Personagens

Análise de Aquiles

Visão Geral da história de Aquiles
Aquiles é o personagem principal da Ilíada, filho de Tétis e Peleu (daí seu apelido de pelida ou peleio), que era o rei de Fítia, na Tessália. Tétis, que é filha de Oceano, tentava conceder a imortalidade a seus filhos, mas para isso, ela os matava. No sétimo filho, por outro lado, a deusa decide mergulhá-lo no rio Stix, segurando-o pelos calcanhares, o que o torna invulnerável em todo o corpo, exceto nessa área. Em outras narrativas, ele é frequentemente descrito como sendo ensinado por Fenice ou pelo centauro Quíron, que reside no alto do monte Pélio. Com Quíron, descobre a tocar lira e ouve as narrativas sobre as antigas virtudes, como o desprezo pelos bens materiais, aversão à mentira, um senso de moderação, resistência às paixões e remorso. Também estuda medicina com o centauro, que é um excelente médico. Ainda, é o mais célebre herói da Guerra de Troia, e possivelmente um dos mais grandiosos de toda a Grécia. 

Aquiles, ademais, lidera uma frota de cinquenta navios, todos tripulados por mirmídones. Os poetas trágicos contam a seguinte versão sobre sua ida a Tróia: seu pai, Peleu, ao ouvir de um oráculo que seu filho encontraria a morte perto dos muros de Troia, disfarça-o como uma mulher e o oculta entre as filhas de Licomedes, Ciro, o rei. É lá que se afirma que ele se torna o amante de Deidâmia, a filha de Licomedes, e possui um filho, mas o Destino acaba por conduzir Aquiles a Troia, uma vez que Odisseu ouve de um oráculo que Troia não cairia se Aquiles não fosse junto, e acaba por localizá-lo. 

Há diversas narrativas sobre sua morte; todas elas posteriores aos textos homéricos. Uma dessas versões afirma que Aquiles se enamora da filha de Príamo, Polixena, e revela a Príamo que trairia os gregos se tivesse a oportunidade de se casar com ela. Príamo, em seguida, prepara uma cilada para Aquiles, e Páris o assassina no lugar onde estavam prestes a selar o pacto. Outra versão afirma que, ao atacar os muros de Troia após a morte de Heitor, Apolo adverte Aquiles para que não prossiga, mas ele ignora o aviso, e o deus acaba guiando uma flecha de Páris para o seu calcanhar, seu único ponto vulnerável.

Aquiles na Ilíada: A Anatomia de um Herói Trágico
A Ilíada de Homero não é apenas o relato de algumas semanas no décimo ano da Guerra de Troia; é, fundamentalmente, um estudo psicológico profundo sobre a fúria de Aquiles, sua subsequente desumanização e, por fim, sua redenção. Sendo o maior dos guerreiros aqueus (gregos) e um semideus, Aquiles é o eixo ao redor do qual toda a narrativa e o destino da guerra giram.

A Fúria (mēnis)
Na literatura da Grécia Antiga, este termo é quase exclusivamente reservado para designar a ira cósmica e destrutiva dos deuses. Atribuir mēnis a um mortal estabelece Aquiles como uma força aterradora e isolada. A sua fúria divide-se em duas fases distintas ao longo da obra:

A Fúria do Orgulho Ferido
A ira inicial é direcionada ao comandante grego, Agamenon, que confisca a escrava e troféu de guerra de Aquiles, Briseida. Para Aquiles, isso não é meramente a perda de uma mulher, mas um ataque imperdoável à sua honra pública. Em resposta, ele se retira da batalha, permitindo friamente que seus compatriotas sejam massacrados.

A Fúria do Luto e da Vingança
A segunda fase é desencadeada pela morte de seu companheiro mais amado, Pátroclo, pelas mãos do príncipe troiano Heitor. Esta fúria é cega, existencial e animalesca, levando Aquiles a abandonar qualquer código de guerra e a cometer atrocidades motivadas pelo ódio e pela dor profunda.

Timē e Kléos
Aquiles é a personificação máxima do código heroico homérico, mas também a única figura que tem intelecto e distanciamento suficientes para questioná-lo. Este código é baseado em dois pilares:

Timē (Honra): O valor de um homem medido pelos bens materiais, respeito e espólios de guerra que ele acumula em vida. Quando Agamenon toma Briseida, ele rouba o timē de Aquiles.

Kléos (Glória Imortal): A fama passada de geração em geração através das canções.

Aquiles vive à sombra de uma profecia revelada por sua mãe, a deusa Tétis: ficar em Troia significa morrer jovem, mas conquistar kléos eterno ou retornar à Grécia significa viver uma vida longa e pacífica, mas ser apagado da história.

No célebre Livro IX, durante seu autoexílio em sua tenda, Aquiles experimenta uma crise existencial profunda. Ele rejeita os presentes de Agamenon e questiona a validade do kléos, observando com cinismo que a morte ceifa igualmente o herói corajoso e o covarde que foge da luta.

Pátroclo e a Perda da Humanidade
A morte de Pátroclo — que foi à batalha usando a armadura de Aquiles na tentativa de salvar os gregos — é o ponto de ruptura. Com a perda de sua principal âncora emocional, Aquiles se desliga da comunidade humana. Ele recusa comida, repouso, prazeres e rituais sociais de luto. Ao retornar ao campo de batalha, ele não luta por glória ou lealdade política; ele luta como uma força demoníaca de aniquilação. Ele enfrenta as águas revoltas do rio Escamandro e abate troianos sem piedade. O limite de sua desumanização ocorre após matar Heitor: Aquiles perfura os tornozelos do cadáver, amarra-o à sua carruagem e o arrasta na poeira diante da família do troiano, negando repetidamente a devolução do corpo para os rituais fúnebres sagrados.

O Encontro com Príamo: A Resolução
O verdadeiro clímax psicológico e moral da Ilíada ocorre no Livro XXIV. O velho rei de Troia, Príamo, entra furtivamente no acampamento inimigo, ajoelha-se diante de Aquiles e beija “as mãos terríveis e assassinas que haviam matado tantos de seus filhos”.
Príamo implora pelo corpo de Heitor pedindo que Aquiles se lembre de seu próprio pai idoso, Peleu. Ocorre então uma das cenas mais comoventes da literatura ocidental: Aquiles chora junto com o rei inimigo. Ele reflete sobre a tragédia da condição humana, contando o mito dos dois jarros de Zeus (um com bênçãos, outro com desgraças, que são distribuídos arbitrariamente a todos os mortais). Ele cede, alimentando Príamo, garantindo uma trégua para o funeral e devolvendo o corpo de Heitor.

Nesse ato final de empatia suprema, Aquiles abdica de sua fúria (mēnis) e abraça novamente a sua humanidade, compreendendo que a dor e a perda são os verdadeiros elementos que unem os mortais.
No fim, a Ilíada não termina com a famosa morte de Aquiles pelo calcanhar (que ocorre em outros mitos do Ciclo Épico), mas sim com a sua pacificação espiritual. Ele se consolida como o arquétipo do herói trágico: imensamente poderoso em força física, mas dolorosamente consciente e vítima da fragilidade inerente a todos os homens.