Análise Literária

Protagonista

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Antagonista


💡 O protagonista é o personagem principal e a figura central de uma obra literária, sendo ele quem ativamente impulsiona o enredo, tomando as decisões que fazem a história avançar.

 

O protagonista de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” é o próprio Brás Cubas, que elege a inusitada e revolucionária condição de “defunto autor” para relatar a sua biografia a partir do além-túmulo, subvertendo toda a estrutura literária convencional do século XIX.

Essa perspectiva póstuma garante ao narrador uma liberdade existencial e ontológica irrestrita, libertando-o do crivo ético, do julgamento burguês e da censura moral da sociedade de sua época.

Ao escrever confessadamente com a “pena da galhofa e a tinta da melancolia”, a personagem utiliza o humor negro e o escárnio para mascarar a tragédia e a vacuidade de sua própria existência.

A fragmentação da sua narrativa, repleta de saltos, digressões e inspirada na forma livre de autores como Laurence Sterne e Xavier de Maistre, funciona como um espelho de sua própria volubilidade e inconstância mental.

 

Radiografia do Patrimonialismo e a Futilidade Escravocrata

Nascido no ano de 1805, o protagonista retrata com exatidão o arquetípico homem rico da aristocracia fluminense, vivendo inteiramente financiado pela herança paterna e nutrindo uma profunda aversão a qualquer forma de trabalho produtivo.

A sua formação atua como um microcosmo da elite escravocrata do Império, que repudiava o esforço braçal e escondia obsessivamente as suas origens populares.

Essa vergonha de classe culmina na falsificação de sua árvore genealógica, quando o pai decide apagar o autêntico ancestral da família, Damião Cubas, que havia sido um modesto e laborioso tanoeiro.

Para forjar uma linhagem ilustre e fidalga, inventou-se um ardiloso trocadilho (“calembour”) alegando que o apelido derivava de um cavaleiro épico que roubara trezentas cubas aos mouros na África.

A crueldade despótica é naturalizada desde a tenra infância, fase em que o menino, apelidado de “menino diabo”, explorava sadicamente o jovem negro escravizado Prudêncio.

O protagonista forçava Prudêncio a atuar como seu cavalo de montaria, governando a criança sob o domínio de cordéis e pancadas de varinhas, consolidando o narcisismo de um adulto que enxergaria as pessoas como meros instrumentos utilitários.

 

A Mercantilização dos Afetos: Marcela, Eugênia e Virgília

A trajetória amorosa da personagem opera uma demolição implacável do ideal romântico, rebaixando as paixões a meras transações financeiras, conveniências de status e vaidades sociais.

Na juventude, a atração desenfreada pela elegante cortesã Marcela escancara a precificação do desejo, custando a exorbitante fortuna paterna de “onze contos de réis” ao longo de efêmeros quinze meses.

A submissão de Brás Cubas à tirania das aparências é comprovada na cruel rejeição de Eugênia, a meiga “flor da moita”.

Apesar de reconhecer a beleza e os talentos musicais da jovem, ele afasta-se unicamente por covardia estética e elitismo, visto que a moça possuía o estigma de ser coxa de nascença.

O grande caso de sua vida adulta com Virgília consolida-se através do adultério, pois a moça age com pragmatismo e escolhe casar-se com o político Lobo Neves para garantir a sólida promessa de se tornar marquesa.

O romance extraconjugal ocorre clandestinamente numa casa na Gamboa, acobertado pelo sacrifício miserável da idosa Dona Plácida, sendo sustentado mais pelo medo paralisante do escândalo público do que por um impulso afetivo autêntico.

 

Inépcia Política e a Megalomania do Emplasto

O trânsito do personagem pelas esferas do poder demonstra uma absoluta vacuidade de liderança, pautando-se inteiramente pela farsa e pela inépcia política.

Em sua parca atuação parlamentar, a sua maior contribuição como estadista resume-se a um discurso fútil que propunha a redução do tamanho da barretina da guarda nacional, embasado em vaidades anti-higiênicas e comparações superficiais.

Durante a velhice, preenchendo a mente vazia com delírios de grandeza, ele decide despender as suas energias na invenção do “Emplasto Brás Cubas”, um medicamento idealizado, em teoria, para curar a melancolia da humanidade.

O verdadeiro e cínico motor por trás dessa invenção não possuía raízes filantrópicas, mas sim a necessidade do egoísta “amor da glória” e o desejo vaidoso de estampar o próprio nome nas caixinhas de remédio e nas esquinas.

Cegado por essa alucinação de fama póstuma, ele ignora os cuidados de saúde, recebe um golpe de ar fatal e acaba morrendo em decorrência de uma pneumonia em agosto de 1869, aos sessenta e quatro anos.

 

Pessimismo Niilista e o Saldo do Capítulo “Das Negativas”

Após somar todas as omissões de sua vida, o narrador constata de maneira letárgica que falhou em ser ministro de Estado, que não alcançou a notoriedade almejada com o emplasto e que não obteve um casamento.

Nesse inventário de existências vazias e inoperantes, a personagem celebra cinicamente o seu único e incontestável triunfo perante o universo: o fato de não ter gerado descendentes.

Ao recusar-se a repassar a qualquer nova criatura o legado amargo e o fardo ininterrupto da miséria humana, ele consagra a inação e a aniquilação como os seus maiores trunfos existenciais.

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