💡 A sinestesia é uma figura de linguagem que consiste na combinação de diferentes sensações físicas, percebidas por órgãos de sentidos distintos, em uma única expressão (“cheiro doce” ou uma “voz áspera”).
A “VOZ DE LÍRIO”
O exemplo mais famoso e debatido de sinestesia em toda a obra de Homero ocorre no Canto III. Ao descrever os anciãos de Troia (incluindo o rei Príamo) sentados nas muralhas da cidade, Homero os compara a cigarras pousadas em uma árvore, emitindo uma “voz de lírio” (ópa leirióessan). O poeta aplica o adjetivo de uma flor (o lírio, associado à cor branca, à delicadeza visual e a um aroma adocicado) para descrever um som. Isso transmite a ideia de uma voz que, embora frágil e envelhecida (como o som contínuo e agudo das cigarras), é ao mesmo tempo refinada, pura e contínua. É a transformação da eloquência da velhice em algo fisicamente belo e delicado.
PALAVRAS COM SABOR DE MEL
Homero frequentemente cruza o sentido da audição com o do paladar para enfatizar a qualidade persuasiva de um discurso. O exemplo clássico está no Canto I, ao introduzir Nestor, o sábio e idoso rei de Pilos:
“Dessa língua fluía uma voz mais doce do que o mel.”
A voz (som) ganha textura (fluidez) e sabor (a doçura do mel). Em uma sociedade bélica, onde a força física é primordial, a sabedoria oratória de Nestor é retratada como algo que “alimenta” e acalma os guerreiros, oferecendo um contraste gustativo/auditivo à aspereza do campo de batalha.
O ESTRONDO LUMINOSO DA GUERRA
A guerra na Ilíada é descrita como um ataque sensorial total. Homero frequentemente funde o clarão ofuscante das armas com o barulho ensurdecedor dos combates, criando um efeito onde a luz parece gritar e o som parece brilhar. O metal das armas é frequentemente descrito com atributos sonoros e visuais simultâneos. O brilho ofuscante do bronze (refletindo o sol) é inseparável do seu retinir no escudo do inimigo. Quando Aquiles recebe sua nova armadura forjada por Hefesto (Canto XIX), a luz que emana do escudo e do capacete é tão intensa que os mirmidões não conseguem olhar diretamente para ela, e esse brilho é descrito em conjunto com o ranger estrondoso das peças. É um choque sensorial que anuncia a morte iminente.
A TEXTURA E O PESO DA ESCURIDÃO
O momento da morte ou do ferimento grave na Ilíada é quase sempre descrito através de uma sinestesia que mistura a perda da visão com uma sensação tátil esmagadora. Homero usa repetidamente fórmulas como “e uma noite negra cobriu seus olhos” ou “uma nuvem escura envolveu-o”. A escuridão não é apenas a ausência de luz (visual); ela é descrita como algo que pesa, que agarra ou que envolve o guerreiro como um manto pesado (tátil). O abstrato (a morte) torna-se uma entidade física que asfixia os sentidos.