Na mitologia grega, Pátroclo é mundialmente conhecido como o maior companheiro de Aquiles. Filho de Menetes e originário da Lócria, foi enviado ainda jovem para a Tessália, para viver na corte do rei Peleu.
A partir desse momento, Pátroclo foi criado ao lado de Aquiles, treinando táticas de guerra e aprendendo medicina em conjunto. Ambos lutaram lado a lado em diversas batalhas, criando um vínculo profundo e inquebrável. No entanto, é na Guerra de Troia, narrada na Ilíada de Homero, que Pátroclo encontra o seu verdadeiro destaque literário e trágico.
A figura de Pátroclo é frequentemente ofuscada pela presença colossal de Aquiles. No entanto, ele é o eixo emocional e estrutural do poema épico. Sem a sua presença, a narrativa de Homero não alcançaria o seu desfecho catártico.
Enquanto Aquiles é consumido pela sua honra ferida (timé) e pela fúria divina (mênis), Pátroclo atua como a bússola moral da história, sendo a antítese perfeita à frieza do herói.
No Canto XVI da Ilíada, Pátroclo aproxima-se de Aquiles em prantos, profundamente comovido com a matança dos aqueus (gregos). Enquanto Aquiles assiste à destruição dos seus aliados com uma indiferença vingativa, Pátroclo sofre as dores do seu povo.
O texto homérico frequentemente usa palavras associadas à gentileza para descrevê-lo. Briseida, ao chorar sobre o cadáver de Pátroclo, lamenta a perda daquele que era “sempre gentil” e que prometera consolar a sua dor. Pátroclo é, em essência, o lado humano que falta a Aquiles.
Pátroclo funciona como uma extensão física e psicológica de Aquiles. Esse conceito atinge o seu ápice quando ele veste a armadura do amigo para assustar os exércitos troianos.
Ao fazer isso, Pátroclo perde momentaneamente a sua própria identidade para se tornar a “sombra” letal do guerreiro mirmídone. Contudo, o fato de não conseguir empunhar a famosa lança de freixo de Aquiles é altamente simbólico: Pátroclo pode imitar a forma do herói, mas não possui a sua essência divina e destrutiva. O seu sacrifício torna-se inevitável e serve como um presságio para a queda do próprio Aquiles.
O momento de maior glória de Pátroclo no campo de batalha (a sua aristeia) é espetacular, mas carrega a semente de sua própria destruição, conhecida como húbris (excesso de orgulho).
Aquiles o havia avisado explicitamente: afaste os troianos dos navios, mas não marche contra as muralhas de Troia. No entanto, inebriado pelo sucesso após matar Sarpédon (filho de Zeus), Pátroclo ignora o aviso, tentando escalar as muralhas três vezes, até ser repelido.
A morte de Pátroclo é notável porque exige a ação conjunta de três forças para derrubá-lo:
Um deus: Apolo, que o desarma e o atordoa;
Um guerreiro comum: Euforbo, que o fere covardemente pelas costas;
O maior herói de Troia: Heitor, que dá o golpe final.
Isso demonstra a magnitude que Pátroclo havia alcançado; ele tornou-se uma ameaça grande demais para ser derrubado por um único mortal.
Se a Ilíada é o poema sobre a fúria de Aquiles, é Pátroclo quem redireciona essa raiva de algo puramente egoísta (contra Agamemnon) para algo de proporções cataclísmicas (contra Troia).
A morte do amigo faz com que a dor consuma Aquiles, substituindo o orgulho pela necessidade visceral de vingança contra Heitor. Sabendo de uma profecia de que matar Heitor selaria o seu próprio destino, Aquiles escolhe conscientemente morrer jovem em troca de glória (kléos) e vingança. Pátroclo foi o alto preço pago pela teimosia de Aquiles.
A relação entre Aquiles e Pátroclo (philia) transcende a amizade comum, sendo um dos tópicos mais debatidos da mitologia grega.
Embora Homero não declare explicitamente que eram amantes físicos, autores da Antiguidade, como Ésquilo e Platão, interpretaram o relacionamento através das lentes da pederastia grega. Diversos fatores na Ilíada indicam um vínculo de almas gêmeas:
A intensidade emocional e o desespero de Aquiles pela morte do amigo;
O desejo de Aquiles de que todos morressem, para que apenas ele e Pátroclo governassem as cinzas de Troia;
O pedido dos fantasmas para que as cinzas de ambos fossem enterradas na mesma urna, inseparáveis na vida e na morte.
Em última análise, Pátroclo é a lente através da qual a tragédia fria e distante da Guerra de Troia se torna algo brutalmente pessoal para o maior dos seus heróis.