Lista dos personagens
O protagonista nasce e forma-se no seio da aristocracia fluminense no ano de 1805, representando o arquetípico homem rico do Brasil Imperial que vive financiado pela herança e se mantém avesso a qualquer forma de trabalho produtivo.
A sua trajetória atua como um microcosmo impiedoso da elite escravocrata do século XIX, uma classe que normalizava a barbárie e repudiava ativamente as origens associadas ao esforço braçal.
Esse rechaço social pelo trabalho suado é exemplificado pela imensa vergonha que a família sentia de seu autêntico ancestral, Damião Cubas, um laborioso e humilde tanoeiro.
Para apagar a mácula e o estigma dessa origem plebeia, o pai de Brás forjou uma falsa narrativa de fidalguia, inventando por meio de um trocadilho (“calembour“) que o apelido familiar derivava de um cavaleiro épico que roubara trezentas cubas aos mouros na África.
Esse cinismo hereditário e estrutural molda a psique do protagonista desde a mais tenra idade, época em que ele, apelidado de “menino diabo“, explorava sadicamente o menino escravizado Prudêncio.
Ele transformava a criança cativa em seu cavalo de montaria, guiando-a com cordéis e pancadas de varinhas sob o olhar permissivo e complacente do patriarca, o que traduz a absorção precoce da lógica despótica e opressora do sistema escravagista.
O desenvolvimento do personagem Brás Cubas rumo à fase adulta é marcado por uma extrema superficialidade estética, intelectual e emocional.
O afeto e a paixão, distantes de qualquer pureza idealizada fomentada pelo Romantismo, são constantemente rebaixados na obra a utilitarismos, transações de status ou puros interesses financeiros.
Na juventude, ele vive um romance intenso e corrosivo com Marcela, uma elegante cortesã cujo amor era condicionado ao capital e custou aos cofres de seu pai o exorbitante montante de “onze contos de réis” ao longo de efêmeros quinze meses.
Como punição e resposta direta a essa devassidão boêmia, ele é despachado de forma forçada para a Universidade de Coimbra, em Portugal, onde conquista o diploma de bacharel sem abandonar o seu diletantismo.
Ao retornar à sociedade fluminense, a sua total submissão à tirania das aparências burguesas evidencia-se quando ele rejeita a jovem Eugênia, apelidada de “flor da moita”.
Apesar de considerá-la bela e detentora de talentos e dotes musicais singelos no cravo, ele afasta-se dela movido unicamente por covardia estética, simplesmente porque a moça possuía o grande defeito de ser coxa de nascença.
O percurso de Brás Cubas pelas esferas do poder imperial é invariavelmente pautado pela vacuidade de propósitos e pela farsa política.
Em sua fraca tentativa parlamentar, a sua maior e ridícula contribuição como estadista resume-se a um modesto discurso no qual ele propõe diminuir o tamanho da barretina da guarda nacional, fundamentando-se em vaidades anti-higiênicas e em comparações superficiais envolvendo palmeiras e chorões.
No campo das alianças matrimoniais, ele é preterido por Virgília, que escolhe casar-se pragmaticamente com o político Lobo Neves para garantir para si a promessa de se tornar uma marquesa no futuro.
Não obstante o matrimônio oficial da mulher, o protagonista estabelece com Virgília um longo e intenso relacionamento adúltero, vivenciado às escondidas numa casa no bairro da Gamboa, com o auxílio da miserável Dona Plácida.
Esse romance ilícito expõe a suprema hipocrisia moral das elites oitocentistas, visto que a maior preocupação dos amantes não era a transgressão ética da traição em si, mas sim o terror vigilante e paralisante de que o escândalo pudesse ser descoberto pela opinião pública.
A ação descendente da biografia do personagem consolida-se irreversivelmente com a sua velhice, etapa marcada pelo distanciamento das antigas paixões e pela inércia perante a ausência de um legado concreto.
Preenchendo a mente vazia com ideias fixas e delírios de grandeza, ele decide despender suas últimas energias na invenção do “Emplasto Brás Cubas“, um tônico farmacêutico idealizado teoricamente para aliviar a melancolia da humanidade.
Contudo, a verdadeira e cínica força motriz por trás dessa grande invenção não possuía raízes na filantropia cristã, mas no egoísta “amor da glória” e na necessidade vaidosa de estampar o seu próprio nome em jornais e nas caixinhas do medicamento.
Cegado por essa alucinação de fama póstuma, ele ignora os cuidados básicos com a própria saúde, recebe um golpe de ar fatal no corpo e acaba morrendo em decorrência de uma pneumonia em agosto de 1869, aos sessenta e quatro anos.
Ao eleger relatar as memórias da sua vida após a morte biológica, o protagonista instaura a figura subversiva e revolucionária do “defunto autor“, garantindo uma libertação existencial e ontológica irrestrita na qual a campa foi o seu outro berço.
Livre do crivo ético, da censura burguesa e da obrigação de prestar contas à sociedade, a voz narrativa assume um escárnio inaudito, redigindo a obra confessadamente com a pena da galhofa e a tinta da melancolia.
A conclusão de toda a sua trajetória é dominada por um denso pessimismo e ceticismo de ordem schopenhaueriana, fato expresso de forma categórica e aritmética no balanço existencial do “Capítulo das Negativas“.
Ao constatar que falhou em ser ministro, que não obteve a notoriedade do emplasto e que não casou, Brás Cubas celebra de forma melancólica o seu único e incontestável triunfo no universo: o de não ter gerado descendentes e, por consequência biológica, o de recusar-se a repassar a qualquer nova criatura o legado amargo e o fardo da miséria humana.

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