RESUMO
A Preparação da Cova e o Debate dos Coveiros
O cenário estabelece-se em um cemitério em Elsinore, onde dois coveiros rústicos (frequentemente referidos como palhaços) estão cavando uma nova sepultura. Os trabalhadores debatem entre si se a pessoa que ali será enterrada tem o direito legal e religioso a um enterro cristão, visto que há fortes suspeitas de que ela tenha cometido suicídio. O primeiro coveiro tenta utilizar argumentos pseudo jurídicos e lógicos para provar que a morte (por afogamento) foi um ato voluntário da falecida. O segundo coveiro argumenta que o enterro cristão só foi autorizado porque a defunta é uma mulher pertencente à alta nobreza, sugerindo que as regras religiosas são dobradas para os ricos. O primeiro coveiro instrui o seu companheiro a ir até uma taverna local buscar bebida, permanecendo sozinho na cova. Ele continua o seu trabalho atirando ossos antigos para fora da terra enquanto canta uma canção sobre a juventude e as amarguras da velhice.
ANÁLISE
O debate inicial entre os coveiros sobre o enterro de Ofélia parodia diretamente os meandros jurídicos da época renascentista, em especial o célebre julgamento inglês Hales v. Petit (1562), que discutia a natureza voluntária ou involuntária do suicídio e suas consequências na perda de bens e direitos religiosos. A distinção absurda feita pelo coveiro entre “o homem ir à água” ou “a água vir ao homem” expõe a pedantismo das cortes e a arbitrariedade da casuística jurídica. A constatação do segundo coveiro de que Ofélia só recebe sepultura cristã por ser uma mulher “nobre” desmascara a corruptibilidade das instituições religiosas e estatais. O texto evidencia que as leis eclesiais contra o suicídio eram rigidamente aplicadas aos pobres, mas flexibilizadas para as elites, estabelecendo um contraste ácido entre a igualdade espiritual pregada pelo dogma e a seletividade praticada pelo poder real. A presença dos trabalhadores rústicos (clowns) no início do quinto ato cumpre a função dramática de comic relief (alívio cômico), mas vai muito além disso. A convivência diária do coveiro com os mortos dessensibiliza-o diante do horror da decomposição, permitindo que ele cante e brinque no próprio túmulo. Esse humor macabro prepara o espectador para a transição do tom da peça: da melancolia contemplativa e da paranoia política dos atos anteriores para a aceitação trágica da mortalidade.
A Chegada do Príncipe e as Observações sobre a Mortalidade
O Príncipe Hamlet e o seu amigo Horácio entram no cemitério e observam o coveiro a trabalhar e a cantar. Hamlet demonstra a Horácio o seu incômodo e choque diante da naturalidade do coveiro, que canta enquanto atira crânios para fora da cova. O príncipe apanha os crânios atirados à terra e especula detalhadamente sobre as identidades e as profissões que aquelas pessoas poderiam ter tido em vida — imaginando políticos corruptos, cortesãos bajuladores, advogados repletos de propriedades ou especuladores — constatando que todos acabaram reduzidos a ossos sem distinção. Hamlet aborda diretamente o trabalhador e questiona para quem ele está cavando a sepultura. Segue-se um diálogo repleto de trocadilhos e respostas literais, no qual o coveiro diz não estar cavando para um homem nem para uma mulher, mas para alguém “que já foi mulher”.
Ao retornar da Inglaterra, Hamlet não entra diretamente no palácio real, mas no cemitério. Este espaço liminar — situado fora do centro do poder político de Elsinore — permite ao príncipe contemplar a sociedade dinamarquesa sob uma perspetiva distante e desiludida. A terra do cemitério funciona como um grande equalizador onde as hierarquias de Elsinore deixam de ter validade. A especulação de Hamlet sobre os crânios desenterrados (imaginando advogados, políticos e compradores de terras) constitui um ataque direto às vaidades e ambições mundanas. O príncipe desconstrói a autoridade humana demonstrando que as habilidades retóricas, os títulos de propriedade e as intrigas políticas não protegem ninguém da decomposição e do esquecimento físico. O confronto verbal entre Hamlet e o coveiro revela a perda do monopólio da ironia por parte do príncipe. Acostumado a manipular as palavras para desorientar a corte, Hamlet encontra no coveiro um oponente que usa o literalismo rigoroso para derrotá-lo na linguagem. A resposta do trabalhador — de que a cova não é para homens nem mulheres, mas para uma defunta — sublinha a neutralidade da morte perante as categorias sociais e de gênero.
O Crânio de Yorick
Durante a conversa, o coveiro revela a Hamlet que exerce o ofício exatamente desde o dia em que o falecido Rei Hamlet derrotou Fortimbrás da Noruega, informando também que esse foi o exato dia do nascimento do jovem Príncipe Hamlet (o que estabelece a idade do príncipe em trinta anos). O coveiro aponta para um crânio específico no chão, informando que o osso jaz na terra há exatos vinte e três anos. Ao ser interrogado por Hamlet sobre a identidade do morto, o coveiro responde que se trata do crânio de Yorick, o antigo bobo da corte do Rei Hamlet. Hamlet toma o crânio nas mãos e relata a Horácio memórias físicas e vívidas da sua infância com Yorick (que o carregava às costas mil vezes). O príncipe discorre verbalmente sobre a decomposição, perguntando a Horácio se figuras imponentes da história, como Alexandre, o Grande, e Júlio César, teriam tido o mesmo cheiro e o mesmo destino literal de servirem como argamassa para tapar buracos e barris.
A aparição do crânio de Yorick marca um momento decisivo na tragédia. Até este ponto, o confronto de Hamlet com a morte dava-se no plano abstrato (o fantasma, o solilóquio “Ser ou não ser”). O crânio do antigo bobo da corte força uma conexão visceral e afetiva com o passado: Yorick representa a infância perdida, o afeto genuíno e a alegria que existiam na Dinamarca antes do fratricídio cometido por Cláudio. Ao segurar o osso e sentir a repulsa pelo cheiro da decomposição (“A minha garganta empina-se só de pensar”), Hamlet vivencia o memento mori (lembra-te de que vais morrer) de forma física e não apenas intelectual. A mortalidade deixa de ser uma tese filosófica e torna-se uma realidade corpórea e inevitável. Ao traçar o destino do pó de Alexandre, o Grande, e de Júlio César até servirem de bucha para tapar buracos ou barris de cerveja, Hamlet atinge o ápice do seu desilusionamento. A grandeza militar e a glória imperiais são reduzidas à sua substância química elementar (o barro). Esta visão materialista e dessacralizada da existência anula a pretensão de imortalidade secular pela fama.
O Cortejo Fúnebre e a Revelação
Um cortejo fúnebre aproxima-se. Hamlet e Horácio recuam e escondem-se para observar em silêncio. O grupo é composto pelo Rei Cláudio, a Rainha Gertrudes, Laertes, um Sacerdote, cortesãos e os carregadores de um caixão. Observando os “ritos mutilados” (cerimônia reduzida e sem todas as honras litúrgicas), Hamlet deduz que o cadáver pertence a alguém da nobreza que tirou a própria vida. Laertes questiona asperamente o Sacerdote, exigindo cerimônias e cantos mais extensos para o enterro. O Sacerdote recusa o pedido, declarando que a morte foi de natureza duvidosa e que seria uma profanação aos mortos em paz cantar o réquiem completo; afirma que a defunta deveria, de fato, receber pedras no lugar de orações. Durante a cerimônia, Laertes refere-se à morta como sua irmã, revelando finalmente a Hamlet que o corpo prestes a ser enterrado é o de Ofélia.
O funeral de Ofélia é marcado por uma forte tensão entre o sacerdócio e a nobreza. A recusa do Sacerdote em conceder os ritos completos evidencia a rigidez do dogma eclesial, que enxerga o corpo de Ofélia como profano. A insistência de Laertes em exigir honras para a irmã e a sua imprecação contra o padre (“Anjo bendito ela será no céu, enquanto tu a uivaras no inferno”) expõe a fratura entre a compaixão humana e o legalismo religioso. A revelação repentina de que o funeral pertence a Ofélia funciona como um anagnórisis (reconhecimento trágico) doloroso para Hamlet. Durante o seu exílio e regresso, o príncipe permaneceu ignorante quanto ao impacto direto que a morte de Polônio causou na sanidade e na vida da jovem que amava. A descoberta súbita do cadáver destrói qualquer distanciamento filosófico que ele havia construído minutos antes com o crânio de Yorick.
O Embate Físico na Sepultura
A Rainha Gertrudes atira flores sobre o túmulo aberto de Ofélia, declarando que esperava adornar o leito nupcial da jovem (com Hamlet) e não a sua sepultura. Dominado pelo luto, Laertes amaldiçoa aquele que causou a tragédia (referindo-se a Hamlet, sem saber que este o ouve) e salta para dentro do buraco da sepultura, pedindo que a terra seja atirada sobre ele e o corpo da irmã. Hamlet abandona o seu esconderijo e avança publicamente, anunciando a sua presença em altos brados: “Este sou eu, Hamlet, o dinamarquês”. O príncipe salta para dentro da mesma cova onde se encontra Laertes. Este, enfurecido, larga o corpo da irmã, avança contra Hamlet e o agarra violentamente pela garganta. Ocorre uma severa luta física entre os dois dentro do túmulo.
O salto de Laertes para dentro da cova e a sua declaração dramática representam um modelo de luto e vingança puramente melodramático, focado na exibição pública e na ação impetuosa. A reação de Hamlet ao saltar para o túmulo não é apenas motivada pelo amor por Ofélia, mas pela repulsa diante daquilo que considera uma teatralidade oca por parte de Laertes. A luta física entre Hamlet e Laertes dentro da própria sepultura aberta de Ofélia é um momento de extrema densidade simbólica. Ao combaterem sobre a terra e os ossos, os dois jovens antecipam visualmente a sua própria destruição iminente. A cova converte-se no espaço antecipado do duelo final que encerrará a peça. Quando Hamlet irrompe da escuridão e declara: “Este sou eu, Hamlet, o dinamarquês” (Hamlet the Dane), ele assume pela primeira vez na peça o título formal reservado aos reis legítimos da Dinamarca. Ele abandona a postura evasiva e a máscara da hesitação para reivindicar a sua identidade, o seu nome e a sua legitimidade soberana em público, desafiando abertamente a autoridade de Cláudio.
A Separação e a Partida
O Rei Cláudio e a Rainha Gertrudes gritam para que a luta seja interrompida, enquanto Horácio e outros cortesãos puxam ambos para fora da cova e os separam. Hamlet declara abertamente o seu amor incondicional por Ofélia, afirmando que a soma do amor de “quarenta mil irmãos” não poderia se igualar ao dele. O príncipe desafia Laertes de forma provocativa, perguntando o que ele estaria disposto a fazer por Ofélia, propondo ações como chorar, jejuar, rasgar a própria carne, beber vinagre ou ser enterrado vivo junto com ela, afirmando que faria o mesmo. Gertrudes interfere em favor do filho, justificando aos presentes que o discurso inflamado de Hamlet é um mero acesso passageiro de loucura. Hamlet dirige-se a Laertes questionando o motivo de tamanha hostilidade contra ele e, sem esperar por uma resolução pacífica, sai correndo abruptamente do cemitério. Horácio corre logo em seguida para acompanhá-lo. A cena finaliza-se com o Rei Cláudio pedindo a Horácio que vigie Hamlet, enquanto se volta para Laertes e, discretamente, o lembra do acordo que haviam feito no dia anterior (o planejamento do duelo), pedindo que o jovem mantenha a paciência para o desenlace iminente.
As declarações de Hamlet de que o amor de “quarenta mil irmãos” não alcançaria o seu, seguidas por desafios extravagantes a Laertes (beber vinagre, comer um crocodilo, ser enterrado vivo), revelam a dor sufocada do príncipe. Hamlet ridiculariza a tentativa de quantificar a dor, demonstrando que o seu afeto por Ofélia era profundo, embora atropelado pelas exigências do seu dever de vingar o pai. A intervenção de Gertrudes ao classificar a conduta de Hamlet como um “acesso de loucura” serve como um escudo protetor materno, mas também reflete a incapacidade da corte em compreender a verdade por trás das palavras do príncipe. A corte prefere enquadrar o sofrimento e a fúria de Hamlet dentro da categoria confortável da patologia mental para evitar encarar as suas denúncias políticas e morais. O encerramento da cena consolida a figura de Cláudio como um tático frio e calculista. Enquanto os outros se chocam com o escândalo no cemitério, Cláudio utiliza o sofrimento e o ódio de Laertes para selar o complô do duelo envenenado. O rei reorienta a fúria do jovem, transformando o cemitério no prelúdio imediato do massacre que selará o destino da dinastia dinamarquesa.

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