RESUMO
A Despedida de Laertes e as Advertências a Ofélia
O cenário transfere-se das gélidas muralhas do castelo para os aposentos na casa de Polônio, conselheiro-chefe do Rei Cláudio. Laertes, preparando-se para sua viagem de retorno à França, informa à sua irmã, Ofélia, que suas bagagens já estão embarcadas no navio. Pede que ela não durma enquanto os ventos forem favoráveis e que aproveite os mensageiros para lhe enviar notícias constantemente. O diálogo volta-se para o Príncipe Hamlet. Ele adverte a irmã para que trate as investidas amorosas e as declarações de afeto de Hamlet apenas como um capricho passageiro da juventude, descrevendo-as como um favor fugaz e sem durabilidade. Laertes ainda argumenta que, embora o príncipe possa ter boas intenções no momento, a vontade dele não lhe pertence. Sendo herdeiro do trono, sua escolha de esposa está subordinada à segurança, à estabilidade e à aprovação do Estado dinamarquês. Ele alerta Ofélia de forma incisiva sobre os riscos de ceder aos encantos de Hamlet, insistindo que ela proteja o seu coração, a sua honra e, sobretudo, a sua castidade contra as investidas do príncipe. Ofélia ouve atentamente e concorda em guardar os conselhos de Laertes como o “guardião de seu coração”. Em contrapartida, ela o aconselha a não agir como um falso pregador moralista, pedindo que ele mesmo não lhe aponte o caminho espinhoso para o céu enquanto percorre a estrada florida dos prazeres irresponsáveis. Laertes tranquiliza-a dizendo que ela não deve temer por ele.
ANÁLISE
A intervenção de Laertes sobre o relacionamento entre Ofélia e Hamlet estabelece, logo no início da cena, a supremacia da dimensão política sobre o sentimento individual na corte de Elsinore. Ao caracterizar a afeição de Hamlet como um “capricho da juventude” e um “favor passageiro”, Laertes não apenas duvida da sinceridade do príncipe, mas fundamenta sua argumentação na condição de herdeiro do trono. Dentro da ordem dinástica, a vontade pessoal do príncipe está estritamente subordinada à segurança, às alianças e aos interesses do Estado. O discurso demonstra como a esfera privada e os afetos genuínos são impossibilitados pela razão de Estado; o amor deixa de ser uma escolha autônoma para tornar-se uma transação diplomática e social. O aviso de Laertes revela o rigor dos códigos morais e de gênero da sociedade elisabetana retratada no texto. A honra da família repousa quase exclusivamente na integridade e na reputação sexual da mulher. Através de metáforas biológicas e botânicas de contágio e deterioração (como o verme que corrompe as flores antes de desabrocharem), Laertes retrata o desejo e a sexualidade como ameaças letais à pureza de Ofélia. A conduta do irmão manifesta uma tutela protetora que, simultaneamente, reduz a jovem a uma posição de fragilidade inerente, incapaz de gerir o próprio corpo ou julgar as intenções masculinas por si mesma. A resposta de Ofélia ao conselho do irmão constitui um dos raros momentos de afirmação de sua lucidez crítica. Ao admoestar Laertes a não agir como o “falso pastor” que aponta aos outros o caminho íngreme e espinhoso do céu enquanto ele próprio trilha a via florida dos prazeres libertinos, Ofélia expõe a assimetria da moralidade de gênero. Enquanto a sociedade concede ao homem jovem a liberdade de vivenciar prazeres na França, exige da mulher a absoluta reclusão emocional e física. A ironia e a firmeza da réplica de Ofélia mostram que sua ingenuidade não é intelectual, mas sim uma imposição do papel social que lhe é atribuído.
A Chegada de Polônio e a Entrega dos Preceitos a Laertes
Polônio entra na sala e expressa surpresa ao ver que Laertes ainda não partiu, lembrando-lhe de que o vento já está inflando as velas do navio e de que ele é esperado a bordo. Antes de permitir a partida, Polônio põe a mão sobre a cabeça de Laertes para lhe dar uma segunda bênção e passa a ditar uma extensa lista de preceitos e regras de conduta para o filho seguir na França. Ele instrui Laertes a não dar voz aos seus pensamentos e a não colocar em prática ideias despropositadas. Aconselha-o a ser amável e sociável, mas jamais vulgar. Recomenda que os verdadeiros amigos, já testados, sejam mantidos próximos “com ganchos de aço”, mas que ele não desgaste a mão cumprimentando cada novo conhecido. Polônio também ordena que Laertes evite entrar em brigas; contudo, caso seja forçado a entrar em uma, que aja de maneira que seu adversário passe a temê-lo. Ele sugere que Laertes empreste os ouvidos a muitos, mas a voz a poucos, acolhendo as opiniões alheias enquanto reserva seu próprio julgamento. Sobre as vestimentas, aconselha que o filho compre roupas caras e de qualidade de acordo com suas posses, mas que sejam discretas e sem ostentação, pois “o hábito muitas vezes revela o homem”. Polônio proíbe Laertes de pedir dinheiro emprestado ou de emprestar a terceiros, argumentando que o empréstimo frequentemente resulta na perda do dinheiro e da amizade, além de prejudicar a economia pessoal. Finaliza a lista de conselhos com a máxima de que, acima de tudo, Laertes deve ser fiel a si mesmo, o que fará com que, consequentemente, não consiga ser falso com nenhum outro homem. Laertes despede-se formalmente do pai, despede-se novamente de Ofélia lembrando-a de guardar o que lhe foi dito, e sai de cena.
A célebre sequência aforística na qual Polônio dita regras de conduta para a estadia de Laertes em Paris configura um compêndio de prudência cortesã secularizada. Longe de transmitir princípios éticos calcados na virtude moral ou religiosa, os conselhos de Polônio visam exclusivamente à sobrevivência social, à gestão estratégica da reputação e ao cálculo de conveniência. Recomendações como guardar os pensamentos, vigiar a fala, selecionar amizades com pragmatismo e cultivar uma aparência refinada sem ostentação revelam uma filosofia de vida na qual o indivíduo deve vestir uma máscara constante para evitar a vulnerabilidade no espaço público. A instrução final de Polônio — “acima de tudo, sê fiel a ti mesmo, e disso se seguirá, como a noite ao dia, que não poderás ser falso com homem algum” — adquire no contexto da peça uma dimensão profundamente irônica. Na boca do chanceler de Elsinore, um homem cuja atuação política é inteiramente pautada pelo engano, pela espionagem e pela subserviência ao poder vigente, a “fidelidade a si mesmo” não representa uma busca por autenticidade existencial, mas a busca pelo autointeresse egoísta e pela autopreservação a qualquer custo moral. A interdição de Polônio em relação ao empréstimo de dinheiro (“não sejas devedor nem credor”) sintetiza a mentalidade conservadora e calculista da elite política da época. O ato de emprestar é encarado como um risco de dilapidação patrimonial e de destruição das alianças sociais. Todas as relações humanas na visão de Polônio — sejam financeiras, afetivas ou interpessoais — são concebidas sob a lógica do controle de danos e do saldo utilitário.
O Interrogatório de Polônio e as Ordens Restritivas
Assim que Laertes sai, Polônio pergunta a Ofélia sobre qual foi o tema da conversa que os dois estavam tendo em particular. Ofélia responde prontamente que o assunto era o Príncipe Hamlet. Polônio revela que tem ouvido relatos de que Hamlet tem passado muito tempo a sós com ela, e passa a interrogá-la de modo rígido sobre o relacionamento dos dois. Ofélia confessa ao pai que, ultimamente, Hamlet lhe tem feito muitas declarações de afeto e afeição. Polônio desdenha das palavras da filha, repreendendo-a por acreditar em tais propostas e chamando-a de uma “menina verde” (imatura e inexperiente) por não entender as dinâmicas perigosas da corte. Ofélia defende a honra de Hamlet, relatando que ele lhe ofereceu amor de maneira respeitosa, corroborando suas palavras com “todos os sagrados juramentos dos céus”. Polônio refuta a defesa da filha imediatamente, afirmando que esses juramentos não passam de “armadilhas para apanhar rolinhas” (pássaros fáceis de caçar). O pai argumenta que, no ápice do desejo, um jovem faz promessas ardentes que emitem mais luz momentânea do que calor verdadeiro, e que se extinguirão rapidamente. Exercendo sua autoridade paterna, Polônio ordena de forma categórica que Ofélia pare de se encontrar com Hamlet, pare de desperdiçar seu tempo com o príncipe e feche-se a qualquer comunicação com ele. Ofélia aceita a ordem paterna sem apresentar resistência física ou contra-argumentos, respondendo apenas com total submissão: “Eu obedecerei, meu senhor.”
Ao tomar conhecimento da relação entre Ofélia e Hamlet, Polônio ridiculariza a percepção amorosa da filha com violência verbal. O uso das expressões “menina verde” e “armadilhas para apanhar rolinhas” reduz a experiência afetiva de Ofélia a uma ingenuidade infantil e os juramentos do príncipe a meros expedientes de sedução sem valor real. Polônio transpõe o amor para a linguagem comercial de propostas, fianças e falências; para o chanceler, os juramentos de Hamlet são “falsos corretores” concebidos para enganar. O afeto é inteiramente desprovido de transcendência e transformado em mercadoria enganosa. O interrogatório imposto a Ofélia estende a lógica de espionagem do Estado de Elsinore ao núcleo familiar. Polônio não age apenas como um pai preocupado com o futuro da filha, mas como o conselheiro-chefe do Rei Cláudio, sempre vigilante quanto às movimentações do herdeiro do trono. Controlar Ofélia e interromper seu acesso a Hamlet significa controlar uma potencial brecha na estabilidade política do reino. A esfera doméstica revela-se, assim, completamente contaminada e instrumentalizada pela paranoia política que domina o castelo. A conclusão do episódio culmina na declaração de submissão de Ofélia: “Eu obedecerei, meu senhor”. Esta resposta sinaliza a cassação definitiva de sua autonomia, de seu julgamento individual e de seus desejos pessoais em favor do mandato patriarcal. Privada de voz, de validação emocional e de um espaço de expressão autêntico, Ofélia é forçada a romper bruscamente com Hamlet. Essa fratura emocional imposta e a completa passividade a que é submetida constituem a raiz psíquica do isolamento moral que, mais tarde, se converterá em colapso mental e na sua trágica destruição.

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