RESUMO
A Ilha de Éolo
A narrativa abre com a chegada de Odisseu e da sua frota a Eólia, uma ilha flutuante cercada por muralhas de bronze intransponíveis. É o domínio de Éolo, o guardião e senhor dos ventos, nomeado pelos deuses. Odisseu é recebido com grande hospitalidade (a sagrada xênia) e ali permanece um mês a relatar os feitos de Troia. Na partida, Éolo concede-lhe um presente inestimável: um saco feito de couro de boi onde todos os ventos tempestuosos estão aprisionados. Apenas Zéfiro, o suave vento Oeste, é deixado livre para soprar as naus diretamente para Ítaca.
O Erro do Herói
Durante nove dias e nove noites ininterruptas, Odisseu assume pessoalmente o leme, recusando-se a dormir ou a confiar a tarefa a outrem. Quando Ítaca já se encontra tão próxima que conseguem ver as fogueiras na costa, Odisseu sucumbe à exaustão e adormece.
ANÁLISE
A catástrofe que se abate sobre a frota logo após a partida da ilha de Éolo é uma das mais dolorosas de toda a obra, pois não é obra de deuses vingativos ou monstros impiedosos, mas sim da pura fragilidade humana. Odisseu assume o leme durante nove dias e nove noites, recusando-se a delegar a tarefa. Esta não é apenas dedicação; é uma recusa arrogante em confiar nos seus subordinados. A sua exaustão final é a prova de que o herói, por mais brilhante que seja, tem limites mortais intoleráveis para o seu próprio ego.
A Ruína
A tripulação, ressentida e movida pela cobiça, convence-se de que o saco contém ouro e prata acumulados pelo seu líder. Então, abrem o saco. Instantaneamente, os ventos libertam-se, criando uma tempestade colossal que os arrasta violentamente para longe da pátria, de volta a Eólia.
A Rejeição Absoluta
Odisseu, em desespero, suplica uma nova ajuda a Éolo. Mas o rei dos ventos expulsa-o com repulsa, declarando que o herói é inegavelmente odiado pelos deuses e amaldiçoado.
A catástrofe aqui não resulta de monstros, mas da própria fragilidade humana: a falha de liderança, a exaustão e a ganância. A tripulação abre o saco dos ventos movida pela suspeita de que Odisseu esconde tesouros (ouro e prata). Isto revela uma fenda fatal na relação de confiança entre líder e liderados. Os homens sentem-se marginalizados na distribuição da glória e dos espólios. O detalhe mais cruel é que eles já conseguiam ver as fogueiras acesas na costa de Ítaca. Homero ilustra aqui que a verdadeira tragédia não é perder-se no desconhecido, mas perder o lar no exato instante em que ele é alcançado. Quando Éolo os expulsa na segunda vez, fica claro o veredicto: a desgraça deles é autoinfligida.
O Massacre entre os Lestrigões
Após seis dias de navegação lúgubre e sem vento (tendo de remar arduamente), a frota chega a Telépilo de Lamos, a terra dos Lestrigões. Num raro instinto de prudência paranoica, Odisseu amarra o seu navio do lado de fora do porto, numa rocha saliente, enquanto as outras onze naus entram e ancoram no interior do porto abrigado. Odisseu envia três batedores para investigar o local. Eles encontram uma jovem que os guia até ao palácio do seu pai, o rei Antífates. Ao entrarem, deparam-se com a rainha, uma mulher de tamanho colossal. O rei Antífates chega e, sem hesitar, agarra e devora vivo um dos gregos. É dado o alarme, e milhares de lestrigões — gigantes canibais — surgem nas falésias. Atiram rochas do tamanho de montanhas sobre os onze navios presos no porto, esmagando a madeira e espetando os homens como peixes para os devorar.
A Fuga Solitária
Odisseu corta as amarras do seu próprio navio com a espada e grita para que os seus homens remem para salvarem as suas vidas. Da esplêndida frota original de doze navios que partiu de Troia, apenas um navio (o de Odisseu) sobrevive. O trauma é incomensurável.
Se o encontro com o ciclope Polifemo (no Canto IX) foi um duelo de intelectos onde a astúcia (mêtis) triunfou sobre a força bruta, o episódio dos lestrigões é a antítese disso. Os lestrigões não oferecem chance para charadas ou diálogo: representam a violência industrializada e esmagadora do mundo caótico. Eles não comem os homens como um ritual ou por vingança, mas pescando-os como peixes, num abate em massa. Por que Odisseu foi o único a amarrar o seu navio de fora do porto? Este detalhe é vital. Após os traumas anteriores, Odisseu desenvolveu uma prudência instintiva e isolacionista. Contudo, essa mesma prudência que o salva é o que condena os restantes onze navios à morte sem que ele nada possa fazer. A partir deste ponto, o comandante orgulhoso de uma esquadra torna-se no líder desesperado de uma única nau de sobreviventes traumatizados.
A Ilha de Eeia
O único navio sobrevivente, tripulado por homens física e psicologicamente destroçados, atraca na ilha de Eeia, o lar da temível e bela feiticeira Circe, uma deusa imortal de tranças loiras (irmã de Eetes e filha do deus Sol, Hélios).
O Reconhecimento
Após um período de luto, Odisseu divide a tripulação em dois grupos. Odisseu comanda um, e Euríloco assume o outro. Tirando à sorte, calha ao grupo de Euríloco ir explorar o centro da ilha. Os homens encontram o palácio de Circe numa clareira. É rodeado por leões e lobos de montanha enfeitiçados, que, de forma aterradora e contra a sua natureza selvagem, se comportam de maneira mansa, abanando as caudas como cães (revelando serem homens previamente amaldiçoados).
A Metamorfose
Circe convida os marinheiros para entrarem. Apenas Euríloco, desconfiado, fica de fora. Circe serve-lhes queijo, cevada, mel e vinho de pramnos, mas mistura pharmaka (drogas mágicas) na poção para que esqueçam a sua pátria. Em seguida, bate-lhes com a sua varinha, transformando-os em porcos (com cabeça, focinho e cerdas), mas preservando intacta a sua consciência humana — uma tortura psicológica extrema. Euríloco foge e, em choque, relata a Odisseu que os homens “desapareceram”.
A ilha de Circe, Eeia, introduz um novo tipo de perigo: o terror metafísico e psicológico. Circe transforma os marinheiros em porcos, uma escolha de animal profundamente simbólica. O porco, na antiguidade, estava associado à gula, à sujeira e aos instintos mais baixos (o apetite descontrolado com o qual os marinheiros se lançam ao banquete envenenado). A verdadeira crueldade do feitiço de Circe não é a transformação física, mas o facto de Homero frisar que “as suas mentes permaneceram como antes”. É o aprisionamento da alma racional humana num invólucro de um animal guiado pelos apetites. Representa a perda da dignidade e da agência.
A Intervenção Divina
Odisseu, mostrando a sua verdadeira coragem, arma-se e decide marchar sozinho para enfrentar o desconhecido e salvar os seus homens. Pelo caminho, o herói é interceptado pelo deus mensageiro Hermes (disfarçado de um belo jovem). Hermes fornece-lhe a ferramenta essencial para a vitória: uma flor mágica chamada móli (com raiz preta e pétalas brancas leite), que imuniza os mortais contra os feitiços de Circe. Seguindo as instruções de Hermes, Odisseu entra no palácio, bebe a poção de Circe e não sofre qualquer efeito. Quando ela ergue a varinha, Odisseu desembainha a espada e investe sobre a deusa como se fosse matá-la.
O Juramento
Aterrorizada, Circe percebe que está diante do lendário Odisseu, abraça-lhe os joelhos e submete-se. Antes de aceitar levá-la para o leito, Odisseu obriga-a a prestar “o grande juramento dos deuses abençoados” de que não tecerá nenhum novo mal contra ele, garantindo assim que ela não o emasculasse quando estivesse nu e vulnerável.
A Restauração
Após o juramento e o banho reconfortante servido pelas ninfas de Circe, Odisseu recusa-se a comer até que os seus homens sejam libertados. Circe unge os porcos com um novo unguento, e transformam-se em homens, ainda mais jovens, altos e formosos do que antes.
Circe usa pharmaka (drogas/poções venenosas) para apagar o nostos (o desejo de voltar a casa) dos marinheiros. Odisseu só a derrota porque Hermes lhe entrega outro pharmakon, a flor móli, que representa a razão divina, o antídoto moral contra a corrupção dos instintos e do esquecimento. O confronto entre Odisseu e Circe é carregado de tensão e dinâmicas de poder patriarcal contra o matriarcado mágico. Quando a magia falha, Odisseu recorre à ameaça de violência física (a espada embainhada contra a varinha mágica). Para dominar a deusa feiticeira, exige o “grande juramento dos deuses”. O medo de Odisseu de ser “desvirilizado” (emasculado) por Circe se for para a cama com ela sem o juramento sublinha a ansiedade masculina da época heroica diante de mulheres poderosas e independentes, cuja sexualidade e intelecto não estavam subjugados ao homem. Ao fazê-la jurar, ele submete o poder feminino à lei divina, garantindo o controle.
O Repouso e o Esquecimento
Os perigos são contornados, mas surge uma nova armadilha: o esquecimento pelo excesso de conforto. Odisseu e a sua tripulação instalam-se com Circe. Durante um ano inteiro, entregam-se aos banquetes e ao descanso, curando os traumas passados. Odisseu, o homem que chorou por Ítaca na ilha de Calipso, aqui rende-se ao fascínio da deusa feiticeira.
O Despertar
São os seus próprios companheiros que, findo o ano, chamam Odisseu à razão e lhe recordam a pátria, revertendo temporariamente a dinâmica de liderança. Odisseu aceita e pede a Circe que cumpra a promessa de o deixar partir.
Talvez a maior ironia do Canto X seja o que acontece depois que o perigo passa. Após um trauma incomensurável, Odisseu e os seus homens encontram um refúgio de luxo extremo. Odisseu, o herói obcecado pelo regresso, deixa-se seduzir pelo conforto e passa lá um ano inteiro em banquetes. Pela primeira vez, os homens que Odisseu julgava falhos assumem a bússola moral. São eles que vão ter com Odisseu e lhe dizem: “Lembra-te da tua terra paterna”. Esta quebra temporária do herói humaniza-o profundamente; mostra que até a mente mais astuta cede à fadiga emocional e necessita do coletivo para recordar a sua essência.
O Destino Mais Obscuro
Circe concorda, mas profetiza o pior cenário possível. Ela avisa-o de que, antes de voltar para Ítaca, ele não navegará para leste nem para oeste, mas terá de descer ao Hades, o Mundo dos Mortos. Lá, Odisseu deve consultar o espírito do profeta cego Tirésias, o único capaz de revelar a sua rota final.
A Morte de Elpenor
O canto encerra com uma nota trágica e quase cômica na sua banalidade. Elpenor, o mais jovem e menos capaz da tripulação, que havia adormecido bêbado no telhado do palácio de Circe, ouve a agitação matinal, esquece-se de descer pela escada, cai de cabeça e morre ao quebrar o pescoço. A sua alma desce ao Hades antes mesmo do navio zarpar.
O canto encerra-se não com uma partida alegre, mas com a exigência mais aterrorizante que um mortal poderia ouvir: para encontrar a vida, Odisseu deve navegar para a morte. A exigência de descer ao Hades para consultar Tirésias significa que a jornada de Odisseu já não é apenas geográfica: torna-se cósmica e espiritual. Ele é forçado a realizar a katabasis (a descida ao submundo, um rito de passagem supremo dos grandes heróis mitológicos). Em agudo contraste com os temas grandiosos do destino e da morte, o canto termina com Elpenor caindo bêbado de um telhado e quebrando o pescoço. Esta morte absurda, anticlímax e desprovida de glória bélica (kléos), serve como um lembrete gélido da fragilidade da condição humana: não é preciso um deus, um monstro ou um feitiço para extinguir a vida humana; a simples gravidade e um erro estúpido bastam.

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