Hamlet: Ato IV, Cena 4

Resumo & Análise

RESUMO

A Marcha do Exército Norueguês e as Ordens de Fortimbrás
O cenário estabelece-se em uma planície aberta na Dinamarca, próxima ao litoral. O Príncipe Fortimbrás, da Noruega, surge em cena liderando o seu exército em marcha. Fortimbrás destaca um de seus capitães e instrui-o a seguir adiante como mensageiro até o castelo de Elsinore. O príncipe ordena que o capitão apresente os seus cumprimentos ao Rei Cláudio da Dinamarca e exija formalmente a promessa de passagem segura de suas tropas pelo território dinamarquês, conforme acordado anteriormente entre as coroas. Fortimbrás orienta o capitão sobre o ponto de encontro futuro onde deverão se reunir e retira-se de cena junto com as suas tropas.

ANÁLISE

A introdução de Fortimbrás funciona como o espelho dramático definitivo (dramatic foil) para o Príncipe Hamlet. Ambos são príncipes herdeiros, ambos perderam os seus pais soberanos e ambos têm tios governando em seus respectivos reinos. No entanto, enquanto Hamlet se encontra paralisado pela melancolia, pela dúvida epistemológica e pelo escrúpulo moral, Fortimbrás encarna a pura vontade de ação militar, o pragmatismo e a determinação implacável. A sua mera presença física em solo dinamarquês explicita o contraste entre a inércia do intelectual de Wittenberg e a capacidade executiva do jovem líder norueguês. A solicitação formal do capitão para cruzar o território dinamarquês evidencia a eficácia temporária das resoluções diplomáticas obtidas no início da peça. O Rei Cláudio, ao neutralizar a ameaça norueguesa por vias de negociação, canalizou o ímpeto militar de Fortimbrás para longe de Elsinore. A marcha organizada de tropas estrangeiras pela Dinamarca expõe a vulnerabilidade geográfica e política do reino dinamarquês, sublinhando como a estabilidade aparente do usurpador depende de acordos precários enquanto o seu próprio Estado apodrece por dentro. O cenário da planície abertas, afastado dos corredores claustrofóbicos e vigiados do castelo de Elsinore, marca uma transição espacial decisiva. Ao remover a ação do interior envenenado da corte para o espaço exposto ao vento, a narrativa desnuda as pretensões do poder monárquico. A movimentação dos exércitos noruegueses em campo aberto serve como um prenúncio do inevitável colapso político da Dinamarca, que acabará por ser herdada e reordenada precisamente por essa força externa que agora apenas atravessa os seus limites.

O Encontro de Hamlet com o Capitão Norueguês
O Príncipe Hamlet, escoltado por Rosencrantz, Guildenstern e alguns guardas, encontra-se a caminho do porto para embarcar no navio rumo ao seu exílio na Inglaterra. No trajeto através da planície, o grupo cruza com o capitão norueguês enviado por Fortimbrás. Hamlet detém-se e aborda o capitão, questionando de quem são aquelas tropas, qual é o destino final da marcha e quem as comanda. O capitão informa que as forças pertencem à Noruega e são lideradas pelo Príncipe Fortimbrás, sobrinho do velho rei norueguês. Ao ser indagado sobre o objetivo militar da expedição, o capitão revela que o exército marcha contra a Polônia para conquistar um pedaço de terra minúsculo e inóspito. O militar acrescenta, com franqueza, que o território não possui qualquer valor financeiro ou estratégico, afirmando que ele próprio não pagaria sequer cinco ducados para arrendá-lo, mas que milhares de homens e uma vasta quantia em riquezas estão sendo empregados nessa disputa.

O diálogo entre Hamlet e o capitão norueguês introduz uma crítica contundente à vaidade guerreira e ao conceito tradicional de honra aristocrática. Ao admitir abertamente que o território polaco a ser conquistado não vale “cinco ducados” e não possui qualquer utilidade agrícola ou estratégica, o capitão desmistifica a retórica heroica da guerra. A franqueza do militar expõe o descompasso entre o custo material e humano (milhares de vidas e fortunas) e a inanidade do objetivo real, revelando o conflito como um exercício de pura ostentação de poder estatal. A reação de Hamlet ao relato do capitão — diagnosticando o conflito como um abscesso interno resultante do excesso de paz e prosperidade — conecta-se diretamente ao motivo central da corrupção e da podridão corporativa na obra. Na visão do príncipe, quando uma sociedade atinge um estado de estagnação moral e opulência, o excesso não canalizado manifesta-se sob a forma de guerras fúteis e autodestruição coletiva. A guerra pela ilha inóspita é o sintoma visível de uma infecção invisível que consome as nações por dentro. O encontro forense com o capitão serve como catalisador cognitivo para o protagonista. Hamlet observa homens comuns marchando voluntariamente para a morte por uma ilusão sem valor comercial ou moral, enquanto ele próprio, detentor de um dever sagrado, justo e fundamentado (vingar o pai e restaurar a honra da mãe), permanece incapaz de agir. Esse confronto com a logística do absurdo força o príncipe a reavaliar a sua própria postura, preparando o terreno para a crise existencial do seu solilóquio final.

O Isolamento de Hamlet e o Solilóquio da Resolução
Após escutar o relato, Hamlet conclui em voz alta que esse tipo de conflito é o resultado de uma nação acomodada pelo excesso de riqueza e de paz, que apodrece por dentro e gera guerras sem motivos concretos. O príncipe agradece ao capitão, que se despede e segue o seu caminho. Rosencrantz avisa a Hamlet que é hora de prosseguirem em direção ao navio. O príncipe pede aos seus acompanhantes (Rosencrantz, Guildenstern e os guardas) que sigam na frente e o deixem sozinho na planície por um momento. Sozinho no palco, profere um solilóquio, comparando a sua própria inação à determinação de Fortimbrás e de seu exército. Hamlet repreende-se severamente por sua demora, lembrando que possui motivos absolutos para agir (o pai assassinado e a mãe desonrada), mas continua apenas a pensar em vez de executar a sua vingança. Ele contrasta a sua hesitação com a marcha de vinte mil soldados noruegueses que caminham para a morte iminente por uma causa vazia, por uma “casca de ovo”, movidos apenas pela honra e pelo orgulho, lutando por um pedaço de terra que sequer é grande o suficiente para servir de cova a todos os que ali cairão. A cena encerra-se com a resolução definitiva de Hamlet, que decreta o fim de sua procrastinação e jura que, a partir daquele momento, todos os seus pensamentos serão inteiramente dedicados ao derramamento de sangue, sob pena de não valerem mais nada.

No seu último e mais decisivo solilóquio (“How all occasions do inform against me”), Hamlet realiza uma dissecação implacável da sua própria psique. Ele identifica a sua hesitação crônica não como prudência filosófica ou virtude moral, mas como uma combinação vergonhosa de “esquecimento bestial” e “covardia escrupulosa”. Ao analisar a tendência da sua mente de dividir cada pensamento em quatro partes (sendo três partes pura covardia e apenas uma parte sabedoria), o príncipe reconhece como o excesso de reflexão abstrata age como um agente paralisante que anula a agência humana e o dever ético. Hamlet desconstrói e reconstrói o conceito de honra a partir do exemplo de Fortimbrás. Ele redefine a verdadeira grandeza não como a recusa em agir sem uma causa gigante, mas como a capacidade de “encontrar uma grande disputa em uma palha” quando a honra está em jogo. Fortimbrás, guiado por uma “ambição divina”, expõe a vida de vinte mil soldados por uma “casca de ovo”. Para Hamlet, a discrepância entre a insignificância da causa norueguesa e a magnitude do seu próprio motivo (um rei assassinado e uma rainha desonrada) torna a sua inação pessoal insustentável e moralmente indefensável. O solilóquio marca a transição definitiva na trajetória de Hamlet: o fim do herói trágico contemplativo e o nascimento do agente tático implacável. Ao decretar que, a partir daquele instante, os seus pensamentos serão “sangrentos ou não valerão nada”, o príncipe abandona os dilemas morais que o dominaram desde a revelação do espectro no Ato 1. Esta cena sela a aceitação do seu destino trágico; o intelecto de Hamlet, anteriormente utilizado para adiar o ato, é agora colocado inteiramente a serviço da execução violenta da vingança ao retornar do mar.

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