RESUMO
O Regresso a Eana
Logo após emergir das trevas do submundo (Hades), o navio de Odisseu retorna à ilha de Eana (morada de Circe). A primeira ação é um ato de honra e dever fúnebre: eles cremam e sepultam Elpenor, plantando o seu remo no túmulo, conforme prometido no Canto XI.
O Manual de Sobrevivência
Circe, demonstrando novamente o seu papel de guia divina, aparta Odisseu da tripulação durante a noite para lhe revelar o percurso exato e os pavores que ele ainda terá de enfrentar. Ela descreve as Sereias, os rochedos errantes (as plânctas), Cila, Caríbdis e, crucialmente, avisa sobre a intocável vacada do deus Sol (Hélio).
ANÁLISE
A tragédia central do Canto XII é a falência da liderança militar diante do destino cósmico. A partir do momento em que Circe revela a Odisseu os perigos vindouros, o herói é amaldiçoado com o isolamento do conhecimento. Odisseu sabe que a morte se aproxima, mas entende que não pode partilhar a verdade total com os seus homens. Se lhes dissesse que Cila devoraria inevitavelmente seis deles, o pânico generalizado atiraria o navio inteiro para Caríbdis. Ele carrega a culpa do sacrifício calado.
O Canto das Sereias
A primeira provação é a ilha das Sereias. Diferente da representação popular moderna (como criaturas aquáticas que oferecem tentação), as sereias de Homero oferecem uma provação muito mais perigosa para um homem como Odisseu: o conhecimento absoluto e a vaidade do passado.
A Estratégia do Mastro e da Cera
Seguindo o conselho de Circe, Odisseu tapa os ouvidos dos seus marinheiros com cera de abelha derretida, garantindo que continuem a remar cegamente. No entanto, o seu desejo de saber (e a instrução de Circe) exige que escute o canto. Então, manda que o amarrem firmemente ao mastro.
A Sedução do Intelecto
Quando se aproximam, as sereias não prometem luxúria, mas dizem: “Sabemos tudo o que ocorreu na vasta Troia… sabemos tudo o que acontece na terra nutridora”. Elas tentam aprisionar Odisseu na sua própria glória militar (kléos). Seduzido pela promessa de onisciência, o herói grita e contorce-se, ordenando aos homens que o soltem, mas Perimedes e Euríloco, fiéis ao plano original, apertam ainda mais as cordas. A sobrevivência aqui não depende da força, mas da contenção física das próprias fraquezas do herói.
As sereias são frequentemente mal interpretadas como tentações eróticas. Na estrutura narrativa de Odisseia, elas são uma ameaça intelectual e psicológica. O que as sereias prometem a Odisseu é o kléos (a glória). Elas cantam sobre a Guerra de Troia, prometendo-lhe o conhecimento absoluto de tudo o que acontece na terra. Para um herói que sofre de TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático) e saudade, a tentação de ancorar num passado onde ele era um grande vencedor é irresistível. Ceder às sereias é ficar preso ao passado até apodrecer (a ilha é cercada de ossos). Odisseu amarrado ao mastro é a imagem perfeita da Mêtis (astúcia prudente): reconhece a sua própria fraqueza humana e usa a contenção física para não se destruir. Ele escuta o abismo, mas não é engolido por ele.
A Escolha Impossível
Escapando das sereias, o navio entra num estreito aterrorizante. Odisseu depara-se com um dilema de liderança de contornos sádicos, onde não existe a opção de “salvar todos”. De um lado, Caríbdis: um redemoinho monstruoso que suga as águas do mar negro três vezes ao dia. Aproximar-se de Caríbdis significa a destruição total e instantânea de todo o navio e de todos a bordo. Do outro lado, Cila: um monstro cavernoso de seis cabeças caninas disformes, repousando num penhasco inatingível. Passar por Cila garante a perda irreparável de seis homens — um para cada cabeça.
Este é, talvez, um dos dilemas morais (o “problema do bonde” da antiguidade) mais brutais da literatura clássica. Caríbdis representa a aniquilação total e igualitária; Cila representa uma perda parcial, horrenda e calculada. Como líder, Odisseu precisa escolher a sobrevivência do projeto (o retorno a Ítaca) em detrimento da vida de seis indivíduos. Homero não poupa o herói do trauma. O momento em que os homens são erguidos por Cila, gritando o nome de Odisseu e balançando as pernas, é descrito por ele próprio como a experiência mais angustiante de toda a sua vida marítima. A liderança impõe a Odisseu o papel de carrasco involuntário dos seus próprios amigos.
A Liderança Pragmática e a Dor
Como líder, Odisseu toma a decisão horripilante, mas necessária: afasta-se de Caríbdis e navega perto de Cila. Crucialmente, oculta esta informação da tripulação, sabendo que, se eles soubessem que seis iriam morrer, entrariam em pânico e largariam os remos, atirando a todos para Caríbdis.
A Futilidade das Armas
Esquecendo o conselho de Circe de não lutar, o orgulhoso Odisseu veste a armadura e empunha as lanças. É inútil. Cila abocanha os seis marinheiros mais fortes. A descrição é dilacerante: os homens suspensos no ar, debatendo-se e gritando pelo nome de Odisseu uma última vez. O próprio herói confessa aos feácios que esta foi a visão mais dolorosa e miserável de toda a sua jornada marítima.
Quando Odisseu veste a sua armadura para enfrentar Cila, desobedecendo ao conselho de Circe, age movido pelo reflexo do guerreiro de Troia. Homero mostra aqui que a força marcial é inútil contra as forças da natureza e do destino. A sobrevivência de Odisseu não dependerá mais de quão bem empunha uma lança, mas de quão bem consegue suportar a dor e a perda.
A Ilha do Deus Sol (Trinácia)
O desastre final ocorre em Trinácia, onde pastam os rebanhos do deus Hélio. Odisseu, lembrando-se das profecias de Tirésias e Circe, exige que a tripulação passe ao largo da ilha. Contudo, os homens, liderados por um exausto e insubordinado Euríloco, protestam veementemente, exigindo descanso.
A Promessa Quebrada
Odisseu cede, mas faz com que todos jurem não tocar nos animais. Durante um mês, ventos contrários (enviados pelos deuses) os aprisionam na ilha. As provisões do navio esgotam-se e a fome instala-se.
O Motim e o Sacrilégio
Num momento de fraqueza fatal, Odisseu afasta-se para rezar aos deuses por salvação, mas eles enviam-lhe um sono profundo. Na sua ausência, Euríloco profere um discurso persuasivo e perigoso aos marinheiros: é preferível morrer fulminado rapidamente por um deus furioso do que sofrer a morte lenta e indigna da fome. Eles abatem as vacas sagradas de Hélio.
Sinais Macabros
O horror do sacrilégio é ilustrado de forma sobrenatural: as peles das vacas começam a rastejar e a carne a assar nos espetos muge, como se ainda estivesse viva. O destino dos homens está selado pelos seus próprios erros corporais e pela incapacidade de dominar os seus apetites.
O episódio das vacas de Hélio (o deus Sol) é o ponto de ruptura entre Odisseu e a sua tripulação, explorando os limites do livre-arbítrio e da biologia. A tripulação não abate as vacas por pura maldade, mas por puro desespero físico. Euríloco profere um discurso profundamente lógico do ponto de vista do sofrimento mortal: a fome é a morte mais indigna de todas; é melhor morrer pelo raio rápido de um deus do que definhar. Odisseu consegue resistir à fome (adormece após afastar-se para rezar), mas a tripulação não consegue transcender as necessidades do corpo. A tragédia em Trinácia prova que os deuses são implacáveis com a profanação, mas também prova que os homens comuns são prisioneiros da sua biologia. A ruína da tripulação é o preço de não possuir a resiliência sobre-humana de Odisseu.
A Punição Divina
O deus Sol, Hélio, fica enraivecido e ameaça levar a luz do sol para o Mundo dos Mortos se Zeus não punir os culpados.
O Naufrágio Definitivo
Assim que o navio de Odisseu parte de Trinácia, os deuses atacam. O céu escurece, os ventos uivam e Zeus atira um raio fulminante contra a embarcação. O navio é despedaçado e toda a tripulação de Odisseu é atirada ao mar e morre, afundando nas ondas espumosas. A profecia cumpriu-se: todos pereceram por sua própria insensatez.
A Sobrevivência Solitária
Odisseu — o único que não comeu a carne sagrada — amarra o mastro e a quilha despedaçados para criar uma jangada rudimentar. Os ventos empurram-no cruelmente de volta para Caríbdis. Num último momento de instinto e resistência quase desumana, a sua jangada é engolida, mas o herói salta e agarra-se às raízes de uma figueira num penhasco, pendurado ali como um morcego por longas horas, até que Caríbdis vomite os destroços de volta.
O Fim do Ciclo
Exausto, recupera os destroços, rema com as próprias mãos por nove dias e dá à costa na ilha de Ogígia, acolhido (e aprisionado) por Calipso.
A destruição do navio pelo raio de Zeus não é apenas um evento meteorológico; é um evento ontológico (que altera o ser). O navio era o último pedaço de Troia, o último símbolo do seu papel como “Comandante”. Com a morte de todos os homens e a destruição do barco, Odisseu é despojado de todos os seus títulos sociais. Ele não é mais um rei, um general ou um capitão. A imagem de Odisseu agarrado às raízes da figueira sobre o redemoinho de Caríbdis, aguentando horas a fio apenas com a força das mãos enquanto o monstro suga e vomita as águas, é a imagem máxima da resistência humana na minha obra. É a recusa obstinada em morrer, mesmo quando não resta mais nenhuma esperança lógica. Neste ponto exato, o relato de Odisseu aos Feácios chega ao fim. A linha do tempo do passado funde-se com o presente do banquete. O silêncio que cai sobre o salão dos feácios é ensurdecedor. Odisseu acaba de lhes contar como perdeu absolutamente tudo. Esta análise revela que o Canto XII é a purga final. Para renascer e recuperar Ítaca, Odisseu teve de ser esvaziado de todas as ilusões de controle, de todos os seus companheiros, de todo o seu orgulho bélico. Ele chegou aos Feácios como uma “página em branco”, um homem refeito pela dor cósmica, pronto — finalmente — para deixar a esfera dos mitos, dos deuses e dos monstros, e regressar ao duro, real e humano solo da sua casa.

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