A IRA DE AQUILES
Em grego antigo, a palavra usada para “cólera” ou “ira” é menis. Na literatura homérica, menis é uma fúria de proporções cósmicas, quase exclusivamente reservada aos deuses (como a ira de Apolo que causa a peste). Ao atribuir menis a Aquiles, Homero o eleva a um patamar sobre-humano. A raiva de Aquiles não é um aborrecimento comum; é uma força destrutiva e quase divina que altera a ordem natural das coisas.
HONRA E GLÓRIA
Um dos principais pontos da Ilíada é a glória que os guerreiros obtêm através das batalhas em guerras. Assim, é possível afirmar que a obra celebra a guerra. Com efeito, as personagens emergem como dignas ou desprezíveis com base em seu grau de competência e bravura em batalha. Lutar é afirmar a própria honra e dignidade; fugir da guerra é sinal de indolência, covardia mesquinha ou de prioridades erradas.
Note-se que a Ilíada considera os dissabores da guerra. Durante o livro, homens encontram mortes terríveis; as mulheres são escravizadas e transformadas em concubinas; uma praga surge no acampamento aqueu, dizimando suas forças. Diante de tais atrocidades, até mesmo os guerreiros mais valentes podem sentir temor. No entanto, Homero jamais insinua que a batalha seja uma perda de tempo ou de vidas humanas. Em contrapartida, o autor considera que cada lado tem uma razão válida para entrar em conflito, além disso, retrata a guerra como um meio respeitável e glorioso de resolver uma disputa.
É importante que se entenda que para um grego antigo, ser o melhor em combate era a maior fonte de prestígio. A glória que os soldados conquistavam no campo de batalha os tornava praticamente imortais, no sentido de que seriam considerados heróis lembrados para além da morte. As personagens da Ilíada, assim, frequentemente, citam os grandes heróis de tempos passados, como Hércules e Teseu. Ainda, ultrapassando os seres humanos, a epopeia exalta divindades guerreiras como Atena, enquanto, em certa medida, zomba dos deuses que fogem das batalhas, usando como exemplo a timidez de Afrodite e Ártemis.
Sobre a história da “ira de Aquiles” e a realização de sua glória no campo de batalha, o poema conta que a desonra que Agamemnon impõe a Aquiles ao tomar Briseida, uma mulher que ele havia ganhado em combate, o que provoca a famosa ira de Aquiles. O herói prefere evitar a luta a concordar com algo que considera uma ofensa. Mais tarde, quando retoma a luta após a morte de Pátroclo, Aquiles prova ser “o melhor dos aqueus” ao realizar a maior exibição de força militar da guerra e, por fim, matar Heitor, o maior guerreiro troiano. Dessa maneira, pode-se entender a questão do herói para a Grécia Antiga.
Ademais, Heitor pode ser visto, à luz de conceitos atuais, como um personagem mais honrado que Aquiles, eis que ama sua mulher, seu filho, sua cidade, e luta dia e noite para proteger todo o povo. Por outro lado, Aquiles se importa apenas com seu próprio bem-estar e permanece carrancudo durante boa parte do poema. No entanto, sob a ótica da Grécia Antiga, Aquiles é, em certa medida, mais heróico ou digno por ser o mais proeminente guerreiro no campo de batalha. Da mesma maneira, Páris é belo, mas por não se envolver em batalhas é alvo de desprezo tanto de sua família quanto de sua amada, e é retratado como um personagem patético ao longo do poema.
Assim, saliente-se que no contexto da Grécia antiga, o termo “herói” tinha um significado mais rigoroso do que tem hoje, pois a glória militar podia torná-lo quase tão importante quanto um deus.
Outro assunto da Ilíada que se relaciona fortemente com a glória da guerra é a superioridade da glória bélica em relação à família. Há um respeito muito grande pela busca de kleos, a “glória” ou “renome” em grego, que se conquista quando são realizados grandes feitos. Dessa forma, Homero coloca suas personagens em situações que os obrigam a escolher entre seus amados familiares e o kleos, sendo que os mais heróicos sempre escolhem o último. Veja-se: Andrômaca suplica a Heitor para que não o deixe órfão, mas o herói troiano está ciente de que lutar na linha de frente é a única maneira de conquistar grande glória. Ao revés, Páris prefere ficar com Helena a lutar na guerra, e acaba sendo menosprezado. Aquiles pondera se deve retornar para sua casa e desfrutar de uma vida tranquila ao lado de seu pai idoso, mas decide ficar em Tróia para conquistar a glória.
DESTINO E LIVRE ARBÍTRIO
Para Homero, a Guerra de Troia já era uma antiga história transmitida por gerações, e o poema é apresentado desde o início como uma narrativa completa da vontade de Zeus. Note-se que na vida dos mortais, os deuses são poderosos o bastante para serem considerados como o próprio destino. Cite-se o caso de Aquiles ao não matar Agamemnon pela interferência de Atena; ou o retorno de Helena aos braços de Páris por ordem de Afrodite.
O destino, assim, é fundamental na Ilíada, sendo que o poeta aborda o tema não apenas como um dispositivo narrativo que prevê eventos futuros, mas também para destacar o heroísmo. Por exemplo, uma das principais marcas do heroísmo na Ilíada é a maneira como os heróis não hesitam em aceitar o seu destino. Heitor esclarece isso para sua esposa, Andrômaca, quando esta teme que aquele seja morto em combate, afirmando que ninguém jamais escapou de seu destino.
No entanto, o poema revela que o destino nem sempre é definitivo e os deuses não detém total controle sobre este. Veja-se que Zeus não é onipotente, e os outros deuses acabam o enganando em diversas passagens do poema para obter vantagem na guerra. Durante toda a obra, na verdade, a questão entre o destino e o livre arbítrio é obscura.
Por exemplo, apesar da profecia, Aquiles possui dois caminhos a seguir, o que implica que deve fazer uma escolha a seu livre arbítrio. Embora sua mãe, Tétis, o suplica para que opte por uma vida longa e sem a glória de um herói, Aquiles decide escolher a morte heróica. Outro exemplo: antes que Pátroclo assassine Sarpédon, um temido combatente troiano que, por acaso, era um dos filhos favoritos de Zeus, o pai dos deuses considera a possibilidade de salvá-lo para evitar sua morte que já estava determinada. Entretanto, Hera o aconselha a não prosseguir com sua intenção, vez que desafiar o destino de Sarpédon estabeleceria um precedente arriscado.
DIVINDADES E MORTAIS
Os deuses na Ilíada envolvem-se ativamente na vida dos mortais, que, em certos casos, são até seus filhos biológicos. Às vezes, os deuses aparecem como homens, como no caso de Apolo falando ao ouvido de Heitor, incitando-o a agir ou fortalecendo-o para enfrentar seus inimigos. Mas as divindades também tomam ações diretas. Logo no início do poema, Apolo lança uma praga sobre os exércitos aqueus; mais para frente, Hefesto forja uma armadura impressionante para Aquiles.
Ainda, os deuses assumem lados, sendo que a guerra de Troia representa, de fato, um confronto entre dois grupos de deuses em disputa. Hera, Atena e Poseidon estão do lado dos aqueus; ao passo que Afrodite, Ares e Apolo estão do lado dos troianos. Zeus está no comando da disputa.
Aliás, o mito da origem da guerra de Troia se dá por uma disputa entre divindades, episódio conhecido O Julgamento de Páris. Zeus solicitou a Páris que decidisse qual das três deusas (Hera, Atena e Afrodite) era a mais bonita. Cada uma delas ofereceu a Páris uma recompensa por sua decisão, mas ele optou pela oferta de Afrodite: Helena, a esposa deslumbrante de Menelau.
Apesar dos deuses estarem intensamente envolvidos no destino da guerra, por óbvio que não experimentam a dor dos mortais. E aqui pode-se refletir sobre a questão da efemeridade dos mortais e das coisas. Por exemplo, Troia é fadada a cair, Príamo e todos os seus filhos encontrarão a morte, Aquiles também encontrará seu destino trágico de forma prematura, enfim, as batalhas do poema são repletas de descrições da morte de soldados que aparecem na obra apenas para morrer. Com efeito, Homero se refere a esse evento da efemeridade, enfatizando que nem os maiores homens estão isentos da morte.
Os deuses até podem conceder a um mortal poderes quase imortais por um dia, como a Diomedes ou a Heitor, mas tais momentos de glória são limitados. Aquiles é uma quase exceção à regra da mortalidade humana, visto que, segundo o mito, sua mãe, Tétis, mergulhou-o no rio Estige quando bebê, concedendo-lhe imortalidade, exceto pelo seu famoso calcanhar que não molhou. Mas apesar de ser o mais forte e invulnerável dos heróis gregos, Aquiles ainda assim estava destinado a morrer no campo de batalha, acabando por se tornar símbolo da fragilidade de todos os homens.
Assim, o poema sublinha a transitoriedade dos humanos e de seu entorno, indicando que os mortais devem buscar viver de forma digna, para que suas memórias sejam valorizadas e eternizadas. Se os corpos físicos e as obras materiais dos seres humanos não conseguem persistir pós morte, talvez suas palavras e atos consigam.
LAÇOS EMOCIONAIS
Ao longo da Ilíada são demonstrados diversos laços emocionais, essenciais para o avanço do poema. A camaradagem entre soldados, por exemplo, é o combustível que os move, seja por amizade entre si ou pela busca de vingança pelos que caíram. De certo modo, a Guerra de Troia pode ser vista como uma competição passional pela deslumbrante Helena, que se encontra dividida entre as vontades de Páris e Menelau.
O amor dos pais também é uma força muito poderosa, incluindo o amor dos deuses que protegem na guerra seus filhos mortais. É o amor que Tétis sente por seu filho humano que a impulsiona a solicitar a Zeus o favor de enaltecer Aquiles. Igualmente, no Canto VI, a devoção de Heitor à defesa de Troia é evidenciada de maneira carinhosa quando ele vai até sua esposa e filho para garantir que voltará são e salvo da luta.
A mais significativa relação retratada no poema talvez seja a profunda amizade entre Aquiles e seu companheiro Pátroclo. Mais do que uma simples amizade, a morte de Pátroclo provoca em Aquiles uma dor tão intensa que o leva a uma explosão de ira no campo de batalha. O amor que sente pelo amigo converte-se em ferocidade em combate, chegando a macular o corpo de Heitor. Por último, quando Príamo chega de forma discreta ao acampamento aqueu para recuperar o corpo de Heitor das mãos de Aquiles, ele faz isso por amor ao filho, assumindo todos os riscos envolvidos. Aquiles admite o amor de Príamo por Heitor e aceita devolver o corpo.