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Protagonista
A biografia da personagem é desenhada sob o peso de um determinismo social implacável, onde a pobreza e o sofrimento são herdados como uma condição crônica.
Dona Plácida nasceu como o fruto indesejado de uma luxúria passageira e ilícita ocorrida entre um sacristão da Sé e uma mulher que trabalhava como doceira.
A personagem perdeu o pai de forma precoce, quando contava com apenas dez anos de idade, sendo obrigada a trabalhar desde a infância ralando coco e auxiliando nos ofícios da mãe.
Ainda muito jovem, entre os quinze e dezesseis anos, ela casou-se com um alfaiate que faleceu vítima de tuberculose pouco tempo depois.
A viuvez repentina impôs-lhe o fardo de sustentar de forma solitária uma filha pequena de dois anos e a sua mãe já idosa e cansada do trabalho.
A sua vida adulta foi inteiramente pautada por ininterruptas privações miseráveis, lutos severos e doenças constantes.
Para garantir a sobrevivência de sua família e evitar a mendicância, ela submeteu-se a uma extrema exploração laboral, queimando os dedos ininterruptamente nos tachos de doces e esgotando os olhos à luz do candeeiro para entregar costuras de dia e de noite.
O ponto de virada na trajetória de Dona Plácida ocorre quando a miséria atinge o seu ápice orgânico, forçando-a a mercantilizar os próprios princípios em favor da sobrevivência imposta pelos caprichos da elite fluminense.
Encurralada pelo avanço decadente de sua saúde na velhice e premida pelo fantasma da fome iminente, ela vê-se desamparada e forçada a rasgar o seu longo passado de honradez moral.
Cedendo à tentação financeira para conquistar um abrigo seguro, ela aceita o papel indigno e humilhante de atuar como a zeladora da casa clandestina alugada no bairro pacato da Gamboa.
Na referida casa, a idosa passa a acobertar de forma resignada os ardentes encontros adúlteros protagonizados por Brás Cubas e Virgília.
A narrativa revela o custo psicológico desse pacto corrompido, evidenciando que ela tinha nojo de si mesma nos primeiros meses, chorando em segredo e mantendo os olhos baixos e tristes perante o protagonista.
Contudo, a personagem logo abdica de seus escrúpulos e assimila as conveniências do jogo social, chegando a fantasiar e aceitar falsas justificativas românticas criadas por Brás Cubas para apaziguar a própria consciência.
A sua trajetória comprova estruturalmente que, aos olhos das elites dominantes, as populações fragilizadas e subalternas operavam de forma subserviente, sendo tratadas meramente como ferramentas utilitárias e passageiras para saciar os desejos luxuriosos da classe hegemônica.
A presença subjugada da personagem atua como o grande motor para as reflexões mais cínicas e niilistas do narrador, revelando a total ausência de empatia estrutural da aristocracia perante as tragédias das classes marginais.
Ao refletir internamente sobre ter rebaixado a velha senhora à indignidade de atuar como medianeira de uma concubina, o protagonista sofre um rápido repelão de culpa na consciência.
Esse breve peso moral é instantaneamente dissipado por uma justificativa egoísta, onde o narrador argumenta a si mesmo que o acordo financeiro oferecido a salvou de terminar a vida na lama da mendicância.
A partir desse raciocínio, Brás Cubas forja a premissa filosófica cínica de que “o vício é muitas vezes o estrume da virtude”.
Em um de seus discursos silenciosos, o protagonista questiona com deboche o propósito existencial de Dona Plácida, concluindo cruelmente que ela foi chamada à luz do mundo unicamente para queimar os dedos no fogo, adoecer, sarar e sofrer ininterruptamente.
Após o óbito da idosa, o “defunto autor” encerra a avaliação ontológica da personagem resumindo toda a sua vida biológica a uma “utilidade relativa”, atestando que ela existiu puramente para impedir que os seus amores de juventude fossem interrompidos.
Mesmo possuindo a promessa ilusória de estabilidade providenciada pelas esmolas da classe burguesa, o desfecho da personagem reafirma o seu destino trágico e o fracasso iminente das falsas garantias sociais.
Como agradecimento pelo silêncio, Brás Cubas presenteia a zeladora com um pecúlio provisório de cinco contos de réis (encontrados em Botafogo) para amparar a sua velhice.
No entanto, a senhora idosa é alvo da cobiça e deposita sua confiança de forma ingênua nas mãos cruéis de um trabalhador da vizinhança, um oportunista falso canteiro.
O homem seduz Dona Plácida, casa-se formalmente com ela e, decorridos alguns meses, forja um falso negócio para vender as suas apólices, fugindo covardemente com todo o seu dinheiro.
Tempos depois, Brás Cubas recebe um pedido secreto de Virgília e descobre que a antiga confidente encontra-se largada à morte, reduzida a um molho de ossos em um casebre insalubre, fétido e nauseabundo.
Após uma hesitação fria e calculista sobre prestar ou não socorro, o protagonista ordena a transferência da mulher agonizante para as instalações públicas da Santa Casa da Misericórdia.
Dona Plácida sai da vida às escondidas da mesma forma anônima que entrou, falecendo completamente desamparada na indigência das vias médicas caridosas e gratuitas do hospital poucos dias após o seu internamento.

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