RESUMO
A Viagem aos Confins da Terra
Seguindo as estritas instruções da feiticeira Circe, Odisseu e sua tripulação navegam até aos confins do rio Oceano, chegando à terra dos cimérios — um lugar perpetuamente envolto em névoa e escuridão, onde os raios do sol nunca penetram.
O Fosso e a Necromancia
Na entrada do submundo, Odisseu cava um fosso e realiza as libações sagradas (mistura de mel, leite, vinho, água e farinha branca) prometendo sacrifícios quando voltar a Ítaca. Em seguida, degola um carneiro e uma ovelha negros.
O Poder do Sangue
O sangue escorre para o fosso, e as almas dos mortos emergem das profundezas de Érebo, enxameando assustadoramente. As almas são como sombras desmemoriadas: precisam beber o sangue recém-derramado para readquirir a consciência, a memória e a capacidade de falar. Odisseu deve, com sua espada desembainhada, rechaçar os mortos e protegê-lo até que o profeta Tirésias o beba.
ANÁLISE
Na tradição literária, a descida ao submundo (a katábasis) é o rito de iniciação definitivo do herói. Ao obrigar Odisseu a navegar até às fronteiras da morte, Homero força-o a confrontar a sua própria mortalidade. Odisseu entra no Hades como um guerreiro de Troia, ainda apegado ao passado e às suas patentes militares, mas emerge de lá como um sobrevivente focado unicamente no futuro (Ítaca). A morte do seu antigo “ego heroico” nas sombras é o preço pago pelo renascimento do homem resiliente que finalmente retornará a casa. O ritual necromântico possui um peso filosófico formidável: as almas perdem a consciência no Hades e só conseguem falar, lembrar-se quem foram e reconhecer Odisseu após beberem o sangue escuro derramado no fosso. O sangue é a vitalidade dos vivos. Isso ensina que o passado (os mortos e a história) é uma sombra muda que se dissipa no tempo: só ganha voz e forma quando nós, os vivos, lhe oferecemos a nossa própria energia vital (o sangue) através da lembrança e da reverência. A memória exige o sacrifício do presente.
Elpenor: A Fragilidade da Vida e o Dever dos Vivos
A primeira alma a aproximar-se não é o profeta que Odisseu procura, mas o seu jovem companheiro Elpenor, que morrera de forma absurda no Canto X ao cair de um telhado embriagado, cujo corpo fora deixado para trás insepulto. Elpenor implora que Odisseu retorne à ilha de Circe para lhe dar um enterro digno (queimar seu corpo com as armas e erguer um túmulo), ameaçando invocar a fúria divina caso seja ignorado. Este encontro evidencia que, mesmo perante o infinito cósmico, os rituais mortuários de passagem e o respeito humano permanecem leis irrevogáveis.
O jovem que quebrou o pescoço ao cair do telhado embriagado exige sepultamento. Ele é a materialização da culpa de Odisseu enquanto líder: a lembrança de que os comandantes devem prestar contas não apenas nas grandes batalhas, mas pela vida dos seus homens mais vulneráveis e esquecidos.
O Profeta Tirésias
Finalmente, aproxima-se Tirésias, o lendário adivinho cego de Tebas, portando um cetro de ouro. Após beber o sangue, ele desenha o mapa fatal para Odisseu.
O Aviso Crucial
A viagem será árdua devido à ira de Poseidon. O teste definitivo ocorrerá na ilha de Trinácria. Odisseu e seus homens não devem, sob hipótese alguma, tocar no rebanho sagrado de Hélio (o deus Sol). Se o fizerem, a destruição da frota e da tripulação é certa.
O Retorno Sangrento e o Pós-Guerra
Tirésias profetiza que Odisseu chegará a Ítaca tarde, num navio estrangeiro, tendo perdido todos os companheiros. Lá, encontrará sua casa infestada de pretendentes e terá de eliminá-los.
A Última Jornada
A profecia vai além da Odisseia. Após limpar sua casa, Odisseu deverá pegar um remo e caminhar para o interior até encontrar um povo que desconheça o mar e o sal (que confundirão o remo com uma pá de joeirar). Lá deverá plantar o remo e oferecer sacrifícios a Poseidon para finalmente apaziguar o deus. Só então poderá voltar para casa e aguardar uma morte doce e suave na velhice.
A profecia de Tirésias sobre o destino final de Odisseu contém o simbolismo mais rico do Canto. Tirésias diz que, para se apaziguar com Poseidon, Odisseu deve pegar num remo e caminhar terra adentro até que um povo desconhecedor do mar chame o remo de “pá de joeirar” (instrumento agrícola de separar o grão da palha). O remo é o símbolo do mar, da guerra, do sofrimento incerto e da ira de Poseidon. A pá de joeirar é o símbolo da terra firme, da agricultura, da paz e da civilização estável. Ao plantar o remo na terra e transformá-lo conceitualmente numa ferramenta agrícola, Odisseu funde e harmoniza os dois mundos. Ele expia os seus “pecados” marítimos ancorando-se, em definitivo, nas raízes terrenas da vida humana, garantindo a sua velhice tranquila e a prosperidade do seu povo.
Anticleia e a Natureza Dolorosa da Morte
Um dos momentos mais comoventes de toda a literatura ocidental ocorre quando Odisseu reconhece a sua mãe, Anticleia, cuja morte ele desconhecia até então. Ela revela que não morreu de doença ou ferimento, mas de puro desgosto e saudade aguda por esperar o retorno do filho. Ao mesmo tempo, atualiza-o sobre Ítaca: Telêmaco sofre pressões, Penélope resiste em lágrimas e Laerte (o pai) vive miseravelmente nos campos como um mendigo.
O Abraço Vazio
Tomado por uma angústia atroz, Odisseu tenta abraçar a mãe três vezes. Nas três vezes, seus braços trespassam a alma como se ela fosse um sonho ou fumaça. Anticleia explica a “lei da morte”: o fogo da pira funerária devora a carne e os ossos, deixando apenas a alma esvoaçante e intangível.
A âncora emocional é o encontro com Anticleia, a mãe de Odisseu. A sua revelação de que morreu de “saudade” e desgaste demonstra a dimensão invisível da guerra. A tragédia épica não se limita aos que sangram no campo de batalha, mas consome silenciosamente as mães, esposas e pais que esperam no escuro. A dolorosa tentativa de Odisseu abraçar fumaça três vezes é a metáfora perfeita para a incomunicabilidade entre o espírito e a matéria.
O Catálogo das Mulheres
Odisseu permite que um desfile das grandes rainhas, heroínas e matriarcas da antiguidade mítica (como Tiro, Antíope, Alcmena, Epicasta, Leda) bebam o sangue e contem as suas trágicas histórias.
O Corte Narrativo
Aqui, Homero insere uma pausa brilhante. A narrativa volta ao tempo presente, no salão do rei Alcínoo na terra dos feácios. A rainha Arete e os nobres ficam paralisados em admiração profunda. Alcínoo garante que Odisseu receberá presentes inestimáveis e o retorno a Ítaca, e pede que ele continue o relato para contar se viu algum dos seus antigos companheiros de guerra em Troia.
A Odisseia contrasta com a Ilíada por colocar as mulheres no centro do tecido social e cósmico. O “Catálogo das Heroínas e Rainhas” (que Odisseu entrevista antes dos homens) valida o poder das linhagens matriarcais e prepara o cenário para a exaltação da fidelidade astuta de Penélope.
Os Heróis de Troia
Odisseu retoma a história detalhando os encontros masculinos, que servem para desconstruir e criticar os valores épicos da Ilíada:
Agamemnon
O antigo comandante supremo de todos os gregos Agamemnon surge em lágrimas e narra seu assassinato ignóbil pelas mãos de sua esposa Clitemnestra e do amante dela, Egisto. Amargurado, decreta que “já não se pode confiar nas mulheres” e aconselha Odisseu a retornar a Ítaca em segredo absoluto, duvidando até da castidade de Penélope.
Aquiles
O encontro central. Odisseu tenta consolar Aquiles lembrando-o do seu kléos (sua imensa glória) e dizendo que ele reina mesmo entre os mortos. A resposta de Aquiles choca qualquer guerreiro antigo: “Não me tentes consolar da morte, glorioso Odisseu. Eu preferiria estar na terra, a trabalhar como servo para um homem pobre e sem posses, a reinar sobre todos os mortos já extintos.” Esta frase vira do avesso o heroísmo clássico; a vida miserável suplanta a morte gloriosa. (Ele só sorri quando Odisseu relata a bravura do seu filho, Neoptólemo).
Ájax
A alma do grande Ájax mantém-se distante; ainda guarda rancor por Odisseu tê-lo derrotado na disputa pelas armas do falecido Aquiles (o que levou Ájax ao suicídio). Apesar do pedido de perdão de Odisseu, Ájax recusa-se a falar e volta-se de costas em silêncio absoluto. As paixões, o ódio e o orgulho sobrevivem à morte da carne.
As almas masculinas que Odisseu encontra funcionam como representações psicológicas do trauma de guerra, mostrando que as feridas da alma sobrevivem à decomposição do corpo. O general Agamemnon representa o choque do veterano que regressa ao lar apenas para ser destruído por aqueles que deveria proteger. A sua misoginia e o conselho para que Odisseu desconfie de Penélope ilustram como a traição destrói a capacidade de confiar na humanidade. O Canto XI promove a maior ruptura ideológica da Antiguidade em relação aos valores celebrados na Ilíada. Na Ilíada, o valor absoluto era o kléos (a glória imperecível), geralmente conquistada através de uma morte bela em combate. Contudo, ao encontrar o espírito de Aquiles — o maior de todos os heróis caídos —, Odisseu ouve uma declaração que estilhaça esse ideal: Aquiles afirma que preferiria ser um servo miserável, trabalhando a terra para um homem pobre e vivo, a ser o rei de todos os mortos. Aqui, a narrativa subverte o mito bélico. A Odisseia decreta que a vida orgânica, por mais sofrida, suja e humilde que seja, é infinitamente superior ao mármore frio da glória póstuma. A vitória não é morrer de forma memorável, mas sobreviver. O encontro com Ájax, que se recusa a falar e lhe vira as costas num silêncio gélido, é uma das passagens mais assombrosas do texto. Demonstra que o perdão não surge automaticamente com a morte. O orgulho ferido, as disputas mesquinhas (pelas armas de Aquiles) e a amargura da guerra cristalizam-se na eternidade.
O Panteão dos Condenados
Na parte final da sua visão, Odisseu avista o grande tribunal de Minos e os castigos eternos dos grandes pecadores (o Tártaro moral).
Tântalo
Mergulhado num lago com água até ao queixo e árvores frutíferas acima da cabeça, sofre fome e sede eternas, pois a água seca e o vento afasta as frutas toda a vez que ele tenta consumi-las.
Sísifo
Condenado a rolar uma enorme pedra até ao cume de uma montanha, apenas para ver a pedra rolar implacavelmente para baixo e ter de recomeçar para todo o sempre.
O Terror e a Fuga
Após falar com o fantasma de Héracles, Odisseu pretende ver outros heróis, mas o barulho infernal aumenta. Dezenas de milhares de almas reúnem-se ao redor do fosso com gritos assustadores. Tomado por um pavor incontrolável de que Perséfone lhe envie a cabeça da Górgona (um monstro que o transformaria em pedra), Odisseu foge em desespero para o navio e ordena a seus homens que icem as velas imediatamente.
Quando Odisseu vislumbra o Tártaro e os grandes pecadores, não está apenas a ver um “espetáculo de horrores”; está a receber uma aula magistral sobre a Teodiceia (a Justiça Divina) e a punição da Húbris (o orgulho cego e desmedido). A punição de Tântalo é a mais pura tortura psicológica. Ele testou a omnisciência dos deuses (servindo-lhes o próprio filho num banquete). A sua pena é a personificação da frustração eterna. O universo provoca os seus instintos básicos (fome e sede), apenas para lhe retirar o alívio no último milissegundo. É a ironia cósmica suprema: quem tentou enganar os sentidos dos deuses é agora eternamente enganado pelos próprios sentidos. Já Sísifo foi o mortal mais astuto, ousando aprisionar a própria Morte (Tânatos). A sua punição reflete o seu crime: o seu intelecto brilhante e a sua energia inesgotável são canalizados para uma tarefa propositadamente inútil. A pedra que rola montanha abaixo é a prova de que, perante a ordem cósmica, a rebeldia humana é circular e fútil. Ao presenciar esses dois casos, para Odisseu, é um aviso aterrador de que a sua própria mêtis (astúcia) tem limites; ele não deve desafiar os deuses como o fez ao cegar o Ciclope. E, para o leitor, é a antecipação profética (prolepse) do que aguarda os cruéis Pretendentes em Ítaca, que, naquele exato momento, estão a cometer as suas próprias húbris no mundo dos vivos.

Guias de estudos literários para todos os tipos de leitores.
© 2026 All Rights Reserved.