Hamlet: Ato IV, Cena 5

Resumo & Análise

RESUMO

A Resistência da Rainha e o Estado de Ofélia
A cena desenrola-se em um aposento no interior do castelo de Elsinore. A Rainha Gertrudes demonstra extrema relutância e recusa-se inicialmente a receber Ofélia. Um Cavalheiro e Horácio insistem com a Rainha, descrevendo o comportamento errático e perturbado de Ofélia. Eles alertam que as meias palavras e murmúrios da jovem estão alimentando suspeitas e fofocas perigosas entre o povo. Convencida por Horácio do risco político de ignorá-la, Gertrudes cede e concorda em permitir a entrada de Ofélia.

ANÁLISE

A relutância inicial da Rainha Gertrudes em receber Ofélia não decorre de mera insensibilidade, mas de uma profunda culpa interior. O assassinato de Polônio por seu filho e o seu próprio casamento precipitado geram um estado de paranoia moral no qual qualquer evento adverso parece o prelúdio de um desastre maior. A intervenção de Horácio e do Cavalheiro desloca o sofrimento de Ofélia do âmbito privado para a esfera da realpolitik. Eles alertam a Rainha de que o discurso desconexo de Ofélia está sendo interpretado pelo povo dinamarquês como evidência de uma conspiração ou crime da coroa. A decisão de recebê-la é tomada por conveniência e contenção de danos políticos, e não por empatia genuína. A cena evidencia o colapso da comunicação e da confiança no interior do castelo. O Estado de Elsinore encontra-se tão fragilizado que os murmúrios de uma jovem enlouquecida são capazes de ameaçar a estabilidade do trono de Cláudio e Gertrudes.

A Primeira Exibição de Loucura de Ofélia
Ofélia entra no recinto visivelmente perturbada, cantando fragmentos de antigas canções. As letras de suas cantigas alternam entre lamentos fúnebres sobre um homem idoso morto e enterrado (uma clara referência ao seu pai, Polônio) e canções sobre o Dia de São Valentim e promessas matrimoniais rompidas. O Rei Cláudio entra no aposento e depara-se com o estado deplorável da jovem. Ofélia não responde de forma lógica às suas perguntas, proferindo frases enigmáticas e citando a lenda de que “a coruja era a filha do padeiro”. Subitamente, Ofélia profere despedidas desconexas a todos e sai do aposento. Cláudio, penalizado e preocupado com a segurança física da jovem, ordena imediatamente a Horácio que a siga de perto e a vigie.

Ao longo de toda a peça, Ofélia é silenciada e submetida à autoridade patriarcal de Polônio, Laertes e Hamlet. A loucura surge como o único espaço em que ela alcança uma voz desfiltrada. Despojada do decoro exigido a uma nobre, ela expressa publicamente verdades interditas sobre sexo, morte e traição. Representam o lamento não vivenciado pela morte de seu pai, cujo corpo foi ocultado e sepultado sem as honras devidas. Expõe o trauma da rejeição e da exploração sexual masculina, refletindo o impacto devastador das atitudes de Hamlet (“vai para um convento”) sobre a psique da jovem. A referência enigmática à “filha do padeiro que virou coruja” alude à punição por falta de generosidade e à transformação trágica e irreversível. Cláudio diagnostica a loucura como o “veneno do profundo luto”, ocultando sua própria responsabilidade no desencadeamento da tragédia ao tentar enquadrar o colapso da jovem em uma causa estritamente pessoal.

O Balanço das Desgraças e a Invasão do Castelo
Sozinho com Gertrudes, o Rei Cláudio desabafa sobre a pesada sucessão de infortúnios que se abateu sobre o reino: a morte violenta de Polônio, o exílio apressado de Hamlet, a instabilidade popular e o enlouquecimento de Ofélia. Cláudio revela também que Laertes retornou secretamente da França, encontra-se isolado e está sendo alimentado por rumores venenosos sobre a morte do pai. Um ruído ensurdecedor de motim é ouvido no exterior do castelo. Um mensageiro entra em pânico no aposento, alertando que Laertes, à frente de uma turba rebelde que o aclama nas ruas como rei, superou os guardas e está arrombando as portas de Elsinore.

O solilóquio de Cláudio (“Quando as dores vêm, não vêm como espiões isolados, mas em batalhões”) sintetiza o colapso sistêmico da Dinamarca. O assassinato de Polônio desencadeia o exílio de Hamlet, a alienação do povo e o enlouquecimento de Ofélia, demonstrando que a corrupção moral da coroa infectou todo o corpo político. A decisão de Cláudio de enterrar Polônio em segredo para evitar investigações sobre Hamlet revela uma falha de cálculo político. Em vez de abafar o escândalo, a falta de ritos de Estado alimenta rumores venenosos e incita a rebelião popular. A irrupção de Laertes à frente de uma multidão rebelde que o aclama como rei estabelece um contraste direto com o Príncipe Hamlet. Enquanto Hamlet hesita e analisa filosoficamente a vingança, Laertes age impulsivamente, mobilizando a força popular e desafiando diretamente a autoridade real para vingar o pai.

O Confronto Armado entre Laertes e Cláudio
Laertes irrompe violentamente pelas portas do aposento, armado e em fúria, ordenando aos seus seguidores que aguardem do lado de fora. Ele confronta o Rei Cláudio de imediato, exigindo a devolução de seu pai e clamando abertamente por vingança. A Rainha Gertrudes intervém fisicamente, segurando Laertes numa tentativa de proteger o marido. Cláudio mantém absoluta compostura, instrui a Rainha a soltar o jovem e afirma que uma proteção divina e inviolável guarda a figura de um rei, não temendo as ameaças. O monarca assegura a Laertes que não foi ele o responsável pelo assassinato de Polônio e pede que o jovem contenha a raiva para ouvir a verdade.

Laertes manifesta uma disposição cega para a vingança, declarando abertamente que condena a lealdade ao inferno e que desconsidera os juramentos e a salvação da alma. Sua postura encarna o código de honra trágico puro e sem freios morais. Diante da ameaça física iminente, o Rei Cláudio demonstra frio domínio próprio. Ele evoca a doutrina do Direito Divino dos Reis (“Há uma divindade que protege o rei”) como escudo retórico, utilizando sua autoridade de soberano para desarmar a fúria de Laertes sem recorrer à força bruta. Cláudio percebe que a raiva de Laertes pode ser redirecionada. Ao permitir que o jovem desabafe e ao garantir sua própria inocência no assassinato de Polônio, o rei prepara o terreno para transformar um rebelde perigoso em um aliado instrumental.

O Retorno de Ofélia e a Distribuição das Flores
A intensa discussão cessa bruscamente quando Ofélia retorna ao recinto, ainda mais desvinculada da realidade e decorada com flores. O choque de ver a irmã reduzida à insanidade quebra a ira imediata de Laertes, que lamenta em prantos a fragilidade da mente humana diante da dor. Ofélia canta sobre um caixão sendo levado para a sepultura (“com o rosto descoberto no ataúde”) e chora a morte do velho. Ela então passa a distribuir suas ervas e flores reais ou imaginárias aos presentes: entrega alecrim e amores-perfeitos a Laertes; erva-doce e columbinas ao Rei Cláudio; e arruda e uma margarida à Rainha Gertrudes. Ela lamenta não ter violetas, pois afirma que todas elas murcharam quando o seu pai morreu. Após cantar uma última cantiga fúnebre cristã, ela se despede e sai de cena definitivamente.

A distribuição de flores (reais ou imaginárias) funciona como um diagnóstico alegórico da podridão de Elsinore: Alecrim (Rosemary): Simboliza a lembrança e a fidelidade, entregue a Laertes para que não esqueça a memória do pai. Amores-perfeitos (Pansies): Representam os pensamentos e a reflexão. Erva-doce (Fennel) e Columbinas (Columbines): Entregues ao Rei Cláudio, simbolizam a lisonja falsa, a falsidade e a infidelidade conjugal. Arruda (Rue): Associada ao arrependimento e ao luto, oferecida à Rainha Gertrudes e mantida por Ofélia com uma distinção (“com uma diferença”). Margarida (Daisy): Representa a inocência perdida e a falsidade no amor. Violetas Murchas: Simbolizam a fidelidade e a virtude, as quais Ofélia afirma terem morrido com seu pai. A visão de sua irmã desprovida de razão extingue qualquer possibilidade de conciliação racional. A dor do luto familiar de Laertes é duplicada, convertendo sua fúria política em uma determinação absoluta e visceral de vingança de sangue.

O Acordo e a Promessa de Vingança
Aproveitando-se da dor letárgica que se abate sobre Laertes após a partida da irmã, Cláudio propõe um pacto. O Rei instrui Laertes a reunir os amigos em quem mais confia para ouvirem e julgarem os fatos; se concluirem que Cláudio teve qualquer participação na morte de Polônio, o monarca promete entregar seu reino, sua coroa e sua vida ao jovem. Caso sua inocência seja provada, o Rei assegura que unirá forças com Laertes para satisfazer plenamente o seu desejo de vingança contra o verdadeiro culpado. Laertes aceita as condições, argumentando que a forma obscura da morte do pai e o enterro sem os devidos ritos e honras de Estado exigem uma explicação formal e punição. Cláudio concorda de pronto, afirmando que “onde está o crime, que caia o grande machado”, e ambos saem juntos do aposento para iniciar as deliberações.

Cláudio demonstra sua maestria política ao manipular a vulnerabilidade emocional de Laertes. Em vez de punir o jovem por traição e rebelião, o soberano coopta-o, transformando a busca de Laertes por justiça na arma perfeita do Estado para eliminar o Príncipe Hamlet. Ao oferecer sua coroa, seu reino e sua própria vida caso seja comprovada sua cumplicidade na morte de Polônio, Cláudio realiza uma manobra arriscada de persuasão. Ele sabe que é inocente daquele ato específico e usa essa verdade parcial para conquistar a confiança cega de Laertes. A concordância de Laertes em submeter-se ao julgamento de Cláudio sela o destino de ambos. O desejo legítimo de honrar o pai morto é corrompido pela astúcia do rei usurpador, culminando no arranjo do duelo fatal que levará Elsinore à sua destruição final.

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