💡 O eufemismo é uma figura de linguagem empregada para suavizar o sentido de expressões consideradas rudes, desagradáveis ou muito chocantes.
O AFROUXAMENTO E A QUEDA
Em vez de declarar secamente “ele foi morto”, Homero foca na perda da tensão vital, o momento em que a força e a energia abandonam o guerreiro.
“Soltaram-se-lhe os membros” (λύσε δὲ γυῖα / lyse de guia): Esta é uma das fórmulas mais recorrentes do poema. A morte é descrita como um relaxamento fatal dos músculos e joelhos, que antes sustentavam o herói.
“Cair no pó”: Expressões como “tombou de costas no pó, estendendo as mãos aos companheiros”, ou a própria origem da expressão “morder o pó” (quando os dentes do guerreiro caído trincam a terra do campo de batalha), substituem a morte por uma ação física inevitável de submissão à gravidade.
A MORTE COMO SONO
Na mitologia presente na Ilíada (especialmente no Canto XVI), a Morte (Thanatos) e o Sono (Hypnos) são personificados como irmãos gêmeos, o que fundamenta um dos eufemismos mais poéticos e universais da literatura.
O “sono de bronze”: No Canto XI, ao descrever a morte do jovem troiano Ifidamas, Homero narra que ele “caiu e dormiu o sono de bronze”. O eufemismo do “sono” cria uma imagem de paz e descanso, mas o adjetivo “bronze” (ou férreo) quebra essa ilusão, denotando a rigidez, o frio e a irreversibilidade eterna desse estado.
A ESCURIDÃO E A NÉVOA
A perda da visão é o eufemismo sensorial definitivo para o fim da vida no épico homérico. O mundo dos vivos é associado à claridade e à visão.
A “negra nuvem”: É comum ler que “a negra nuvem da morte o envolveu” (θανάτου δὲ μέλαν νέφος ἀμφεκάλυψεν), retratando a morte como uma névoa física que cobre os olhos do guerreiro, roubando-lhe a luz.
Deixar a “luz do sol”: Viver é ver o sol. Morrer é, eufemisticamente, “abandonar a luz do sol”, marcando a transição para a escuridão perpétua.
A JORNADA PARA O INVISÍVEL
Homero raramente fala de aniquilação total ou do fim absoluto da consciência; a morte é descrita como uma transição para o submundo.
O “esvoaçar da psique”: A alma (ou sopro vital, a psique) é descrita escapando pelos ferimentos ou pela boca do guerreiro, voando em direção à morada de Hades e “chorando a sua juventude e vigor perdidos”.
Descer ao Hades: O próprio nome Hades significa etimologicamente “o invisível”. Ir para a casa de Hades é um eufemismo geográfico para deixar o mundo dos vivos e entrar na invisibilidade.
A função dupla do eufemismo homérico: Além de suavizar a brutalidade da guerra e construir o clima de tragédia, essas frases funcionavam como fórmulas poéticas flexíveis. Como a Ilíada tem origem na tradição oral, os bardos (aedos) usavam essas expressões pré-fabricadas porque elas se encaixavam perfeitamente na rígida métrica do hexâmetro datílico grego, permitindo que o poema fluísse musicalmente de memória.