Visão Geral da história de Odisseu
Esse é o seu nome em grego; já o nome latino é Ulixes, em português: Ulisses. Ao lado de Héracles, é o mais conhecido herói de toda a Antiguidade.
É frequentemente denominado laertíada, sendo filho de Laertes e Anticleia. Uma outra versão o chama de filho de Sísifo, tendo Anticleia, mãe de Odisseu, tido um relacionamento com Sísifo antes de se unir a Laertes. Nascido em Ítaca, casou-se com Penélope, que é prima de Helena, a filha de Ícaro.
A Odisseia narra o retorno de Odisseu a Ítaca após a Guerra de Troia. Após dez anos de conflito, leva mais uma década para alcançar Ítaca, e durante todo esse período, Penélope o aguarda, apesar dos progressos dos pretendentes. Para acalmá-los, ela promete que irá se casar com um deles assim que finalizar a confecção de um tapete. No entanto, durante o dia ela o cria e à noite ela o destrói. Ele é um excelente combatente, um dos mais notáveis da Guerra de Troia.
Odisseu na Ilíada
Embora Odisseu seja famoso como o protagonista da Odisseia, é na Ilíada que as bases de sua complexidade são forjadas. Em um épico dominado pela fúria, pela honra trágica e pela força física (biê), Odisseu atua como o contraponto vital: ele é a personificação da inteligência ardilosa, da estratégia e da eloquência (mêtis).
O Pilar da Ordem e a Voz da Razão
Se Aquiles é o coração passional do exército aqueu e Agamemnon é o líder político (frequentemente falho), Odisseu é a “cola” que impede o exército de desmoronar. Isso fica evidente logo no Canto II. Quando Agamemnon, de forma imprudente, testa a moral das tropas sugerindo que desistam da guerra, os soldados correm para os navios. É Odisseu quem toma a iniciativa. Usando o cetro de Agamemnon, corre por entre as tropas, bajulando os generais com respeito e ameaçando/espancando os soldados comuns (como o insolente Tersites). Assim, restaura a ordem não pela força bruta, mas pela autoridade, pela leitura psicológica das massas e pela retórica.
O Mestre da Retórica (A Embaixada a Aquiles)
A habilidade de Odisseu com as palavras é sua arma mais afiada. No Canto IX, quando os gregos estão sendo massacrados por Heitor, Odisseu lidera a embaixada para convencer o furioso Aquiles a voltar à batalha.
A estrutura de seu discurso é uma obra-prima de persuasão: apela para a empatia (descrevendo o sofrimento dos gregos); apela para a honra heroica (a chance de matar Heitor); apela para a ganância/recompensa (listando os tesouros que Agamémnon oferece); e lembra Aquiles dos conselhos de seu próprio pai, Peleu, sobre controlar o orgulho.
Embora Aquiles rejeite a oferta, o discurso de Odisseu demonstra sua capacidade de adaptar sua mensagem ao ouvinte, buscando sempre o resultado mais pragmático.
A Razão contra a Paixão Absoluta
O contraste mais fascinante na Ilíada não é apenas entre gregos e troianos, mas entre as visões de mundo de Aquiles e Odisseu. Isso culmina no Canto XIX.
Após a morte de Pátroclo, Aquiles finalmente retorna à aliança, movido por um luto cósmico e uma fúria incontrolável. Ele quer lançar o exército imediatamente ao ataque, recusando-se a comer ou beber. Odisseu intervém e o freia publicamente, argumentando que os homens não podem lutar com o estômago vazio e que o luto não pode parar a engrenagem da vida e da guerra. Dessa forma, Aquiles representa o transcendente, o herói que aceita a morte jovem em troca de glória (kleos); e Odisseu representa a mortalidade crua, as necessidades biológicas, a sobrevivência e o pragmatismo humano.
O Estrategista Frio e Inflexível (A Doloneia)
No Canto X, Odisseu e Diomedes realizam uma missão de infiltração noturna no acampamento troiano (a chamada Doloneia). Aqui, vemos um lado mais sombrio e letal de Odisseu. Os heróis capturam um espião troiano chamado Dolon. Odisseu usa táticas de interrogatório, dando a Dolon falsas esperanças de que sua vida será poupada se colaborar. Assim que Dolon entrega todas as informações estratégicas necessárias, Diomedes o decapita (com o consentimento tácito de Odisseu). Ele não é guiado pelas regras de um “combate justo” à luz do dia, mas pela eficiência tática: o inimigo morto não causa problemas.
Um Guerreiro Subestimado, mas Formidável
Mas Odisseu não é apenas um intelectual de bastidores. Quando necessário, é um guerreiro terrível. No Canto XI, quando os generais gregos estão feridos e o pânico se instaura, Odisseu se vê cercado sozinho pelas forças troianas. Em vez de fugir, reflete internamente sobre a covardia, mantém sua posição e luta com extrema bravura, matando vários inimigos até ser ferido e resgatado por Ájax e Menelau.
Conclusão
Na Ilíada, Odisseu é o herói focado no resultado. Enquanto os outros heróis estão preocupados em como vão morrer para alcançar a glória imortal, Odisseu está focado em como sobreviver para garantir a vitória e voltar para casa. Sua ligação direta e favorecimento pela deusa Atena (deusa da sabedoria tática e da guerra justa) é o reflexo divino de sua própria mente calculista. O contraste que Homero estabelece entre as mentes de Odisseu e Aquiles define grande parte da tensão interna do acampamento grego.