💡 Símile é uma figura de linguagem que estabelece uma relação explícita de semelhança entre dois elementos distintos. Diferentemente da metáfora, utiliza-se obrigatoriamente termos conectivos em sua construção, como as palavras “como”, “tal qual”, “parece” ou “assim como”.
SÍMILE HOMÉRICO
Diferente de uma comparação simples (“ele lutou como um leão”), o símile homérico é estendido e detalhado. Homero introduz a comparação com palavras como “assim como” ou “tal como” e, em seguida, desvia a atenção da batalha para descrever uma cena complexa, muitas vezes ocupando várias linhas (ou até dezenas delas), antes de retornar à narrativa principal com “assim também…”.
PRINCIPAIS FUNÇÕES NA ILÍADA
Amplificação do Heroísmo: Elevam as ações dos guerreiros (como Aquiles, Heitor ou Diomedes) a uma escala mítica ou forças da natureza irrefreáveis.
Alívio Dramático (Contraste): A Ilíada é uma obra focada quase inteiramente na brutalidade da guerra. Os símiles trazem imagens de paz, agricultura, vida pastoral e da natureza, lembrando o leitor (ou ouvinte) do mundo normal que a guerra destrói.
Ilustração Visual e Emocional: Ajudam a audiência a visualizar a intensidade do caos bélico traduzindo-o para experiências cotidianas conhecidas.
TEMAS MAIS RECORRENTES
Homero utilizava um repertório específico de imagens para descrever diferentes situações no campo de batalha.
Leões e Predadores: Geralmente representam guerreiros formidáveis (gregos ou troianos), a fúria e o instinto cego de sobrevivência. Na prática, essa imagem é usada para descrever um herói que salta ferozmente sobre as fileiras inimigas ou que protege o corpo de um aliado caído.
Forças da Natureza: Simbolizam o movimento de exércitos inteiros, o choque brutal das falanges ou a própria ira divina. A aplicação comum inclui comparar o caos da batalha a um rio que transborda, a incêndios florestais incontroláveis ou a tempestades arrastando exércitos.
Fenômenos Celestiais: São usados para indicar presságios mortais, o brilho ofuscante das armaduras ou a presença de divindades. Um exemplo clássico é a comparação de guerreiros (como Aquiles) a uma estrela brilhante no céu prenunciando a morte e a desgraça.
Animais Pequenos e Insetos: Ilustram o som dos exércitos se reunindo, a persistência das tropas e o caos ordenado da guerra. Homero costuma aplicar esse tema ao comparar a aglomeração barulhenta de soldados a um enxame de abelhas ou a moscas voando ao redor de baldes de leite.
Agricultura e Cotidiano: Evocam a vulnerabilidade humana, o trabalho braçal e a efemeridade da vida. Uma aplicação recorrente e marcante é a imagem de ceifeiros cortando o trigo no campo para descrever as fileiras de homens sendo ceifadas e derrubadas sistematicamente na batalha.
EXEMPLOS
Aqui estão alguns dos símiles mais notáveis que ilustram o domínio de Homero sobre essa técnica:
Aquiles como a Estrela Cão
No Canto XXII, quando Aquiles corre em direção a Troia para enfrentar Heitor, o velho rei Príamo o vê de longe. Homero compara o brilho da armadura de Aquiles à estrela Sirius:
“O velho Príamo foi o primeiro a vê-lo com os próprios olhos, brilhando como aquela estrela à medida que avançava pela planície, a estrela do outono cujos raios se destacam entre muitas estrelas na escuridão da noite, a qual chamam o Cão de Órion. Ela é a mais brilhante de todas, mas é um sinal de mau agouro, pois traz muita febre para os homens infelizes; assim brilhava o bronze no peito de Aquiles enquanto corria.”
A Queda de uma Árvore
Nos Cantos IV e XVI, quando um jovem guerreiro é morto, Homero frequentemente o compara a uma bela árvore cultivada cortada em seu auge para fazer a roda de uma carruagem ou o mastro de um navio. Isso destaca o desperdício de jovens vidas e a tragédia para seus pais (que plantaram a “árvore”).
Apolo como uma Criança Brincando
No Canto XV, quando o deus Apolo destrói facilmente as formidáveis muralhas e trincheiras defensivas construídas pelos aqueus, Homero usa uma cena perfeitamente doméstica para mostrar a imensa diferença de poder entre deuses e homens:
“Assim ele derrubou o muro dos aqueus de forma tão fácil quanto uma criança brincando na areia da praia, que constrói castelos de areia por diversão e depois os destrói com as mãos e os pés, só por capricho.”
Ájax como um Burro Teimoso
No Canto XI, para descrever a retirada lenta, obstinada e relutante do grande Ájax de Telamon diante de uma força esmagadora de troianos, Homero usa uma comparação surpreendentemente humilde:
“Como quando um burro teimoso passa por um campo de grãos e as crianças, com seus paus quebrando em suas costas, não conseguem enxotá-lo até que ele tenha comido o quanto quiser; assim também os corajosos troianos e seus aliados batiam no meio do escudo do grande Ájax…”

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