁRIE HIGIENIZADA E A “PACHOLICE” DE CLASSE

  • O Eufemismo Cínico e a Violência Escravista em O Verdadeiro Cotrim (Capítulo 123): O exemplo mais cortante de eufemismo irônico na literatura realista brasileira ocorre quando o narrador finge defender a reputação de seu cunhado Cotrim, marido de Sabina. Embora revele que o comerciante contrabandeava africanos escravizados ilegalmente e enviava cativos com frequência ao calabouço — de onde desciam a escorrer sangue —, a voz narrativa suaviza cinicamente tais atrocidades, classificando a crueldade como mero fruto impessoal das “relações sociais” e de um “hábito” da época. Ato contínuo, o discurso encobre a barbárie carcerária sob o manto eufemístico de “sentimentos pios”, comprovados pelo amor de Cotrim aos filhos e pela doação ostentatória de esmolas a veneráveis irmandades religiosas.
  • A Mitigação da Origem Plebeia e a “Pacholice” Paterna: No plano da genealogia familiar, o eufemismo serve para apagar o estigma do trabalho produtivo e braçal repudiado pela elite rentista. Para esconder que o verdadeiro fundador da linhagem, Damião Cubas, fora um modesto e rústico tanoeiro, o pai do protagonista fabrica uma fidalguia imaginária por meio de um trocadilho (calembour), substituindo os tonéis da tanoaria pela lenda épica das “trezentas cubas” tomadas aos mouros na África. Ao avaliar essa fraude genealógica e a vaidade afetada do genitor, o narrador atenua o desvio moral sob o rótulo indulgente e eufemístico de uma simples “pacholice”, normalizando a mentira social ao indagar retoricamente quem não é um pouco “pachola” no mundo.
  • A Suavização Doméstica do Sadismo Infantil e a Reprodução do Chicote: Nas memórias da infância na casa-grande, a violência despótica contra o menino negro escravizado Prudêncio — transformado em “cavalo de montaria” e fustigado com cordéis e pancadas de varinhas — é suavizada no ambiente familiar como meras travessuras de um “menino diabo” sob o olhar complacente e risonho do patriarca. Décadas depois, a narrativa desnuda o fracasso de qualquer verniz civilizatório quando Prudêncio, já alforriado, é flagrado na praça do Valongo surrando outro negro escravizado que havia comprado, reproduzindo sem filtros a violência estrutural do Império.
  • A “Fraseologia Polida” e a Eloquência de Fachada (Capítulo 24): Sob a ótica da crítica sociológica, o próprio idioma da classe dominante é denunciado como um grande eufemismo ornamental. Na Universidade de Coimbra, os filhos da oligarquia absorvem apenas o “esqueleto inútil das ciências” e uma “fraseologia polida” guardada para “despesas de conversação” nos salões da Corte. Essa retórica artificial — qualificada no Capítulo 9 como “tesa, engomada e chocha” — culmina na futilidade parlamentar em que Brás Cubas propõe reduzir duas polegadas da barretina da guarda nacional mediante comparações floridas entre palmeiras e chorões.

EUFEMISMO MORAL E MUNDANO: A “AMÁVEL FORMALIDADE” E A HIGIENIZAÇÃO DO ADULTÉRIO

  • A Teoria da “Amável Formalidade” e o Véu das Damas Turcas: Em uma de suas digressões mais penetrantes, ao aproximar o comportamento de Damasceno do costume das mulheres muçulmanas, o narrador formula a própria teoria do eufemismo social através da alegoria da “Amável Formalidade”. Assim como as damas turcas cobrem o rosto com um “véu tenuíssimo”, que simula descobrir apenas os olhos para cumprir o preceito religioso, mas na realidade exibe a face inteira, a elite fluminense utiliza a formalidade polida como “o bordão da vida, o bálsamo dos corações, a medianeira entre os homens”, acomodando a consciência e substituindo a verdade espiritual pela aparência da letra que “dá vida”.
  • O Estrangeirismo como Eufemismo Cosmopolita (“Luncheon” e a Casinha da Gamboa): No Capítulo 73, a transgressão moral do adultério entre o protagonista e Virgília é despida de seu nome cru e suavizada pelo anglicismo esnobe “luncheon”, vocábulo estrangeiro que empresta um verniz aristocrático e higiênico aos encontros carnais clandestinos. De modo análogo, o espaço físico da traição na casinha da Gamboa é moralmente maquiado pela compra da miséria de Dona Plácida, que aceita o papel de suposta dona da casa e guardiã da honra alheia para blindar os amantes contra a opinião pública.
  • A “Boa Fatuidade” Masculina e o Decoro Político de Lobo Neves: Ao examinar a psicologia dos amores proibidos, o narrador batiza a indiscrição vaidosa do homem que conquista a mulher alheia com o eufemismo irônico de uma “boa fatuidade, que é a transpiração luminosa do mérito”, ao passo que define ironicamente a discrição feminina como um “verdadeiro sepulcro” que acaba denunciado pelo latido do cachorrinho da rainha de Navarra. Quando o caso é finalmente denunciado por uma carta anônima nos Capítulos 99 e 100, o marido traído, Lobo Neves, adota o eufemismo comportamental supremo: mantém a tranquilidade polida no camarote do teatro e encerra o adultério sem derramamento de sangue e sem escândalo aberto, preservando a fachada respeitável de “homem público”.
  • A “Flor da Moita”, a Contabilidade dos Afetos e o Princípio de Helvétius: O vocabulário eufemístico e metafórico também recobre os estigmas morais e a mercantilização das relações na Corte. A jovem Eugênia, filha ilegítima concebida no flagrante adúltero entre o Dr. Vilaça e Dona Eusébia atrás dos arbustos na festa de 1814, tem sua bastardia simultaneamente suavizada e estigmatizada pelo epíteto botânico de “flor da moita”. Quando o protagonista a descarta por ser coxa de nascença e mais tarde a renega num baile, a narrativa ironiza os disfarces morais do egoísmo por meio de paródias bíblicas — como Bem-aventurados os que não descem (Capítulo 33) e O Caminho de Damasco (Capítulo 35) — e da redução analítica da filosofia de Helvétius (Capítulo 133) a um reflexo pequenino de vaidade masculina. Em contrapartida, os eufemismos sentimentais que encobriam o interesse da cortesã Marcela (“a flor das graças”) e a oratória fúnebre do “fiel da última hora” no cemitério (que louvava o “belo caráter” do defunto sob a chuvinha miúda) são brutalmente desfeitos pela contabilidade seca dos “onze contos de réis” e das “vinte apólices” de herança.

 

EUFEMISMO FILOSÓFICO E CIENTÍFICO: O “EMPLASTO” E A JUSTIFICAÇÃO DO MAL NO “HUMANITISMO”

  • A Filantropia Eufemística do “Emplasto Brás Cubas”: No campo das ambições intelectuais, a megalomania narcísica do protagonista na velhice — movida pelo “amor da glória” e pela sede mesquinha de ver o próprio nome estampado em caixinhas de remédio, prospectos e jornais — é apresentada sob o disfarce eufemístico, cristão e caridoso do “Emplasto Brás Cubas”, uma panaceia destinada a aliviar a “melancolia da humanidade”. Até o fiasco biológico de sua morte por pneumonia, contraída após apanhar um banal golpe de ar, é transfigurado eufemisticamente pelo narrador como o desfecho sublime de quem morreu devido a uma “ideia grandiosa e útil”.
  • A Eufemização Dogmática da Barbárie no “Humanitismo”: Na sátira ao cientificismo oitocentista, ao positivismo e ao darwinismo social, o sistema filosófico do “Humanitismo”, criado por Quincas Borba, funciona como uma gigantesca engrenagem de eufemização metafísica do sofrimento humano. Para justificar a lei do mais forte e anestesiar a consciência moral, a doutrina borbiana rebatiza a inveja eufemisticamente como “uma virtude” salutar e suaviza tragédias coletivas — como a guerra, a fome, o trabalho do africano escravizado trazido de Angola para plantar o milho que nutre o frango assado e a briga sanguinária de dois cães famintos por um osso sem carne (Capítulo 122) — como meros “estalares de dedos” ou operações estéticas da substância universal (Humanitas), antes que o próprio filósofo sucumba à mendicância e à demência total.

 

EUFEMISMO TANATOLÓGICO, METALINGUÍSTICO E ONTOLÓGICO: A MORTE, O LIVRO E O “PEQUENO SALDO”

  • O Tabu da Morte Suavizado (“Outro Berço”, Undiscovered Country e “Formosa Ruína”): Na esfera tanatológica, onde o eufemismo tradicionalmente atua para amenizar o pavor da finitude, o romance subverte os clichês fúnebres por meio do humor negro. Logo no Capítulo I (Óbito do Autor), o túmulo é eufemizado na metáfora de que a campa foi um “outro berço” para o “defunto autor”, enquanto a agonia final aos sessenta e quatro anos, em agosto de 1869, é descrita pela alusão ao “undiscovered country” (o país desconhecido de Hamlet) e comparada à saída pausada e trôpega de um espectador que deixa o teatro “tarde e aborrecido”. De modo similar, a degradação biológica da velhice de Virgília à beira do leito de morte do ex-amante é suavizada pelo oxímoro eufemístico de uma “formosa ruína” diante da qual restam apenas “corações murchos”, ao passo que o golpe da morte súbita da jovem Nhã-loló por febre amarela é ironicamente preparado pelo capítulo-ponte Vá de Intermédio (Capítulo 124) antes de ser reduzido ao seco epitáfio em cruz do Capítulo 125.
  • Eufemismo Metalinguístico (“Rabugens de Pessimismo” e “Coisa Neutra”): Ao definir a própria obra, o narrador recorre ao eufemismo redutor (articulado à lítotes e à meiose) para dissimular a potência corrosiva de sua crítica. No prólogo da terceira edição, ao filiar o romance à “forma livre” de Laurence Sterne e Xavier de Maistre, ele atenua o profundo amargor do livro afirmando apenas que “não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo”. No Capítulo 4 (A Ideia Fixa), o texto autodefine-se eufemisticamente como uma inofensiva “coisa neutra”, que “não edifica nem destrói, não inflama nem regela”, situando-se comodamente como “mais do que passatempo e menos do que apostolado”.
  • O “Pequeno Saldo” em Das Negativas (Capítulo 160): O ápice filosófico do eufemismo atenuador consolida-se no capítulo final do romance, “Das Negativas”. Após contabilizar o malogro de todas as suas vaidades terrenas — não inventou o emplasto, não foi ministro, não casou — e a sorte aristocrática de não ter precisado comprar o pão com o suor do próprio rosto, Brás Cubas anuncia ter encontrado na soma de seus nadas um “pequeno saldo” final. Sob a ótica da teoria literária, a expressão “pequeno saldo” opera como um eufemismo contábil e irônico para designar uma vitória ontológica imensa sob a lente do pessimismo de Arthur Schopenhauer: a recusa em perpetuar a “errata pensante” da existência humana — já prefigurada no aborto silencioso contemplado diante das “laranjeiras estéreis” (Capítulo 95) —, eternizada na sentença de não ter tido filhos e não ter transmitido a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.

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