RESUMO
O Relato da Viagem Marítima e a Forja das Cartas
A cena tem início num salão do castelo de Elsinore, onde o Príncipe Hamlet dialoga intimamente com o seu amigo Horácio. Hamlet relata os eventos ocorridos no navio que o levava para a Inglaterra, explicando que uma inquietação súbita o impediu de dormir. O príncipe descreve como invadiu os aposentos de Rosencrantz e Guildenstern, roubou o pacote diplomático que eles carregavam e rompeu os selos da correspondência real. Ele revela a Horácio que a carta, escrita pelo Rei Cláudio aos ingleses, ordenava a decapitação imediata de Hamlet assim que ele desembarcasse, sem direito sequer a afiar o machado. Em resposta a essa sentença, Hamlet narra como redigiu uma nova carta usando o estilo cerimonioso da corte e selando-a com o anel sinete de seu falecido pai, que trazia o brasão oficial da Dinamarca. Esta nova carta ordenava ao rei inglês a execução sumária dos portadores (Rosencrantz e Guildenstern) assim que o documento fosse lido, sem conceder-lhes qualquer tempo para confissão. Hamlet assegura a Horácio não sentir nenhum remorso por enviar seus antigos companheiros à morte, pois avalia que eles pereceram ao se intrometerem voluntariamente entre dois adversários perigosos (ele e o Rei). O príncipe, no entanto, confessa sentir muito pelas suas atitudes recentes contra Laertes (o confronto sobre o túmulo), reconhecendo que ambos estão irmanados na mesma dor pela perda dos respectivos pais.
ANÁLISE
O relato da viagem marítima marca a ruptura definitiva na evolução psicológica de Hamlet. O príncipe, anteriormente paralisado pela melancolia e pelo escrúpulo contemplativo, reaparece como um agente tático pragmático e resolutivo. A decisão de violar a correspondência real na escuridão da cabine exemplifica o abandono do idealismo intelectual em favor da ação intuitiva e preventiva. A célebre declaração de Hamlet sobre a existência de uma “divindade que molda nossos fins” (“There’s a divinity that shapes our ends”) sintetiza a resolução de sua crise existencial. O herói reconhece que a razão humana e o planejamento tático são limitados, e que o alinhamento com a ordem providencial é o único caminho para a justiça. A tempestade interior e a ação impulsiva no navio são interpretadas não como meros acasos, mas como instrumentos do destino tragicamente orquestrado. A falsificação do decreto real e a condenação sumária de seus antigos companheiros revelam a assimilação, por parte de Hamlet, das próprias ferramentas de opressão do Estado de Elsinore. A ausência de remorso em relação à sorte de Rosencrantz e Guildenstern reflete a ética militar e política do período: ao se posicionarem voluntariamente como engrenagens do poder tirânico de Cláudio, os cortesãos anularam sua condição de neutralidade, tornando-se vítimas colaterais do choque entre potências opostas. Ao expressar arrependimento pelo confronto na sepultura de Ofélia, Hamlet reconhece em Laertes a sua imagem refletida (“by the image of my cause, I see / The portraiture of his”). Ambos são filhos privados violentamente de seus pais e empurrados pelo dever da vingança de sangue, estabelecendo o paralelismo estético e moral que tornará a disputa final duplamente dolorosa e inevitável.
A Chegada de Osric e os Termos do Duelo
O jovem cortesão Osric, que se distingue pelas suas maneiras excessivamente afetadas e vocabulário floreado, aproxima-se dos dois amigos. Hamlet zomba repetidamente do estilo subserviente de Osric, forçando-o a colocar e retirar o chapéu inúmeras vezes com a justificativa das variações climáticas. Osric consegue finalmente transmitir a sua mensagem, informando que o Rei Cláudio fez uma grande aposta em favor de Hamlet num duelo de esgrima contra Laertes. O mensageiro detalha o prêmio da aposta: o Rei investiu seis cavalos berberes contra seis floretes e adagas francesas trazidos por Laertes, com todos os seus acessórios. A condição estabelecida para o embate determina que, num total de doze assaltos, Laertes não poderá ultrapassar Hamlet por uma vantagem superior a três golpes (toques). O príncipe aceita o desafio, instruindo Osric a levar a mensagem ao Rei de que, se as armas forem trazidas e os reis estiverem prontos, ele lutará naquele exato momento. Logo após a saída de Osric, um nobre entra no salão confirmando se Hamlet comparecerá imediatamente. Ele acrescenta que a Rainha solicita que Hamlet cumprimente Laertes de forma cortês antes de empunhar o florete.
A inserção da personagem Osric cumpre a função de satirizar a futilidade, o afetação linguística e o esvaziamento moral da corte sob o domínio de Cláudio. Osric representa o novo tipo de cortesão: superficial, subserviente e preocupado unicamente com a etiqueta e a moda formal. A facilidade com que Hamlet o manipula e ridiculariza expõe a decadência intelectual da nobreza de Elsinore, incapaz de perceber a tragédia iminente que paira sobre o reino. O arranjo do duelo de esgrima sob o pretexto de uma aposta amigável ilustra a instrumentalização da cultura cortês para fins de assassinato político. A estrutura da aposta (cavalos berberes contra armamentos franceses) funciona como um espetáculo público idealizado para ocultar o complô mortal arquitetado por Cláudio e Laertes. O diálogo ligeiro, cômico e excessivamente floreado entre Hamlet, Horácio e Osric cria um contraste dramático com a gravidade da conspiração que o espectador já conhece. A frivolidade da cena prepara o ambiente para o colapso brutal que se seguirá, acentuando a tensão antes da catástrofe final.
O Presságio e a Entrada da Corte
Já a sós com Horácio novamente, Hamlet confessa sentir um peso súbito e uma estranha apreensão no coração a respeito da disputa iminente. Horácio, notando o mau pressentimento do amigo, oferece-se para interceptar a corte e dizer que o príncipe não se encontra em condições físicas para lutar. Hamlet recusa categoricamente a oferta. Ele desdenha os augúrios, cita a providência na queda de um simples pardal e declara a sua aceitação absoluta do destino dizendo que “estar pronto é tudo”. Soa a fanfarra. Entram no salão o Rei Cláudio, a Rainha Gertrudes, Laertes, Osric, outros senhores, além de criados que carregam almofadas com os floretes de esgrima, as manoplas protetoras e jarras de vinho.
A recusa de Hamlet em adiar o confronto, a despeito do mau pressentimento que o assalta, marca a transição do solilóquio “Ser ou não ser” para o princípio do “Let be” (deixar estar). A citação bíblica sobre a queda de um simples pardal (“special providence in the fall of a sparrow”) traduz a síntese entre o estoicismo clássico e a teologia cristã: a morte deixa de ser um enigma aterrorizante e passa a ser compreendida como um evento inevitável e ordenado pelo cosmos. Esta máxima sintetiza a maturação filosófica do herói trágico. Hamlet abandona a obsessão por controlar as circunstâncias materiais ou o momento perfeito da vingança. A prontidão não significa passividade, mas a aceitação consciente da mortalidade e a disposição moral para agir no momento em que a oportunidade se apresentar. A entrada solene da corte, acompanhada por fanfarras, armas decoradas e aparato real, representa o último suspiro da ilusão de estabilidade mantida por Cláudio. A magnificência visual do espetáculo palaciano serve como máscara para a corrupção oculta, criando uma ironia trágica onde o ritual de reconciliação é, na realidade, o palco da liquidação da dinastia.
A Preparação para o Embate e os Primeiros Toques
Seguindo o pedido da Rainha e o incentivo do Rei, Hamlet pega a mão de Laertes e pede-lhe perdão publicamente. Ele atribui todas as ofensas causadas unicamente à sua “loucura”. Laertes responde que seus sentimentos e a sua natureza estão satisfeitos, mas que manterá a sua posição na questão de honra até ser aconselhado por mestres experientes; mesmo assim, aceita o gesto e declara que jogarão amigavelmente. Os lutadores dirigem-se à escolha das armas. Na distribuição, Laertes seleciona um florete específico, o qual ele sabe não possuir a ponta cega de proteção e estar molhado com o seu veneno letal. O Rei Cláudio anuncia que, caso Hamlet marque o primeiro ou o segundo ponto, os canhões das muralhas deverão disparar e o rei beberá à saúde do príncipe. Em seguida, Cláudio atira na taça uma pérola (chamada “união”), que envenena o vinho. O duelo tem início. No primeiro assalto, Hamlet atinge Laertes, ponto que é confirmado pelos juízes e por Osric. O Rei oferece a taça adulterada a Hamlet, mas este recusa, optando por lutar o segundo assalto antes de beber. O embate recomeça, e Hamlet consegue aplicar o segundo toque no oponente.
O pedido de desculpas de Hamlet a Laertes opera uma divisão crucial na psicologia do herói. Ao atribuir as suas ofensas e o assassinato de Polônio à sua “loucura” (“Was’t Hamlet wrong’d Laertes? Never Hamlet”), o príncipe estabelece uma distinção entre o seu eu essencial e a persona trágica/alienada que foi forçado a assumir para sobreviver em Elsinore. O gesto é genuíno em sua dimensão humana, mas politicamente insuficiente. A resposta de Laertes revela a trágica corrupção do seu código de honra. Ele aceita verbalmente o afeto de Hamlet, mas recusa a reconciliação formal até que mestres de honra julguem o caso. Esta posição hipócrita torna-se dramática ao sabermos que, enquanto pronuncia palavras de cortesia, Laertes segura deliberadamente uma espada sem proteção e banhada em veneno mortal. Laertes sacrificou a sua integridade moral e cavalheiresca em nome de uma vingança cega alimentada por Cláudio. A ação de Cláudio ao dissolver a pérola (“união”) na taça de vinho sob o pretexto de homenagear a saúde do príncipe constitui a inversão profana do ritual eucarístico. O rei oferece a morte travestida de benção e celebração, consolidando o motivo do veneno — físico e moral — que contamina todas as instâncias de seu governo desde o assassinato de seu irmão no jardim.
O Envenenamento e as Mortes Múltiplas
A Rainha Gertrudes, celebrando o vigor recuperado do filho, toma a taça envenenada para brindar à sorte de Hamlet. O Rei Cláudio, temendo pela esposa, roga-lhe que não beba, mas Gertrudes ignora o pedido, consome o líquido venenoso, e a seguir enxuga o suor do rosto de Hamlet. O terceiro assalto inicia-se; eles trocam estocadas, mas não pontuam. Durante um instante em que Hamlet baixa a guarda, Laertes ataca-o subitamente, perfurando-lhe a pele com a ponta afiada e envenenada do florete. Inicia-se uma altercação violenta de corpo a corpo. No tumulto, ambos os combatentes deixam cair suas armas no chão. Ao pegá-las novamente do chão, ocorre a troca das armas. Hamlet apodera-se do florete letal de Laertes e atinge o oponente de volta, ferindo-o com a ponta envenenada. A Rainha Gertrudes desaba. O Rei grita que ela desmaiou ao ver sangue, mas ela consegue clamar que o vinho estava envenenado antes de expirar e morrer. Laertes, caindo logo a seguir, confessa ao príncipe que ambos estão mortos, sem tempo ou remédio no mundo que possa salvá-los, revelando a troca do florete e o veneno contido na arma. Antes de falecer, Laertes declara em alta voz que o Rei Cláudio é o único culpado por tudo. Com esta revelação, Hamlet atira-se contra o Rei e apunhala-o com a espada envenenada. Não satisfeito, o príncipe despeja à força o resto do vinho envenenado pela garganta do monarca, e Cláudio morre perante a corte horrorizada. Laertes e Hamlet trocam um último e rápido perdão antes que o jovem Laertes suspire pela última vez.
A morte de Gertrudes representa a ruptura definitiva do controle de Cláudio sobre as variáveis do seu complô. A rainha, que passou a obra entre a ignorância dos crimes do marido e a proteção do filho, morre ao consumir o veneno destinado a Hamlet. Sua morte desmonta a fachada do espetáculo real e força a revelação da verdade em pleno salão. A troca das espadas durante o confronto físico introduz a dimensão da justiça poética. Laertes é ferido pela própria arma envenenada que preparou em segredo, exemplificando o tema recorrente da obra onde o conspirador é destruído pela própria armadilha (“as a woodcock to my own springe”). Antes de falecer, Laertes liberta-se da manipulação do rei, confessa a trama e reconcilia-se espiritualmente com Hamlet, redirecionando a culpa moral unicamente para o soberano. Hamlet cumpre finalmente a promessa feita ao fantasma de seu pai através de um ato duplo e simétrico de punição: apunhala Cláudio com a lâmina envenenada e força-o a beber o restante do vinho tóxico. O rei usurpador morre vítima dos dois métodos de assassinato que ele próprio arquitetou (o ferro e o veneno), selando a restauração do equilíbrio moral da Dinamarca através da eliminação da fonte da contaminação do Estado.
O Último Fôlego e o Desfecho Político
Sentindo o veneno paralisar o seu próprio sangue e sabendo que lhe restam poucos momentos, Hamlet dirige-se ao seu leal amigo Horácio, que agarra a taça envenenada com restos de bebida, declarando-se um romano antigo, pronto para seguir o seu príncipe na morte. Em sua última explosão de força física, Hamlet toma violentamente a taça das mãos de Horácio, implorando-lhe que resista à tentação da morte e permaneça no mundo cruel para contar a sua história e limpar a sua reputação. Ouvem-se sons de marcha militar e tiros bélicos à distância. Osric entra e relata que o Príncipe Fortimbrás da Noruega está regressando vitorioso e acaba de saudar os embaixadores da Inglaterra. Em seus momentos finais, Hamlet profetiza que Fortimbrás será eleito o novo Rei da Dinamarca, entrega-lhe o seu “voto moribundo” (sua sucessão) e profere suas últimas palavras: “O resto é silêncio”, falecendo no chão. Imediatamente após a morte do príncipe dinamarquês, Fortimbrás e os Embaixadores Ingleses entram no salão acompanhados de soldados. Os embaixadores constatam o massacre real e relatam que as ordens de morte para Rosencrantz e Guildenstern já foram cumpridas na Inglaterra. Horácio cumpre o seu juramento, assumindo diante das autoridades recém-chegadas a missão de narrar detalhadamente todas as mortes, julgamentos acidentais e assassinatos inaturais que acabaram com a dinastia de Elsinore. A cena encerra-se com Fortimbrás assumindo o poder dinamarquês. Ele ordena que quatro capitães ergam o corpo de Hamlet em um palanque, tratando-o com honras fúnebres de um soldado, e que se disparem os canhões, esvaziando finalmente o salão repleto de cadáveres.
A tentativa de Horácio de cometer suicídio bebendo os restos do vinho envenenado reflete o ideal do estoicismo clássico romano (“I am more an antique Roman than a Dane”). Contudo, Hamlet impede-o, atribuindo-lhe uma missão de vital importância: sobreviver num mundo doloroso para contar a história e impedir que o seu nome permaneça manchado por calúnias. A narrativa correta dos fatos surge como o último imperativo ético de Hamlet, garantindo a integridade da sua memória histórica. As últimas palavras do príncipe marcam o encerramento da linguagem, da reflexão intelectual e do sofrimento terreno. O silêncio final contrapõe-se ao ruído contínuo de mentiras, conspirações, espionagens e discursos afetados que caracterizaram a corte de Elsinore ao longo de toda a tragédia. A chegada do Príncipe Fortimbrás da Noruega garante a continuidade institucional do reino. Fortimbrás representa o oposto complementar de Hamlet: é o homem de ação pura, desprovido de dilemas existenciais ou paralisia filosófica. Ao reivindicar os seus direitos históricos sobre a coroa dinamarquesa e ordenar honras militares ao corpo de Hamlet, Fortimbrás encerra a espiral de destruição interna, reordenando o Estado sob uma nova liderança forte e pragmática.

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