RESUMO
A Aliança entre Cláudio e Laertes e a Ausência de Punição Oficial
O cenário estabelece-se em um aposento dentro do castelo de Elsinore, onde o Rei Cláudio e Laertes dão continuidade a uma conversa iniciada fora de cena. Cláudio assegura a Laertes que é seu aliado e explica que o Príncipe Hamlet foi o verdadeiro assassino do conselheiro Polônio, ressaltando que o ataque letal tinha a própria vida do monarca como alvo principal. Laertes aceita a narrativa do Rei, mas questiona abertamente os motivos pelos quais Cláudio não puniu o príncipe com o rigor da lei diante de crimes tão severos. Cláudio apresenta duas justificativas centrais para sua inação: a profunda devoção da Rainha Gertrudes por seu filho (afirmando que ele, como Rei e marido, não consegue viver senão pelo olhar dela) e o imenso amor que o povo comum da Dinamarca nutre por Hamlet, o que poderia transformar qualquer punição oficial e pública em uma revolta direta contra a coroa. Laertes reafirma a sua fúria pela morte trágica de seu pai e pela loucura de sua irmã, garantindo que sua vingança será executada. Cláudio diz-lhe para não se preocupar, insinuando que já possui medidas em andamento.
ANÁLISE
A cena inicia-se no auge de uma manobra de cooptação política. Cláudio, ameaçado pela insurreição popular liderada por Laertes na cena anterior, utiliza a diplomacia da corte para neutralizar o rebelde, convertendo uma ameaça direta à sua coroa em um instrumento de liquidação de seu inimigo pessoal. Ao convencer Laertes de que ambos compartilham o mesmo adversário, Cláudio exemplifica o uso pragmático do poder estatal, no qual alianças são moldadas pela conveniência tática e pela gestão de danos. A explicação de Cláudio sobre o porquê de não ter processado ou executado Hamlet revela a vulnerabilidade estrutural de seu governo. O monarca é paralisado por duas forças centrais: a dependência emocional/afetiva da Rainha Gertrudes (cuja lealdade o rei não pode se dar ao luxo de perder) e a imensa popularidade de Hamlet entre as massas dinamarquesas. A metáfora implícita é a de que a justiça em Elsinore não é cega nem imparcial, mas subordinada à conveniência política e ao temor de uma guerra civil. Cláudio explora de forma sistemática a vulnerabilidade emocional de Laertes, inflamando sua dor pela morte de Polônio. A busca legítima de Laertes por honra e reparação filial é sutilmente instrumentalizada pela tirania, transformando o jovem impulsivo em um executor terceirizado dos interesses do rei.
A Chegada Inesperada das Cartas de Hamlet
O diálogo é abruptamente interrompido pela entrada de um mensageiro, que entrega a Cláudio cartas recém-chegadas das mãos de marinheiros. O mensageiro informa que há uma correspondência destinada ao Rei e outra à Rainha. Cláudio despede o mensageiro e lê a sua carta em voz alta para Laertes. A correspondência, escrita por Hamlet, informa que o príncipe retornou subitamente à Dinamarca e que foi deixado “nu” (sem posses ou comitiva) nas margens do reino. Ele solicita uma audiência real para o dia seguinte, onde promete explicar as estranhas circunstâncias do seu súbito regresso. Cláudio demonstra perplexidade com a notícia e questiona se os outros passageiros também regressaram. Laertes, por sua vez, alegra-se, vendo no retorno a oportunidade de confrontar o assassino de seu pai presencialmente.
A irrupção do mensageiro portando a correspondência de Hamlet marca o colapso dos planos originais de Cláudio (que previa a execução sumária do príncipe em solo inglês). O retorno não planejado do protagonista introduz a imprevisibilidade da Fortuna na estrutura dramática, frustrando o cálculo maquiavélico do tirano. A brevidade e o tom da carta de Hamlet — ao descrever-se como estando “nu” e “sozinho” no reino — operam como uma provocação calculada. A escolha vocabular insinua despojo de poder material, mas carrega uma ameaça implícita de confronto direto. Hamlet retoma a iniciativa estratégica, forçando o antagonista a reagir no desespero e a acelerar a conspiração. O contraste entre as reações dos conspiradores expõe a clivagem psicológica da cena: enquanto Cláudio é tomado pelo pânico da exposição política, Laertes celebra a oportunidade do confronto presencial, revelando a diferença entre a paranoia prudente do governante e a busca visceral de vingança do guerreiro.
A Arquitetura do Duelo Falsificado
Confirmando o retorno de Hamlet, Cláudio questiona Laertes se ele estaria disposto a seguir um ardil que resultaria na morte do príncipe, fazendo com que pareça um trágico acidente desprovido de qualquer suspeita política, poupando até mesmo o julgamento da Rainha. Laertes concorda de imediato, exigindo apenas ser o instrumento primário dessa execução. Cláudio introduz na conversa a lembrança de um cavalheiro normando chamado Lamord, que visitou a corte dinamarquesa meses antes e teceu elogios extravagantes e públicos à excepcional habilidade de Laertes no manejo do florete. O Rei relata que os elogios feitos ao jovem despertaram uma imensa inveja em Hamlet, que desde então manifestou repetidas vezes o desejo de cruzar espadas desportivamente com Laertes. O monarca propõe a organização de uma exibição atlética no castelo — um torneio amistoso de esgrima entre os dois jovens, promovendo apostas sobre quem será o vencedor. A armadilha consiste no momento em que Laertes escolher a sua arma: em meio às espadas de treinamento (que possuem pontas rombudas e seguras), o Rei sugere que Laertes pegue furtivamente uma espada real, com a ponta afiada e desprotegida, para que possa golpear e ferir Hamlet durante o embate.
A elaboração da armadilha por Cláudio baseia-se em um profundo conhecimento da psicologia dos envolvidos. Ao invocar a visita do cavalheiro normando Lamord e os elogios públicos à esgrima de Laertes, o rei manipula o orgulho atlético do jovem. A menção de que Hamlet nutria inveja de tal perícia serve para atiçar a rivalidade de egos, mascarando o complô assassino sob a forma de uma competição de honra. O duelo de exibição, por definição um espaço de civilidade, esporte e código de honra nobre, é corrompido por dentro. A substituição do florete cego por uma lâmina afiada de combate viola os preceitos fundamentais da etiqueta cortês. A conspiração transforma a arte da esgrima em um ato de assassinato dissimulado. O plano é desenhado para garantir que a morte de Hamlet pareça um trágico acidente desportivo, isentando o Rei de suspeitas públicas e protegendo a relação de Cláudio com Gertrudes. A tragédia revela como as aparências na corte de Elsinore são fabricadas para ocultar a violência estrutural do regime.
A Adição do Veneno Letal à Espada
Laertes aceita a estratégia, mas decide torná-la infalível, adicionando um elemento próprio ao plano arquitetado pelo monarca. Ele revela ter adquirido de um curandeiro saltimbanco um unguento venenoso de potência extrema. Laertes detalha que o veneno é tão letal e concentrado que um simples arranhão na pele é suficiente para causar a morte rápida de um homem adulto, não havendo cataplasma ou antídoto capaz de salvá-lo. O jovem compromete-se a ungir a ponta afiada de sua espada com essa substância mortífera antes do início da luta com o herdeiro.
Laertes não apenas aceita a trapaça proposta pelo rei, como a intensifica ao sugerir a aplicação do unguento mortífero na ponta da lâmina. Este gesto marca a ruína ética do personagem: o jovem que antes protestava contra as honras fúnebres incompletas de seu pai agora recorre ao método mais infame e covarde — o veneno. A introdução da substância venenosa adquirida do curandeiro retoma a imagem central da peça. O veneno que matou o Velho Rei Hamlet no jardim viaja agora metaforicamente e literalmente pelos corredores do castelo, simbolizando a contaminação moral que corrompe todos os que tentam agir fora da ordem ética. Ao garantir que um mero arranhão seja fatal, Laertes constrói a própria armadilha trágica. A obsessão pela certeza absoluta da morte elimina qualquer margem para o perdão ou a redenção, selando o destino de todos os envolvidos no duelo.
O Plano Alternativo de Cláudio: O Cálice Envenenado
Cláudio analisa a eficácia da proposta combinada, porém alerta que, se o plano falhar ou for descoberto durante a execução, o desastre político será iminente. Ele insiste que o arranjo precisa de um método de redundância. O Rei prevê que o esforço e a movimentação intensa do duelo deixarão Hamlet exausto, suado e, inevitavelmente, sedento, fazendo-o solicitar água ou vinho. Cláudio assume a responsabilidade de preparar pessoalmente um cálice de vinho misturado com veneno letal, mantendo-o reservado exclusivamente para quando Hamlet pedir para beber. Dessa forma, caso Laertes falhe em realizar um corte com a lâmina untada, a morte do príncipe será garantida pelo consumo da bebida.
O pragmatismo de Cláudio manifesta-se no estabelecimento de uma medida de segurança adicional (backup plan). Reconhecendo a possibilidade de a espada de Laertes falhar em ferir o príncipe, o rei arquiteta a poisoned chalice (o cálice envenenado) para ser oferecido no momento de exaustão física do combate. A preparação do vinho letal evidencia que Cláudio não possui limites morais na preservação de seu trono. Sua disposição para derramar o veneno diante de toda a corte, e sob os olhos da própria esposa, demonstra a completa reificação humana promovida pela busca obsessiva pelo poder. A criação do cálice envenenado estabelece o dispositivo dramático que culminará no desfecho catastrófico da obra. A redundância idealizada por Cláudio para garantir a morte de Hamlet será o instrumento indireto da destruição de sua própria rainha e de sua própria vida no ato final.
O Relato Trágico da Morte de Ofélia
O detalhamento do plano de assassinato é interrompido pela entrada repentina da Rainha Gertrudes, que traz um anúncio sombrio. Gertrudes comunica que Ofélia morreu afogada. A Rainha narra de maneira extensa e detalhada os últimos momentos da donzela: descreve que Ofélia se dirigiu a um riacho sobre o qual pendia um salgueiro, carregando elaboradas guirlandas de flores campestres, incluindo botões-de-ouro, urtigas, margaridas e orquídeas. Ao tentar se esticar para pendurar as suas coroas de flores nos galhos suspensos da árvore, o ramo em que Ofélia se apoiava cedeu e quebrou-se, lançando-a juntamente com as suas ervas nas águas do riacho. Gertrudes descreve que as vastas vestes de Ofélia se espalharam e inflaram sobre as águas, mantendo-a na superfície como uma sereia. Durante esse tempo, a jovem permaneceu alheia ao próprio perigo, cantando trechos de antigas cantigas, como se pertencesse naturalmente ao elemento aquático. O relato encerra-se com o momento em que as roupas de Ofélia, finalmente encharcadas e pesadas pela água, puxaram a jovem para as profundezas lamacentas, interrompendo a sua melodia e a sua vida.
A narrativa de Gertrudes sobre o afogamento de Ofélia é uma das passagens mais poéticas de toda a dramaturgia elisabetana. A morte da jovem é apresentada não como um suicídio chocante, mas como uma dissolução quase poética e natural no elemento aquático, cercada de flores e cantigas folclóricas. Os elementos vegetais citados por Gertrudes (botões-de-ouro, urtigas, margaridas e orquídeas) carregam uma rica carga simbólica associada à inocência perdida, à dor do desprezo, à dor física e à sexualidade frustrada. A queda do galho de salgueiro no riacho alegoriza a ruptura da sanidade da jovem sob o peso do conflito político entre as famílias. A morte de Ofélia ocorre fora de cena (offstage), sendo filtrada pela voz da Rainha. Essa escolha dramática protege o público da brutalidade crua do ato, transformando o luto em uma pausa lírica e patética que contrasta violentamente com o maquiavelismo sanguinário que vinha sendo arquitetado por Cláudio e Laertes instantes antes.
A Reação de Laertes e a Conclusão da Cena
Laertes, atônito, questiona se a sua irmã está de fato afogada, o que é reiterado com tristeza pela Rainha. Dominado por uma dor excruciante, Laertes lamenta que Ofélia já tenha recebido “água demais” em sua morte e tenta proibir-se de derramar suas próprias lágrimas, embora confesse sua impotência perante a natureza humana do pranto. Incapaz de proferir o discurso enfurecido que começava a tomar forma em sua garganta, Laertes abandona o aposento de forma intempestiva para chorar em solidão. A cena finaliza-se com Cláudio instruindo Gertrudes a acompanhá-lo no encalço de Laertes, justificando que teve muito trabalho para conseguir domar a cólera do jovem e que teme que a morte da irmã faça a rebelião dele explodir novamente.
A resposta de Laertes ao anúncio da morte de sua irmã revela o limite de sua contenção estoica. Ao afirmar que Ofélia já possuiu “água demais”, o jovem estabelece um trocadilho doloroso entre o afogamento literal da irmã e as lágrimas que é incapaz de reprimir, demonstrando que a masculinidade cortês e a fúria guerreira sucumbem perante o trauma absoluto. A dor de Laertes serve como contraponto direto à melancolia de Hamlet. Enquanto Hamlet intelectualiza e adia o luto e a vingança por meio de solilóquios filosóficos, Laertes reage de forma imediata, visceral e violenta. Contudo, essa impulsividade emocional o torna cego às manipulações do rei. A fala final de Cláudio, ao instruir Gertrudes a seguir os passos de Laertes, revela a ausência total de empatia humana do soberano. Cláudio não lamenta a tragédia de Ofélia ou o sofrimento do jovem; sua única preocupação é evitar que a dor de Laertes reacenda a chama da rebelião política que ele levou tanto tempo para apagar, encerrando a cena com a consolidação do controle tirânico sobre as vidas da corte.

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