Visão Geral da história de Helena
Filha de Zeus e da mortal Leda, sendo Tindareu seu pai terrestre. Ela era casada com Menelau e foi sequestrada por Páris, que era o filho do rei Príamo de Troia, o que provocou a Guerra de Troia. Era uma mulher de beleza ímpar, capaz de conquistar qualquer homem que desejasse. Uma outra versão a considera filha de Nêmesis: ao tentar escapar de Zeus, Nêmesis se transforma em um pássaro, enquanto Zeus assume a forma de um cisne. De acordo com uma das versões, a deusa coloca um ovo que é dado a Leda, do qual Helena nasce. Um dos tópicos de debate mais célebres da Grécia clássica diz respeito à responsabilidade de Helena pelo seu rapto. A respeito disso, o sofista Górgias compôs um tratado.
Helena na Ilíada
Helena de Troia é frequentemente resumida pelo clichê de “o rosto que lançou mil navios”, tratada apenas como um objeto passivo ou o estopim da Guerra de Troia. Mas, ao lermos a Ilíada com atenção, encontramos uma das personagens mais psicologicamente densas, amargas e autoconscientes de toda a epopeia de Homero.
Na Ilíada, Helena não é uma vilã superficial nem uma donzela indefesa; ela é uma mulher profundamente isolada, enojada com as próprias escolhas e aprisionada pelas vontades dos deuses.
Autoconsciência e Culpa Esmagadora
Ao contrário de Páris, que é frequentemente retratado como leviano e quase imune à gravidade da destruição que causou, Helena carrega um peso constante. No Canto III e no Canto VI, ela se refere a si mesma com um termo duríssimo em grego antigo: kynopis (que pode ser traduzido como “com cara de cadela” ou simplesmente “cadela”).
Ela entende perfeitamente o sangue que está sendo derramado em seu nome e despreza a covardia de Páris — chegando a dizer na frente dele que preferia que ele tivesse morrido em combate — e reconhece a superioridade moral de seu ex-marido, Menelau, e dos guerreiros gregos que ela abandonou.
O Embate com o Divino
Um dos momentos mais reveladores de toda a epopeia ocorre no Canto III. Após Páris ser salvo magicamente por Afrodite em um duelo que estava perdendo, a deusa aparece para Helena e ordena que vá para a cama consolá-lo.
Num raro e impressionante momento de desafio humano contra o divino, Helena diz “não” a Afrodite e manda a própria deusa ir se deitar com Páris, abandonar o Olimpo e se tornar a escrava dele. A resposta de Afrodite é brutal: ameaça retirar sua proteção e jogar Helena à mercê do ódio furioso tanto de gregos quanto de troianos. Aterrorizada, Helena abaixa a cabeça e obedece. Esse momento destrói a ideia de que Helena age por pura luxúria; é uma prisioneira do destino, coagida por uma força divina que não pode vencer.
O Isolamento Absoluto em Troia
Helena é uma estrangeira odiada na cidade que a abriga. Os anciãos de Troia, ao vê-la nas muralhas (na famosa cena da Teicoscopia), não conseguem evitar admirar sua beleza aterradora, mas concluem o óbvio: “que ela vá embora nos navios, antes que traga a ruína para nós e nossos filhos”.
Em toda a cidade, ela tem apenas dois aliados que não a destratam: o velho Rei Príamo (que a trata com doçura e diz que a culpa é dos deuses, não dela) e o príncipe Heitor. No Canto XXIV, durante o funeral de Heitor, o lamento de Helena é um dos mais dolorosos do poema. Ela chora não apenas pelo cunhado, mas por si mesma, revelando que Heitor era o único que a defendia quando o resto da família a insultava. Com a morte dele, ela está absolutamente sozinha.
A Tecelã do Próprio Mito (Metalinguagem)
Homero dá a Helena um grau de metaconsciência que quase nenhum outro personagem possui. Quando a encontramos pela primeira vez no Canto III, ela está no tear, tecendo uma grande tapeçaria púrpura. E o que ela está bordando? As batalhas que gregos e troianos estavam sofrendo por causa dela. Ela é, dentro da própria história, a primeira “cronista” da Guerra de Troia.
Mais tarde, no Canto VI, Helena diz a Heitor que Zeus colocou um destino terrível sobre ela e Páris, para que “no futuro, sejamos tema de canções para os homens que ainda vão nascer”. Helena entende que sua tragédia pessoal já escapou de seu controle e se tornou um mito que a imortalizará.
Assim, ela enxerga claramente a mediocridade do homem com quem está, respeita a nobreza dos homens que deixou para trás e chora a morte do único herói que a acolheu. Ela é, simultaneamente, o prêmio da guerra, a sua causa e a sua prisioneira mais lúcida.